4. as dimensões teoria e prática nos cursos de formação docente na modalidade Normal
4.2. Teoria/prática na formação de professores: a prática inicia no estágio?
4.2.1. As demandas do passado e suas implicações no presente
Percebe-se até aqui que o contexto da formação docente na história da educação é permeado por avanços, mas, pode-se notar que teve descontinuidades dos processos didáticos- pedagógicos. Para adentrarmos neste espaço de conhecimento, faz-se necessário entender que [...] a formação é uma prerrogativa exclusiva dos seres humanos, por quê ligada à existência que encontra sua origem no próprio ser humano (MACEDO, 2010, p. 57)”. A formação não se dá fora do sujeito, nesse sentindo, se constitui de forma diferenciada em cada sujeito conforme as suas experiências e vivencias, pois, depende das condições de formação, e estas, são complexas ao envolver aspectos éticos, políticos, culturais, sociais e históricos.
Compreendemos que a formação ocorre por meio de experiências e vivência do próprio sujeito, sofrendo influências externas (meio social). Essas influências, são representadas nas Teorias do Currículo, expressas pelas Tendências Pedagógicas na prática escolar. Assim, não se pode negar a relevância do mesmo na formação docente, nem as suas mutações, pois é por meio deste que iremos buscar entender o momento atual, “sem história não há identidade: nem pessoal, de sujeito cidadão, nem nacional, de cidadania, de projeto de sociedade (Bordignon, 2011, p. 03). Desse modo, conhecer o contexto histórico da formação docente, nos faz entender que os desafios que enfrentamos hoje, apenas ganharam uma nova roupagem, mas, permanecem os mesmos.
Ao longo da história a formação de professores se configuraram em dois modelos estruturais, sendo eles o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos e o modelo pedagógico- didático. Segundo Saviani o primeiro “se esgota na cultura geral e no domínio específico dos conteúdos da área de conhecimento correspondente à disciplina que irá lecionar” (2009, p. 149). Enquanto o segundo se contrapõe, pois “considera que a formação do professor propriamente dita só se completa com o efetivo preparo pedagógico-didático (idem.)
Esses modelos referem-se ao conteúdo e forma, ou seja, ter domínio dos conteúdos e também dos métodos se configurando em um preparo pedagógico-didático. Portanto, a articulação entre eles é essencial na formação do professor, um não pode sobrepor ao outro, se assim acontecer, abre-se uma lacuna na formação, uma vez que, não se pode conhecer e não saber como fazer, ou saber fazer e não conhecer (prática sem uma reflexão), conhecer o “como fazer”, é uma centralidade nos documentos oficiais ao enfatizar as competências e perfil profissional do professor.
Em termos práticos, a articulação dos dois modelos não se constituiu de forma satisfatória nas licenciaturas (professores de disciplinas do ensino fundamental II e ensino médio), predominando um modelo em detrimento a outro. No entanto, na formação de professores para lecionar na educação infantil e anos iniciais obteve avanços entre o conteúdo e forma, sendo nas instituições de Escolas Normais onde “expressou a predominância do modelo pedagógico-didático, articulando, de forma mais ou menos satisfatória, os aspectos do conteúdo e da forma que caracterizam o processo de ensino” (SAVIANI, 2009, p. 150).
Quanto a formação em nível superior (para os anos iniciais), Saviani apontou dois aspectos que se contrapõe que são:
[...] a elevação ao nível superior permitiria esperar que, sobre a base da cultura geral de base clássica e científica obtida nos cursos de nível médio, os futuros professores poderiam adquirir, nos cursos formativos de nível superior, um preparo profissional bem mais consistente, alicerçado numa sólida cultura pedagógica.
Por outro lado, entretanto, manifesta-se o risco de que essa formação seja neutralizada pela força do modelo dos conteúdos culturais-cognitivos, com o que as exigências pedagógicas tenderiam a ser secundarizadas. Com isso, esses novos professores terão grande dificuldade de atender às necessidades específicas das crianças pequenas, tanto no nível da chamada educação infantil como das primeiras séries do ensino fundamental. (Ibid., 2009, p. 150)
Com base no exposto, a formação do discente que cursou o magistério (Escola Normal), ao ingressar na universidade deveria de fato ter um preparo profissional, entretanto, há um choque de cultura, e um excesso de conteúdo que acaba por “neutralizar” o preparo pedagógico
didático, realizando uma reconstrução do fazer pedagógico, norteado pelas competências exposta na legislação vigente.
