A biologia ao se afirmar como ciência, sobretudo após Darwin e mais recentemente através da descoberta do ADN e da ecologia, tem encontrado dificuldade para tratar do homem na sua especificidade, na sua complexidade. Dificuldade essa que parece não existir quando se trata das especificidades e complexidades relativas a outros seres vivos que não o homem.
As dificuldades da biologia são muito semelhantes às da geografia, instituída como ciência no século XIX. A geografia, na divisão do trabalho científico, não ficou nem entre as ciências da natureza nem entre as ciê.ncias do homem... DiZiam os geógrafos, ignorando a complexidade dessa relação homem-natureza, que a geografia é uma ciência-charneira; uma ciência-ponte; uma ciência de síntese entre o homem e a natureza. Basta acompanhar de perto a produção geográfica mundial para observar como os geógrafos reproduziram no interior da própria geografia a grande dicotomia do pensamento ocidental, instituindo a geografia física e a geogra fia humana.
O pensamento herdado nos prende através de suas arma dilhas e se, de um lado, instrumentaliza-nos com teorias e metodo logias, por outro, é fortemente responsável pelos problemas con cretos com que nos defrontamos, pelas práticas que estimula e va loriza e pelas dificuldades que coloca para a sua superação.
Tanto a biologia, a ecologia como a geografia têm tratado o homem exclusivamente como espécie biológica, não levando em consideração a especificidade e a complexidade desse animal-ho mem- e, inclusive, passando por cima do fato, importantíssimo, de que
o homem por natureza produz cultura.
Dentre as questões que gostaríamos de propor, uma, de ca ráter teórico com suas implicações metodológicas, impõe-se à aná-
lise das dificuldades da biologia, da ecologia e da geografia, pois ela nos parece de fundamental importância. Essas disciplinas mos tram-se prisioneiras do conceito de população.
Etimologicamente, população deriva do latim
populus
quesignifica povo. A partir de
1785
a palavra população começou aser utilizada numa outra acepção, que nada mais tem a ver com a
idéia de
povo.
O surgimento deste novo significado está relacionado à instituição do Estado nacional moderno que tinha a necessida de de unificar sob a égide de um só poder, de um só governo, os diversos povos e culturas que habitavam a sua base territorial.
O novo conceito de população inspirava-se nas preocupa ções de controle, de quantidade, de medida, de informação, ou se ja, tomava-se um conceito estatístico. A palavra
estatística,
por sua vez, surgida por volta de18 15,
deriva do alemãoStatistik
que se relaciona aEstado.
Obscura relação essa que envolve estatística e poder de Estado ... Logo ela que se pretende a rainha da neutrali dade! Não nos esqueçamos, ainda, de que a estatística foi criada como forma de aumentar ou de estabelecer o conhecimento e o controle do Estado sobre o povo, sobre a população. Desta forma, o conceito de população foi perdendo gradualmente a sua qualida de depovo
e se transformando num conceito genérico, matemático estatístico. Quer dizer, a população enquanto conceito estatístico paradoxalmente se despolitiza quanto mais faz parte da · política, sobretudo do Estado. O conceito de população passa cada vez mais a se associar à idéia de conjunto, tal como definida pelo matemáti co Cantor como "uma coleção de óbjetos distintos e definidos de nossa percepção ou de nosso pensamento": Podemos falar de umapopulação de cadeiras, de uma população de coelhos, de uma po pulação de automóveis, de uma população de canhões, de uma po pulação de romances, etc. Assim, são abstraídas as especificidades dos objetos - cadeiras, coelhos, automóveis, canhões, romances - e se privilegiam os aspectos matemático-estatísticos. Não é de estra nhar, portanto, que as teses e idéias formuladas a partir desta pre missa culminem em conclusões apocalípticas do tipo malthusiano que falam de explosão demográfica, urbanização deserifreada, etc.1 E sabemos o quanto essas idéias estão presentes na -biologia, na ecologia, na geografia e no movimento ecológico.
78 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Se projetássemos o fudice de crescimento demográfico da Inglaterra do século XIX para o século XX, obteríamos, no míni mo, o triplo da populaçãó já alcançada hoje, mas se tal não ocor reu, isso não se deveu à existência de alguma política de caráter neomalthusiano que revertesse essa curva, mas sim às conquistas sociais efetuadas sobretudo pelos trabalhadores,' que levaram à mu dança da qualidade de vida.
