CAPÍTULO I – A HUMANIZAÇÃO COMO POLÍTICA
1.4 OS PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS APOIADORES
1.4.3 As descontinuidades provocadas pela alternância de
A alternância de gestão de todos os municípios, estados e do próprio país é uma realidade que faz com que os cenários políticos, obviamente, também se alterem. A saúde não escapa desse palco de mudanças e, dessa forma, ideias e projetos se constroem, desconstroem e reconstroem.
No que tange a PNH, os consultores mencionaram as reverberações sobre as atividades desenvolvidas nos territórios e o quanto o apoio é sensível a essas mudanças de gestão. C3 fala sobre o desafio de lidar com a PNH dentro desse contexto: “A gente tá trabalhando num contexto x, aí num determinado território onde a PNH sempre trabalhou e sempre trabalhou bem, a eleição revela um outro panorama político, é óbvio que o modo como a PNH vai se posicionar
vai ser outro, entendeu?”. C2 também mencionou esse contexto de mudanças como „extremamente desafiador‟:
No próprio processo, o contexto vai se modificando, muda gestor, muda equipe. Então assim, isso vai modelando, isso vai mudando o contexto, vai mudando o cenário. Então, muitas vezes, a gente pactua daqui a pouco tem que pactuar de novo. Então como é processo de mudança, que pressupõe mudança, pressupõe um trabalho coletivo, então sustentar isso é um grande desafio. E não é pouco não! (...) Então, às vezes, é um processo que vai, vai, vai, daí a pouco aquieta; vai, vai, vai, daí a pouco aquieta! É muito difícil sustentar esse processo e como é um processo em construção, ele tem idas e vindas. Então é extremamente desafiador, mesmo! (C2).
É óbvio que não apenas a PNH é afetada por essas mudanças de cenário político, outras políticas também o são e os consultores reconhecem isso, como pode ser observado na fala de C6:
E não só pra gente, né! É pra tudo! A gente vive num contexto de descontinuidade continuamente com essas trocas, né! Porque as pessoas entram entendendo as coisas de um jeito e elas produzem as coisas do jeito que elas pensam, ela vai interagindo, mas tem uma forma de pensar, né! Então é do nosso contexto social e de saúde hoje, de gestão pública, lidar com essas quebras contínuas. Por exemplo, tem um município que a gente ficou sabendo esses dias que mudou 14 vezes de secretário municipal de saúde lá no Norte. Então assim, imagina, né! (...) Então é uma coisa que a gente vai aprendendo a lidar bem, a lidar com essas mudanças, que não é simples, mas que não tem por onde fugir. É a realidade! É muita mudança mesmo!
Embora C5 tenha mencionado que não faria sentido a PNH ter uma portaria que a instituísse, uma vez que não daria conta de mudar os processos de trabalho e de lidar com as singularidades dos espaços, no que tange às repercussões da alternância de poder reconheceu que “(...) não é um problema só da PNH, mas que fragiliza mais porque ela não tem a portaria, talvez”. Posteriormente retoma o assunto e expõe que “(...) tudo esbarra nessa coisa de não ter uma portaria, né! Não tendo essa portaria, hoje o gestor está topando ter um colegiado gestor, mudou a gestão, pode chegar um gestor totalmente autoritário e aí o
processo de apoio a PNH de um ano, dois anos simplesmente se esvai!”.
De acordo com Nogueira (2006) existe um discurso cotidiano que afirma que quando há troca de governo, a descontinuidade administrativa é dada como fato. Isso se traduziria na interrupção de iniciativas, projetos, programas e obras, mudanças radicais de prioridades e engavetamento de planos futuros, sempre em função de um viés político, desprezando-se as possíveis qualidades ou méritos que possam ter as ações que serão descontinuadas. Como consequência desse processo, tem-se o desperdício de recursos públicos, a perda de memória e saber institucional, o desânimo das equipes envolvidas e um aumento da tensão e da animosidade entre técnicos estáveis e gestores que vêm e vão ao sabor das eleições.
Contudo, Nogueira (2006) ainda afirma que os estudos que se debruçaram sobre essa temática com mais atenção mostra uma realidade diferente e mais complexa do que o saber político popular faz crer. Esses estudos apontam que o fenômeno da continuidade e da descontinuidade dificilmente acontece de forma pura, em seus extremos (completa continuidade ou descontinuidade). Além disso, pesquisas iniciais com ações em nível municipal vêm chegando a resultados que questionam a predominância da descontinuidade administrativa em projetos, programas ou iniciativas públicas. Mesmo em casos de mudanças de gestores, a continuidade administrativa se mostra muito mais presente do que se poderia supor.
Análises feitas por Nogueira (2006) em seu trabalho apontam para a existência de pelo menos quatro fatores que favorecem a continuidade de iniciativas públicas em governos locais e serão apresentadas aqui sucintamente:
1) Ações intencionais de promoção da continuidade – ter consciência do risco de descontinuidade administrativa presumivelmente motiva os gestores envolvidos em iniciativas públicas a tomar providências para perpetuar o que acham que é importante;
2) Boa gestão – a organização harmoniosa de diversos recursos (humanos, financeiros, materiais, de mobilização, de conhecimento) visando ao cumprimento dos objetivos propostos tende a produzir resultados que favorecem a continuidade;
3) Atenção a questões políticas – a continuidade administrativa será favorecida na medida em que os processos políticos criem condições adequadas para a gestão e estabeleçam um diálogo entre as ações realizadas e as expectativas dos diferentes atores envolvidos numa política;
4) Tentativa de interferir no ambiente em que a política se insere, com atuação preferencialmente organizada em coalizões – diz respeito à existência de condições ambientais que podem favorecer ou constranger o desenvolvimento de uma iniciativa ou de uma organização.
Essa análise demonstra o quanto a PNH ainda tem que crescer como política e ganhar legitimidade nos territórios, uma vez que, como mencionado por alguns consultores, a humanização ainda precisa transpor barreiras políticas para que possa estabilizar as suas pactuações e encontrar terreno fértil para que as suas ações alcancem longitudinalidade e sejam reconhecidas como aliadas de um processo político democrático e transversal no que tange as práticas de atenção e gestão de saúde.
1.4.4 Cultura autoritária e poder biomédico como