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A Delegacia da Mulher se configura como uma política pública de segurança, sob a jurisdição do Estado, que compõe a estrutura da polícia civil. Ao ser criada, ela problematizou os significados acerca da violência contra a mulher, criminalizando-a e jogando-a para a arena política. Desta forma, ao publicizar e tratar as agressões

dos homens contra as mulheres como um problema social, as DMs prosseguimento ao processo de transformação destes saberes, que antes eram enxergados como “normais” pela sociedade; além disso, inovaram através de um atendimento exclusivo, desenvolvido especialmente para atender o público feminino em situação de violência (GROSSI, 1994; DEBERT & GREGORI, 2007).

No decorrer das últimas décadas, as DMs se expandiram por todo o país; porém, de forma discreta, ocupando menos de 10% dos 5.570 municípios do Brasil (SANTOS & PASINATO, 2008), sendo, assim, pouco difundidas, quando não ausentes, nos interiores e concentrando-se nas grandes cidades (SCOTT & CORDEIRO, 2013).

Segundo estudiosos/as do tema, esta ampliação também tem se dado de forma precária, apresentando, de forma generalizada, a necessidade de mudanças e investimentos na estrutura física, nos recursos humanos, nos equipamentos e na formação dos/as policiais nas temáticas de gênero e violência (AMARAL et al., 2001; BRASÍLIA, 2004; PASINATO & SANTOS, 2008).

Também se constata a “subvalorização dessas delegacias no interior da corporação policial” e dos próprios profissionais, “sob o entendimento de que essas delegacias lidam com crimes de menor potencial ofensivo à sociedade” (PERNAMBUCO, 2011, p. 81). Fato este que pode retratar o entendimento da violência contra a mulher como ainda pertencente ao âmbito do privado, eximindo da esfera da justiça seu trato e delegando à família a solução desse conflito (DEBERT, 2008).

Os serviços que atuam junto às Delegacias da Mulher, como os centros de referência, as casas-abrigo, o juizado de violência doméstica e defensoria pública, também apresentam fragilidades, seja na celeridade do julgamento dos casos, seja na quantidade de pessoas que o serviço comporta (PASINATO, 2012). O que, por sua vez, retrata uma cadência assimétrica entre as demandas sociais e o investimento do Estado na política da mulher.

Compreende-se que a questão da violência, estando entremeada por facetas diversas, exige um acompanhamento integral e não só investimento na criação de

novas Delegacias, visto que estas são um dos instrumentos que proporcionam uma vivência mais digna à mulher, mas não os únicos.

Com a criação da Lei Maria da Penha os mecanismos empregados no enfrentamento à violência contra a mulher se enrijeceram. Entre 1995 e 2005, esse tipo de crime foi julgado segundo a lei 9.990/95, a lei da criação do JECRIM – Juizado especial cível e criminal. De acordo com Debert e Oliveira (2007), estes dois instrumentos – a Lei Maria da Penha e o JECRIM – apresentam diferenças estruturais, de forma que compreendê-los faz-se fundamental para, desta forma, entender a importância da adoção da Lei Maria da Penha nos casos de violência doméstica e familiar. Segundo Debert e Oliveira (2007),

“(...) No JECRIM, a defesa da família – tida por seus agentes como uma instituição baseada em relações de afeto e complementaridade de deveres e obrigações diferenciados de acordo com o gênero e a geração de seus membros – orienta os procedimentos conciliatórios, reproduzindo as hierarquias e os conflitos próprios desta instituição. As DDM, em contrapartida, criadas para defender a mulher enquanto titular de direitos civis são uma resposta às reivindicações dos movimentos feministas empenhados em realçar as relações de poder e dominação que permeiam a vida familiar” (DEBERT & OLIVEIRA, 2007, p 308).

Baseado na lógica do acordo e da conciliação de conflitos, o JECRIM priorizou os direitos da família em detrimento aos direitos da mulher. As punições também se davam através de prestação de serviços comunitários e pagamento de cestas básicas, sob alegação de uma alternativa à prisão e da garantia de um tratamento igualitário entre homens e mulheres (ROMEIRO, 2008).

A Delegacia, quanto ao seu funcionamento, a partir da aplicação da lei 11.340/2006, adotou novamente a instauração de inquéritos, sendo substituída pelo uso do termo circunstanciado de ocorrências que consiste num procedimento mais rápido e menos formal, em que consta a versão do/a acusado/a e do/a que está acusando e dispensa os depoimentos de testemunhas. Também proibiu a utilização de pena pecuniária e incorporou métodos mais rígidos de punição (PASINATO, 2011).

Para gerenciar e coordenar todas as DMs, o Estado de Pernambuco criou, através da Lei 13.547/2008, o Departamento de Polícia da Mulher (DEPMUL), incluindo também um Núcleo de Prevenção aos Crimes Contra a Mulher (NUPREM). Atualmente existem 10 Delegacias espalhadas por todo o Estado, sendo uma na capital – Recife – e outras três na região metropolitana – nos municípios de Jaboatão dos Guararapes, Paulista e Cabo de Santo Agostinho. No interior se faz presente em Caruaru, Goiana, Garanhuns, Vitória de Santo Antão, Surubim e Petrolina.

O objetivo da DM é atuar na prevenção, enfrentamento e erradicação da violência contra a mulher se inserindo no “contexto de efetivação dos direitos das mulheres e cumprimento das obrigações contraídas pelo Estado brasileiro perante os sistemas de proteção desses direitos” (BRASIL, 2006, p.16). Nas Delegacias da Mulher do Estado de Pernambuco trabalham policiais, homens e mulheres, executando dentre outros atributos, o atendimento à mulher em situação de violência e o fornecimento de informações acerca dos direitos que ela possui, previstos na lei 11.340/2006 (BRASIL, 2006). A partir deste primeiro atendimento é preenchido o boletim de ocorrência que, por sua vez, gerará o inquérito policial e o processo, sendo julgado por juíza ou juiz.

Mesmo subvalorizada na corporação e alvo de negligência e descaso quanto aos recursos, esta instituição representa um importante instrumento no combate à violência contra a mulher, constituindo-se como uma das principais portas de entrada desta demanda (SANTOS, 2008) e, podendo ser, desta forma, um instrumento fomentador da mudança social.

3 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS