4 MANTENDO A ESCRITA: DAS QUATRO LINHAS ÀS PAGINAS DE
4.1 As demandas intrínsecas: obras exemplares
O jogo de futebol se estrutura como fato social e cultural no Brasil através, evidentemente, da atuação prática de todos os seus elementos intrínsecos constituintes, ou seja, os jogadores (e as funções que cumprem dentro e fora do campo); os clubes (com os times que os representam para os seus sócios e torcedores); os próprios torcedores (na expressão comovente de suas paixões pelos clubes e participação decisiva na própria festa de
competição que o jogo produz); a arbitragem (e o papel primordial que exercem os árbitros na administração da justiça e cumprimento da regras do jogo); os dirigentes (e suas interferências diretas no próprio ordenamento concreto do universo específico desse esporte); as instituições do Estado (na ação regulamentadora, fiscalizadora e preventiva das funções e disfunções da prática esportiva como lazer ou profissão) e a imprensa (no seu papel dinamizador, articulador e difusor da informação social que configura o campo esportivo).
Quanto a isso – com referência a toda essa gama de elementos e aspectos que o informam enquanto matéria cultural –, demonstramos já como historicamente o tema do futebol foi se firmando em nossa cultura letrada como um assunto relevante a ponto de ir paulatinamente se constituindo num dos motivos centrais da nossa “conversa social”. Inicialmente, através do jornalismo, campo de conhecimento em que se ancorou para ganhar o espaço público e adentrar, já num patamar em que se transformou em objeto de preocupação estética, a nobre esfera da arte. Posteriormente, então, através da literatura mesmo, já nesse momento sobre o qual explicitamos um pouco atrás toda uma plataforma teórico-descritiva sob a qual o tema se reconfigurou e ganhou autonomia e centralidade na vida cultural do nosso País. É em cima desse segundo momento, portanto, que procederemos, agora, a leitura do assunto do futebol como temática literária. Iniciaremos com a sua efetividade prática transitando do registro jornalístico – através da crônica – para a sua abordagem propriamente literária, já devidamente apropriada pela forma do conto de ficção. Tomamos como exemplificação desse fato de escrita, o trabalho do jornalista e escritor paulista, Daniel Piza (ver pág. 294), do qual escolhemos um texto, intitulado Golpe de vista (PIZA, 2006, p. 27- 37), que nos servirá de exemplo demonstrativo do tratamento literário do futebol em suas demandas intrínsecas, o que melhor ficará explicado à medida que for progredindo a nossa leitura do tema em outras peças literárias.
O conto em questão, que retrata ficcionalmente uma batalha particular que está prestes a acontecer entre um atacante e um zagueiro adversário durante uma partida de futebol que pode decidir um campeonato para uma das partes, intenta demonstrar, pelas vias labirínticas da ficção – embora o tecido textual não contenha o intrincamento necessário a estes casos – o quanto se repelem, mas também se complementam, as forças de criação e de destruição, ambas representadas aqui pelas figuras do jogador que defende e do que tem a incumbência de atacar, no emaranhado tabuleiro do jogo de futebol.
O atacante chama-se Roberto e é um daqueles jogadores que decide o jogo, de quem se espera tudo e que, por isso mesmo, merece toda a atenção do time adversário além de, dependendo da importância da partida, receber sempre a marcação especial de um
zagueiro a acompanhar todos os seus passos em campo. Enfim: a encarnação das forças proativas e definidoras na lógica do jogo da bola aos pés.
O zagueiro Vanildo, por seu lado, apresentado na narrativa como um ex-camisa 10 que passou a jogar na zaga com bons resultados (no futebol o camisa 10 é o signo máximo das forças de criação das jogadas), é o próprio símbolo da superação na vida pessoal: “Seu Amarildo não acreditava que o filho pudesse ser titular de um time grande já aos 19 anos. A vergonha passou a ser o orgulho da família” (PIZA, 2006, p. 29-30).
O zagueiro, enfim, pela boa fase por que passa na carreira e como portador da simbologia da mudança de foco na vida pessoal e profissional (de criador tornou-se um defensor de sucesso), é a figuração valorativa da dialética criar/destruir, uma constante estrutural presente tanto no futebol quanto na própria vida das pessoas.
Temos aqui, portanto, como base estrutural do conto, a configuração feita pelo narrador de como estes dois campos opostos, a defesa e o ataque (também uma das bases estruturantes do jogo que lhe serve de tema) pode servir de mote para a encenação literária da reversibilidade de situações típicas do jogo – e também da vida em geral – que simultaneamente se opõem e se complementam. O problema, a lamentar nesse caso – e é por isso que usamos esse texto como exemplo em nossa leitura – é que um tema tão instigante quanto esse não tenha encontrado no jornalista Daniel Piza – neste caso, no plano da fabulação ficcional criada por ele – um autor à altura da sua oportuna e, mais do que isso, necessária, representação literária.
Em vez disso, o conto é vazado num texto artisticamente infértil que revela a figura de um narrador mais afeito ao âmbito jornalístico do que literário. Esse traço contraproducente da sua narrativa é tanto uma constante que pode ser demonstrado com qualquer de seus fragmentos. Vejamos essa caracterização do atacante Roberto, feita a certa altura pelo narrador onisciente, aquele que penetra até nos pensamentos dos seus personagens: “[...] O que mais o espantava era a combinação de velocidade com habilidade. Ele vem com a bola escondida, não dá nem para dar um toquinho de bico. Ele pode sair para qualquer lugar. Domina, dribla e chuta com os dois pés. E o bicho é tão rápido e ágil que é difícil segurar. Com espaço, então, humilha a gente” (PIZA, 2006, p. 33).
Com uma pequena variação, esse conteúdo da descrição acima parece ser uma síntese de trechos retirados de crônicas jornalísticas escritas pelo mesmo autor 101 – sobre a
101 As crônicas citadas possuem, respectivamente, os seguintes títulos: “A ginga do meteoro”; “A convulsão e salvação da mídia”; “De glórias e infortúnios” e “Ronaldo 100%”. In: ALMEIDA, Miguel de (Org). A vez da
figura real do jogador Ronaldo, o fenômeno, que transpostas sem um tratamento literário adequado para o âmbito da ficção, soa ineficaz e anódino, para não dizer inócuo. Comparemos os textos, agora citando-os no registro jornalístico em três diferentes momentos das suas crônicas:
[...] Este é o segredo do seu futebol: ele faz ginga em alta velocidade; o jogo de cintura que os dribladores demonstram com a bola parada, ele demonstra com ela correndo. Varia o arranque de acordo com a situação presente e com a futura, antevendo a jogada (PIZA, “A ginga do meteoro”, in ALMEIDA, 2004a, p. 18). [...] O fato é que Ronaldo representou uma novidade para o futebol mundial. Seu estilo combina a artimanha sul-americana com a articulação européia, o futebol-arte e o futebol-força, a imprevisibilidade do drible com a velocidade da tática (PIZA, “Ronaldo 100%”, in ALMEIDA, 2004a, p. 34)
[...] E o mais relevante: ele pode sair para qualquer um dos lados, porque não só domina e chuta com a perna esquerda, mas também conduz e dribla com ela. Raros jogadores fazem isso. Pelé fazia (idem, ibidem, p. 34).
Dá para constatar pelos exemplos – e são tantos ao longo do conto –, que esta narrativa sobre futebol (que se pretende ficcional, diga-se de passagem) levada a cabo por Daniel Piza peca muito por ser excessivamente tributária da sua experiência como jornalista. Daí porque a utilizamos como exemplo aqui de uma situação de transição. Daí porque, também, a sua previsibilidade de entrecho; o seu tom morno ao invés de quente, mais apropriado ao conto; o seu rosário de situações comuns do jogo retratadas de forma também comum para o registro artístico; o seu clima de relato literário forçado, que pode ser demonstrado, por exemplo, com esse fragmento, a título de arremate de tudo o que está acima estipulado:
“Desta vez, não. Vanildo via sempre seu nome na escalação dos ‘craques da semana’ na página 2 do Lance!. Na TV já tinha gente pedindo seu nome para a reserva de Juan e Lúcio na seleção. Tinha até feito três gols de cabeça, em escanteios. E nenhuma expulsão no campeonato inteiro! [...] Ele se sentia como o ‘novo Gamarrra’, justamente como um comentarista da Globo o tinha chamado na transmissão do jogo anterior. ‘Só que você é mais alto e mais forte que o Gamarra’, disse o pai, Amarildo, na noite depois do jogo. Vanildo riu para dentro” (PIZA, 2006, p. 30-31).
Ao invés da linguagem de sugestão – tanto em nível de léxico quanto de semântica –, sempre bem vinda ao campo literário em oposição ao âmbito marcadamente referencial do jornalismo, para citar apenas um dos traços negativos que repontam no trecho citado, temos aí a escolha inoportuna de um registro em que a objetividade se sobrepõe à subjetividade quando a idéia é justamente revelar o estado interior do zagueiro, no momento da confrontação decisiva com o seu opositor atacante. Até a escolha de um narrador bola: crônicas e contos do imaginário esportivo brasileiro. Ilustrações Eduardo Burato, Werner Shulz. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004, p. 15-37.
onisciente para o caso não funciona bem, uma vez que para retratar os estados subjetivos em momentos cruciais existem focalizações literárias mais adequadas.
Mas fechemos a história em seu embate final. Antes, contudo, para não ficarmos apenas em seus aspectos ineficientes enquanto literatura de ficção, louvemos um detalhe do seu conteúdo, aquele em que a representação literária se irmana com uma das boas representações de caráter simbólico do futebol. Um momento raro em que alguma novidade literária surge no texto, através do pensamento do personagem zagueiro, revelado pelo narrador: “[...] Para ele, futebol é batalha. Está cheio de expressões como vencer, lutar, derrubar, bater, atirar, dar uma bomba. Uma vez tinha lido o artigo de um cronista que dizia que futebol é como fazer sexo, por expressões como enfiar, penetrar etc. em que a menina é a bola e marcar um gol é como gozar dentro” (PIZA, 2006, p. 35).
No demais, o conto é previsível em tudo. Até no seu desfecho final, quando “o estádio prendeu a respiração. Roberto se preparou para acertar a bola com a chapa do pé e mandá-la no canto. Nesse momento, Vanildo veio voando como um míssil e dividiu a bola com Roberto. Crack! O barulho ecoou no silêncio do estádio” (idem, ibidem, p. 37) e...
Impossível o leitor não pressentir que aí, neste momento final, quebrou-se o encanto do texto junto com a perna do jogador.
Para demonstrar o contrário, a manutenção (ao tempo de leitura de toda a narrativa) do encanto do texto – encanto que perdura tanto mais a literariedade do seu conteúdo se afirma na forma de sua transposição para o patamar estético –, tomemos, agora, este conto de Plínio Marcos – ver pág 344 –, intitulado O Suborno (MARCOS in COSTA, 2002, p. 22-26), uma típica narrativa de situação conforme caracterização do crítico literário Alfredo Bosi para aquelas histórias em que o trabalho ficcional “tende a cumprir-se na visada intensa de uma situação, real ou imaginária, para a qual convergem signos de pessoas e de ações e um discurso que os amarra” (BOSI, 1997, p. 8). A sua leitura aqui tem o propósito de explicitar o peculiar modus operandi da representação literária quando intrinsecamente ligada à própria forma estruturante do jogo de futebol, assim como exemplificar sob que base se dá a tematização da figura do jogador considerado tanto na sua condição de indivíduo (de pessoa) como na circunstância de ator social (ser coletivo), simultaneamente.
Este é, pois, o caso dessa narrativa em que avulta o seu personagem central: um jogador de futebol experiente e já veterano, que está disputando a segunda divisão do futebol brasileiro e que por se ver imerso em um episódio de suborno, é obrigado a não marcar nenhum gol na partida final do campeonato da série que disputa, quando é levado a cobrar um pênalti marcado aos 40 minutos do segundo tempo por um juiz também suspeito de dirigir o
resultado da partida. Drama de consciência, reavaliação da escala pessoal de valores que orientou toda a sua carreira até então e o enfrentamento de dilemas éticos são os elementos que compõem as ocorrências sobre as quais se erige esta estória curta em que os recursos estilísticos da repetição, reiteração e redundância retórica – a figurar linguisticamente a intensidade gradativa do drama interior do personagem protagonista –, dão o tom da performance enunciativa de um narrador onisciente e elucidativo que, também, a partir de uma situação angular, dimensiona toda a história.
É precisamente por operar uma focalização de forte apelo retórico-formal que o efeito de sentido desse conto, como diria Julio Cortàzar, se situa justamente na instância precisa da sua narratividade. Portanto, deve-se destacar, a propósito, o modo como o narrador constrói seu relato apoiado em situações-chaves que, uma vez superpostas, compõem uma espécie de painel humano em que a interioridade do indivíduo é contraposta à exterioridade do seu campo de intervenção social, no caso, o universo nem sempre lúdico do futebol.
Neste sentido, é extremamente elucidativo da condição particular vivenciada na história pelo seu personagem principal, a narrativa ir captando aos poucos – saindo da focalização situacional geral para a singularização dos eventos repercutindo na pessoa – os momentos decisivos do jogo (a partida de futebol) redefinindo os instantes também decisivos da vida do jogador. Talento e atitude, atitude e torpeza, torpeza mais sordidez, altivez e fraqueza, fraqueza mais pusilanimidade, ascensão e decadência... Tudo isso aparece eficazmente dimensionado na história através de um discurso literário competente que os amarra, como diz Alfredo Bosi.
Pois esta amarração é feita por meio de um poderoso nó ficcional (e por razões de verossimilhança, por que não dizer: fortemente experiencial) que o narrador vai apertando, apertando, na história, para o seu personagem protagonista ao mesmo tempo em que o vai desatando para nós, os leitores, em situações auto-explicativas que passamos a mostrar, comentando-as apenas quando necessário:
“Zero a zero, zero a zero, a zero a zero, aos trinta, aos trinta e cinco, aos quarenta, aos quarenta da fase final, zero a zero aos quarenta minutos da fase final de um jogo de decisão de título, decisão de título da segunda divisão, da maldita segunda divisão, zero a zero, zero a zero, a zero a zero aos quarenta minutos, cinco para acabar, e a bola rolando, rolando, rolando e atrás dela músculos, nervos, sangue de vinte e dois homens, de vinte e dois homens desesperados, jogando o jogo da vida ou da morte, vinte e dois homens rolando suas vidas atrás da bola, da bola miúda da segunda divisão, da segunda divisão do futebol do absurdo, vinte e dois absurdos profissionais dançam uma estranha dança que milhares de olhos seguem atentamente a cada lance, a cada lance, a cada lance” (MARCOS in COSTA, 2002, p. 22).
Aqui a história – já devidamente situada em seus elementos de tempo e de espaço – segue o seu curso decorrente e inclui, agora, um elemento de estrutura fundamental do jogo de futebol: a sua dimensão aparente (aquilo que se vê dentro das quatro linhas do campo) e o que se situa fora delas, isto é, fora do foco preferencial da essencialidade presumível desse esporte; o que está para além das quatro linhas, o homem por trás da bola, como diria Nelson Rodrigues. Note-se que tal elemento (as dimensões do que se vê e do que não se vê) é utilizado pelo narrador para imputar ao jogo (como, aliás, à existência como um todo) o seu caráter dúplice e paradoxal, assentado na equação essência versus aparência que fundamenta, fenomenologicamente, todo tipo de realidade. Aqui, por exemplo, e por intermédio do narrador, é feita uma ligação fundamental entre as realidades do futebol e da literatura, uma vez que ambas comportam a dimensão comum do fingir;102 do fazer de conta; do simular – como instância presente, constante e estrutural:
“Mas, só vêem o que aparece, o lance. Os socos, os pontapés, as cotoveladas, as escarradas, as escarradas, as escarradas, que se dão uns na cara dos outros, e os socos e os pontapés e as cotoveladas, que se dão uns nos outros, ninguém vê, ou finge não ver” (idem, ibidem, p. 22).
Justamente essa dimensão do fingir, no seu sentido literário, é que ancora a razão de ser dessa história de ficção, como veremos. Antes, porém, vamos aos seus fatos situacionais, já que dissemos antes que ela trata de um caso de suborno e de suas decorrências, por conseguinte.
“Zero a zero, zero a zero, a zero a zero. Trinta, trinta e cinco, quarenta minutos. Quarenta minutos da fase final, faltando apenas cinco minutos para o jogo acabar. Apenas cinco. E o juiz apita, apita, apita. Um jogador fica caído na área do adversário. O juiz apita, apita, apita pênalti.