Ao privilegiarem o lado matemático-estatístico, os cientis tas e técnicos como os do Clube de Roma, por exemplo, deixam de lado a consideração da natureza dos fatos de que estão tratando e por isso podem falar em "crescimento exponencial" das máquinas e dos homens. Em primeiro lugar, deve ficar claro que colocações que apontam uma reprodução exponencial de um pretenso "esto que" de máquinas e de homens exigem uma análise do caráter des sa .reprodução2. Entre os homens, por exemplo, é possível funda mentar a idéia da reprodução em algum critério biológico, já que a espécie humana comporta o macho e a fêmea. No entanto, o fato de existir um mesmo número de homens e mulheres em dois países di ferentes não quer dizer que o crescimento demográfico será o mesmo em ambas as regiões. Por outro lado, quando consideramos a (também no dizer do Clube de Roma) "população" de máquinas, não encontramos qualquer fundamento biológico para - com base num detenninado número de máquinas - prever qual será o seu futuro número. O aumento do núÍnero de máquinas depende do modo como a sociedade institui sua relação com elas, o que obvia mente nos remete para um outro campo de análise que, embora te nha suas conseqüências quantitativas, não é detenninado por isso. Se a máquina é instituída socialmente, assim como a dinâmica do crescimento do. seu número, a crítica ao crescimento exponencial do número de máquinas corresponde à. crítica a uma detenninada forma de organização sócio-cultural, organização essa que, diga-se de passagem, foi afirmada pela negação de outros possíveis modos de instituir relações com as técnicas. Enfim, uma população de má quinas não gera, nem biologicamente, uma outra população de má quinas. Se a "população de máquinas" está aumentando exponen cialmente isso se deve à instituição da propriedade privada capita lista, às conveniências da concorrência, da busca do lucro, da con-
quista de novos mercados; em suma, à acumulação do capital e não, simplesmente, número anterior de máquinas.
Mesmo quando cónsideramos duas populações matemático estatísticamente da mesma ordem de grandeza, como é o caso das
populações da Nigéria e da Alemanha em
1980,
veremos que elas não se reproduzem demograficamente da mesma forma.É
comum compararem-se essas situações para denunciar a "explosão demo gráfica" nigeriana, aliás a única conclusão possível para qúem parte de premissas conceituais do tipo população. Insisto: em tais procedimentos "científicos" a conclusão/solução está pronta desde o início e a pesquisa é feita para comprovar o que já está decidido anteriormente. Tudo isso para deleite de certos pesquisadores cujas polpudas bolsas e salários saem daquelas pessoas que estão se re produzindo exponencialmente em virtude, entre outras coisas, da ignorância a que estão submetidas e dos parcos salários que perce bem... Ninguém em pleno gozo do seu juízo pode considerar a Alemanha um modelo ou paradigma de reprodução demográfica,/ até porque há duas décadas que esse crescimento é negativo
(-0, 1%
ao ano). Essa situação aponta para o envelhecimento da população e, salvo novas e possíveis descobertas no campo do rejuvenesci mento, ameaça o país com a possibilidade de não garantir a sua re produção demográfica.
É
claro que essa situação não tem trazido maiores problemas à Alemanha em virtude:1)
do crescente proces so de automação de suas empresas' e da conseqüente tendência à diminuição da demanda de força de trabalho;2)
da enorme liquidez de capital de que dispõe o país para assegurar um bom sistema de atendimento à velhice e à saúde em geral;3)
das precárias condi ções de vida em algumas regiões do Mediterrâneo europeu, no norte da África . e no Oriente Próximo, sobretudo na Turquia que geram uma forte emigração de pobres para a Alemanha, garantin do-lhe o contingente populacional que vai exercer as funções mais indesejáveis para aquela sociedade, numa versão realista só compa rável à imaginação de Fritz Lang quando fez seu excelente filmeMetrópolis (1926).
Estas considerações, por outro lado, não autorizam a inter pretação de que se deveria aplaudir o comportamento demográfico do povo nigeriano. Estou perfeitamente consciente do que significa
80 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
para os nigerianos� sobretudo para os explorados e oprimidos, su portar cerca de um milhão e meio de novos habitantes por ano. Estou consciente também das profundas desigualdades sociais que lá existem devido entre outras questões à injusta distribuição da ri queza. Só citei esses dois exemplos - Nigéria e Alemanha em
1980
- pela sua comparabilidade matemático-estatística, que nos permite refletir sobre a precariedade do conceito de população.O comprometimento da biologia com o pseudoconceito de população é histórico. A biologia foi alçada ao primeiro plano da ciência no século XIX, mais precisamente depois da publicação da grande obra de Charles Darwin
A Origem
dasEspécies.
Nela, Darwin demonstrou o que até então não tinha explicação, ou seja, que a evolução das espécies é um fenômeno natural. Isto trouxe um grande alento para o imaginário racionalista-iluminista do século XIX, que via na natureza livre das paixões, das subjetividades e ideologias a fonte onde devíamos buscar os fundamentos para uma ordem humana evidentemente justa porque natural. Há uma infor mação de caráter biográfico que me parece importantíssima para analisar o comprometimento da biologia com o pseudoconceito de população: ao partir para sua viagem de pesquisa pela América no navio "Beagle", Darwin leva consigo o livroEnsaio sobre os
Princípios da População,
do pastor Thomas R. Malthus. Como é amplamente sabido, Malthus afmnou que havia uma tendência para o crescimento da população maior que a do crescimento da dispo nibilidade de alimentos. E concluía que a escassez de alimentos, por sua vez, acabava por provocar epidemias que dizimavam o ex cedente populacional, repondo o equilíbrio.Esta idéia se constituirá num dos pilares da teoria darwi niana da seleção das espécies. Diga-se de passagem que quando Malthus formulou o seu princípio da população, ele tinha em mente combater a "Lei dos Pobres" (Poor Law), que destinava boa parte dos impostos ingleses ao atendimento dos necessitados. Dizia Malthus que tais leis eram contrárias à ordem natural (ou divina) das coisas; constituíam uma interferência indevida do Estado, e,
assim, deviam ser abolidas. Como vemos, com Darwin, o conceito de população migrava de um campo político-moral para o da biolo-