Os documentos oficiais apresentam um perfil de professor baseando-se nas competências. A formação docente, nestes documentos, vislumbrando o mérito do professor, por meio da produtividade e eficiência. Conforme o Parecer CNE nº 01/02 no Art. 3º na formação de professores deve-se considerar:
I. A competência como concepção nuclear na orientação do curso;
II. A coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor, tendo em vista que:
a. A simetria invertida, em que o preparo do professor, por ocorrer em lugar similar aquele em que vai atuar, demanda consistência entre o que faz na formação e o que dele se espera;
b. A aprendizagem como processo de construção de conhecimento, habilidades e valores em interação com a realidade e com os demais indivíduos, no qual são colocados em uso, capacidades pessoais;
c. Os conteúdos, como meio e suporte para a constituição das competências; d. A avaliação como parte integrante do processo de formação, que possibilite o
diagnóstico de lacunas e a aferição dos resultados alcançados, consideradas as competências a serem constituídas e a identificação das mudanças de percurso eventualmente necessárias (BRASIL, 2002, p. 62)
Vale lembrar que no seio das escolas normais a formação voltava-se a dimensão prática da profissão, onde os conteúdos serviam de base para aplicação dos métodos “tidos como bons”, ou seja, a reprodução de técnicas de ensino, as quais não considerava o aluno em seu contexto social, suas especificidades, mas, um modelo aplicado por igual.
No contexto atual, o aluno deve ser considerado partícipe dessa formação, no processo de ensino/aprendizagem, assim, o professor deve considerar as suas especificidades, o contexto social o qual está inserido, bem como as limitações da própria escola. Contudo, o que podemos oferecer a este aluno em termos de conhecimento, autonomia e criticidade? À priori o professor deve se perguntar se o Projeto Político Pedagógico daquela instituição formadora está em conformidade com os seus ideais enquanto docente, pois, é este documento que irá nortear a sua prática, comumente ao perfil do aluno que caminha para se formar.
Notamos o despreparo de alguns profissionais que atuam nessas instituições formadoras, mesmo com um diploma atingindo um nível alto de escolarização, ainda esbarram na relação teórico e prática da profissão, pois, não conseguem realizar uma transposição didática, alguns, nem saíram destas instituições, apenas muda-se de lugar, saem da condição de aluno para ser o professor-formador sem o mínimo de experiência no campo educacional.
É preciso lembrar que vivemos no mundo digital, onde a tecnologia invade bruscamente nossos lares, e mesmo tentando não imergir neste mundo, somos tomados por ele. As crianças
desde muito cedo, são apresentadas a celulares, tablets, vídeos no youtube, jogos, dentre outros atrativos da internet, então, quando chegam a escola, já conhecem coisas que o professor resistente a mudança tecnológica não as conhecem, então as práticas lidas naqueles livros escritos na década de 80 e 90, não respondem mais as mesmas expectativas dos discentes. Assim, continuam os velhos problemas, buscando novas soluções.
Outro ponto a ser enfatizado são os programas educacionais, estes, não dão resposta para atender aos velhos problemas da educação que é o número de analfabetos, e agora, surge um outro tipo de analfabeto o analfabetismo digital, funcional. Neste último, muitos profissionais da educação estão imersos, sendo por vezes a causa da resistência a mudança, o “novo”. Diante disso, buscamos refletir que a teoria deve estar interligada a prática, pois se você á conhece, consequentemente saberá agir no momento oportuno. Assim, irá relacionar o contexto ao qual está imerso, e buscar soluções práticas para ressignificar de tal realidade.
É nesse contexto que envolvemos os diversos saberes, formais e informais em busca do conhecimento, da experiência, da razão, e assim, surge a formação, pois, a formação docente, se faz diariamente, relacionando o fazer cotidiano, as experiências vivenciadas em ciência na academia, e claro, retornando para a escola, com um novo olhar, e outras roupagens.
As demandas do passado são implicações sim no momento atual, pois são resquícios de uma educação tradicional imbuídas em uma ideia de formação progressista. É possível notar que o currículo dos cursos ainda segue uma organização vertical, onde apresenta a teoria (um conhecimento científico) e depois a aplicação dessa teoria (a prática) no momento do estágio supervisionado, nos últimos anos do curso.
Isso significa dizer que ainda não houve a superação da dicotomia entre a teoria e a prática nas instituições formadoras. Pois muda-se a legislação, mas os velhos problemas continuam, como a falta de recursos, infraestrutura, valorização profissional, essas entre outras são demandas políticas do passado e que permanecem atualmente. Enquanto, olharmos essas demandas na forma vertical, elas serão sempre as mesmas, mas, quando encararmos a educação como uma ação transformadora, voltando-se a formação do senso crítico e reflexivo, consciência política, será o ponta pé inicial para a mudança que há séculos sonhamos ou desejamos realizar.