Evolução dos principais indicadores de pobreza
2.2. As diferentes dimensões da pobreza (2016 ‑2017)
2.2.1. As diferentes dimensões da pobreza – Interseção das várias dimensões da exclusão social
Ao longo desta secção iremos analisar com mais detalhe os principais indicadores cuja evolução atrás descrevemos, tomando como refe‑ rência os últimos dados disponíveis, aquando da elaboração deste livro, referentes a 2017.
O Quadro 14 possibilita uma análise mais detalhada da taxa de pobreza ou exclusão social em 2017, ao identificar as diferentes interseções dos três indicadores que a constituem.
Em 2017, 2,4 milhões de pessoas encontravam ‑se em situação de pobreza e de exclusão social em Portugal (23,3 % da população total). Dos 18,3 % da população pobre, uma parte significativa (66 %) encontrava ‑se em situação de pobreza ou exclusão social exclusiva‑ mente devido à carência de recursos económicos, isto é, não estavam em privação nem tinham participação reduzida no mercado de em agregados com intensidade laboral per capita muito reduzida, ou em
privação material severa. Este é um indicador síntese que reúne a pobreza monetária, a privação material e a fraca ligação ao mercado de trabalho e que reforça o carácter multidimensional da exclusão social. Este indicador adquiriu uma importância acrescida após a aprovação da «Estratégia Europa 2020» pelo Conselho Europeu de junho de 2010, onde é inscrita como o indicador chave para medir o principal objetivo social desta estratégia: a redução, em 20 milhões, do número de cida‑ dãos europeus em situação de risco de pobreza e de exclusão social. Apesar da evolução conceptual implícita na passagem de um indicador baseado exclusivamente na distribuição dos rendimentos, como a taxa de pobreza, para um indicador multidimensional, a taxa de risco de pobreza ou exclusão social não está isenta de críticas, particularmente por resultar da interseção das três dimensões consideradas. Por exemplo, pode questionar‑se o facto de um indivíduo que esteja afastado do mercado de trabalho, isto é, que esteja inserido numa família com baixa intensidade de trabalho, mas simultaneamente disponha de rendimentos acima da linha de pobreza e não enfrente problemas de privação mate‑ rial, seja ainda assim considerado em situação de exclusão social.
Quadro 13 Taxa de pobreza ou exclusão social (%)
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
27,5 26,1 25,0 25,0 26,0 24,9 25,3 24,4 25,3 27,5 27,5 26,6 25,1 23,3
2.2.2. Caracterização do indicador de privação material
Em 2017, 1,9 milhões de indivíduos (18,0 % da população)
encontrava ‑se em situação de privação material, não conseguindo satisfazer as suas necessidades em pelo menos três dos nove itens considerados no índice acima referenciado. Se observarmos o indicador de privação material severa (não satisfação de quatro ou mais itens), existem 708 mil residentes em Portugal (6,9 %) nessa situação.
Analisando com mais detalhe no Quadro 15 os nove itens de privação material em Portugal em 2017, destaca ‑se o facto de 36,9 % da popu‑ lação indicar que não tem capacidade de assegurar o pagamento de «uma despesa inesperada de cerca de 420 euros sem recorrer a emprés‑ timo», 20,4 % não dispor dos recursos necessários para «manter a casa adequadamente aquecida» e 7,6 % destacar que tem «atrasos no paga‑ mento de despesas básicas regulares, como a renda de casa», devido a dificuldades económicas. O item que apresenta um maior nível de privação material (44,3 % da população) é, porém, a incapacidade para «pagar uma semana de férias por ano fora de casa». O facto de a privação deste item ser tão elevada, poderá significar que a maioria dos portugueses abdica das férias fora de casa em favor da satisfação de outras carências materiais consideradas mais prioritárias.
trabalho. Dos indivíduos em privação severa ou com intensidade de trabalho reduzida, menos de metade (37,0 %, e 43,9 %, respetivamente) são somente afetados por essa mesma componente.
Quadro 14 Interseção das várias dimensões da exclusão social (2017)
Indivíduos % Famílias não pobres, não em privação material severa e com baixa intensidade laboral 224109 2,2 Famílias não pobres, em privação material severa e sem baixa intensidade laboral 262343 2,5 Famílias não pobres, em privação material severa e com baixa intensidade laboral 24204 0,2 Famílias pobres, não em privação material severa e sem baixa intensidade laboral 1251034 12,1 Famílias pobres, não em privação material severa e com baixa intensidade laboral 213895 2,1 Famílias pobres, em privação material severa e sem baixa intensidade laboral 286380 2,8 Famílias pobres, em privação material severa e com baixa intensidade laboral 135406 1,3 Famílias em situação de pobreza ou exclusão social 2397371 23,3
Fonte: ICOR 2017. Cálculos efetuados pelos autores a partir dos microdados. Amostra ponderada.
Os diferentes indicadores constantes do Quadro 14 permitem um retrato mais preciso da realidade portuguesa para o ano de 2017. • 2,4 milhões de indivíduos (23,3 % da população) em situação
de pobreza ou exclusão social;
• 1,9 milhões (18,3 %) em situação de pobreza; • 0,7 milhões (6,8 %) em privação material severa;
• cerca de 1,7 milhões de indivíduos afetados por uma dimensão da pobreza, 524 mil por duas e 135 mil pelas três, simultaneamente.