“[...] E, ele, ele, o veterano em fim de carreira, ele que teve tantas glórias, ele é que tem que cobrar o pênalti. Um pênalti, um maldito pênalti, apitado por um juiz que ele sabe, ele que é veterano, ele que teve tantas glórias, ele que tem muita experiência sabe, sabe bem, sabe muito bem que o juiz apitou aquele maldito pênalti, apitou aos quarenta minutos finais de uma decisão de título, apitou pênalti, pênalti, faltando cinco minutos para o fim do jogo, porque estava pago, pago para influir no resultado” (MARCOS in COSTA, 2002, p. 23).
102 Note-se, nesse sentido, que etimologicamente é o verbo oriundo do latim, fingo/fingere=fingir, que vai originar o conceito de ficção (fictionem) em literatura. Daí, por exemplo, é que surge o conceito de ficcionalidade da obra literária, algo que pode ser explicado teoricamente a partir de pelo menos dois fatores: a intencionalidade do autor ou a existência tácita de um “contrato” entre autor e leitor em aceitar determinado texto como sendo de ficção; de “fingimento” de algo real. É nesta perspectiva contratualista, portanto, assim entendiada a questão, que “vigora um acordo consensualmente baseado na chamada ‘suspensão voluntária da descrença’ e orientado no sentido de encarar como culturalmente pertinente e socialmente aceitável o jogo da ficção”, como parecer ser o caso apontado no texto em análise. Cf. REIS, Carlos.; LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo: Ática, 1988. (Fundamentos; n. 29), p. 43-44.
O caso de suborno que é, digamos, o leitmotif dessa narrativa, assume, na história, uma dimensão que o coloca como um componente quase inevitável na configuração do futebol como um segmento da indústria do lazer e espetáculos públicos. É assim, pelo menos, que ele entra na consciência e na vida do seu personagem central:
“O maldito pênalti. Ele, ele, ninguém além dele poderia naquele time bater aquele pênalti, ele o veterano, ele o craque que teve tantas glórias, ele o mais experiente. Ele que por ser já um veterano, ele, justamente ele, que por ser o mais experiente, recebeu dinheiro, muito dinheiro, dinheiro para não marcar nem aquele gol, nem nenhum outro gol naquele jogo, naquele maldito jogo da decisão de título da maldita segunda divisão do maldito futebol do absurdo” (MARCOS in COSTA, 2002, p. 24).
É, então, a partir daí que este fato – o suborno que se impregna como uma mancha maldita na consciência do personagem –, toma a centralidade da narrativa, determinando-lhe seu movimento interno, seu ritmo e conteúdo, apresentando como termômetro pendular o universo interior móvel e auto-reflexivo da sua personagem-modelo de que mostraremos dois trechos como exemplo, através da onisciência funcional do narrador em sua terceridade enunciativa: ora como detentor propriamente dito da palavra narrativa (primeiro caso), ora como ordenador textual das palavras do subornador, no segundo caso.
1º caso:
“Sentiu vontade de esganar aquele maldito subornador, sentiu vontade de lhe arrancar a língua, sentiu vontade de fazer o repelente abutre imaginador de repelências engolir cada uma das malditas notas do dinheiro do maldito suborno. Mas, vacilou, pensou, pensou, pensou, se devia escutar o repelente abutre a expor a repelência, pegar o dinheiro e entregar para o seu clube. E enquanto ele pensava, pensava, pensava, continha o ódio, continha, e o repelente abutre falava, falava, falava, mansamente, como quem não quer ganhar, como quem não quer perder” (MARCOS in COSTA, 2002, p. 24).
2º caso:
“ – Seu nome, seu grande nome, seu retrato no jornal, sua bola, a sua grande bola, acabou, você acabou, você acabou, acabou, acabou nessa triste bola miúda de segunda divisão. [...] Seu nome, seu grande nome, seu retrato no jornal, sua bola grande, tudo, tudo, tudo, reduzido a essa bola miúda da segunda divisão. E as pernas, suas pernas, as suas pernas? Como estão suas pernas? Comidas pela bola, com os ossos, os nervos, os músculos estilhaçados, assim estão suas pernas. E só resta para essas suas pernas esgotadas essa bola miúda da segunda divisão. E até