2.2.3. Pobreza e privação habitacional
As condições da habitação são um dos aspetos importantes da análise das condições de vida das famílias e dos indivíduos que as compõem. De acordo com os dados do ICOR 2017, 17,7 % dos indivíduos com rendimento equivalente inferior ao limiar de pobreza viviam em aloja‑ mentos cujo número de divisões habitáveis era insuficiente, tendo em conta o número e o perfil demográfico dos indivíduos do ADP (Quadro 17). A taxa de privação severa das condições da habitação, que corresponde à proporção da população que vive em alojamentos sobrelotados e com, pelo menos, um problema adicional nas condições da habitação era de 9,3 % para os indivíduos em situação de pobreza.
Quadro 17 Indicadores de privação habitacional por grupo de rendimento (2017) (%)
Abaixo do limiar
de pobreza Acima do limiar de pobreza
Taxa de sobrelotação da habitação 17,7 7,4
Taxa de privação severa das condições da habitação 9,3 2,8 Carga mediana das despesas em habitação 24,1 10,7 Taxa de sobrecarga das despesas em habitação 26,0 2,4
Fonte: INE, maio de 2018 [destaque Rendimento e Condições de Vida 2017].
Por outro lado, as despesas na habitação e, muito em particular, a parte do rendimento disponível que é alocado a estas despesas, ou seja, a carga das despesas em habitação, é um indicador importante das condições de vida dos indivíduos, nomeadamente porque um peso mais elevado destas despesas traduz uma proporção menor do rendi‑ mento disponível para fazer face a outras responsabilidades.
Quadro 15 Itens de privação material (2017) (%)
Sem capacidade para assegurar o pagamento imediato e uma despesa sem recorrer a empréstimo 36,9 Sem capacidade para pagar uma semana de férias por ano fora de casa 44,3 Com atraso em pagamentos de rendas, encargos ou despesas correntes 7,6 Sem capacidade para ter uma refeição de carne, peixe (ou equivalente vegetariano) pelo menos de 2 em 2 dias 3,0
Sem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida 20,4
Sem disponibilidade de máquina de lavar roupa 1,1
Sem disponibilidade de televisão a cores 0,4
Sem disponibilidade de telefone 0,5
Sem disponibilidade de automóvel 6,5
Fonte: ICOR 2017. Cálculos efetuados pelos autores a partir dos microdados. Amostra ponderada.
O Quadro 16 mostra a distribuição da população de acordo com o número de itens de privação em 2017. Cerca de 43 % da população não se encontra privada de qualquer dos itens, enquanto 18,3 % se encontra privada de três ou mais, 6,9 % está em privação material severa (quatro ou mais) e 2,5 % em situação de privação material extrema (privação em cinco ou mais itens).
Quadro 16 Número de itens de privação material (2017)
Número de itens
de Privação Material (%) Número de itens de Privação Material (%)
0 itens 43,2 5 itens 1,9
1 item 21,1 6 itens 0,4
2 itens 17,6 7 itens 0,2
3 itens 11,2 8 itens 0,0
4 itens 4,3 9 itens 0,0
Quadro 18 Indicadores de pobreza segundo o sexo e grupo etário (2016) (%)
Taxa de Pobreza da população pobreDistribuição
Homens 0 ‑17 anos 20,6 10,0 18 ‑64 anos 17,8 28,8 65 + anos 15,2 7,3 Total 17,8 46,1 Mulheres 0 ‑17 anos 20,7 9,6 18 ‑64 anos 18,4 32,0 65 + anos 18,3 12,3 Total 18,7 53,9 Total 0 ‑17 anos 20,7 19,5 18 ‑64 anos 18,1 60,9 65 + anos 17,0 19,6 Total 18,3 100,0
Fonte: ICOR 2017. Cálculos efetuados pelos autores a partir dos microdados. Amostra ponderada.
O Quadro 18 possibilita igualmente avaliar a situação de grande precariedade de uma parte significativa das crianças no nosso país. Considerando os três grupos etários representados, o dos 0 ‑17 anos apresenta os valores mais elevados para a pobreza monetária (20,7 %), significando que mais de 350 mil crianças e jovens se encontravam em 2016 em situação de pobreza. Cerca de 20 % da população pobre era constituída, nesse ano, por crianças e jovens.
Consequência da profunda descida da sua taxa de pobreza nas últimas décadas, a população idosa apresenta indicadores de pobreza inferiores ao do conjunto da população, no Quadro 18. A existência de apoios sociais específicos para a população idosa em situação de carência de recursos, como a pensão social e o Complemento Solidário para Idosos Os dados apresentados no Quadro 17 revelam uma carga mediana das
despesas em habitação de 24,1 % para os indivíduos em situação de pobreza, sendo que 26 % dos indivíduos em situação de pobreza vivia em agregados cujo peso das despesas anuais com a habitação no rendi‑ mento disponível era superior a 40 %.