2. NOÇÕES GERAIS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS
2.4 Classificação
2.4.2 As Dimensões dos Direitos Fundamentais
Clássica é a classificação dos direitos fundamentais tomando por baliza a época histórica de seu aparecimento. Em razão desse ponto de partida, a doutrina
tradicional costuma aludir às gerações de direitos fundamentais, para destacar a sucessão cronológica do surgimento desses direitos, que acompanharam a evolução do Estado Constitucional, conforme se detalha adiante.
Os doutrinadores modernos, entretanto, preferem o termo “dimensões” de direitos fundamentais, para destacar a característica de cumulatividade e vedação do retrocesso que acompanha esta gama de direitos. Com efeito, não houve, efetivamente, uma superação de uma fase de direitos fundamentais por outra, com a supressão dos direitos da fase precedente. O que há é uma acumulação de direitos fundamentais, diferindo apenas por seu conteúdo e estrutura. Sobre o assunto, manifesta-se Sarlet (2004: 53):
Com efeito, não há como negar que o reconhecimento progressivo de novos direitos fundamentais tem o caráter de um processo cumulativo, de complementaridade, e não de alternância, de tal sorte que o uso da expressão “gerações” pode ensejar a falsa impressão da substituição gradativa de uma geração por outra, razão pela qual há quem prefira o termo “dimensões” dos direitos fundamentais, posição esta que aqui optamos por perfilhar, na esteira da mais moderna doutrina.
Os direitos de primeira dimensão surgem em contraposição ao autoritarismo, marca peculiar do Estado Absoluto. O pensamento liberal-burguês do século XVIII, neste momento, insurgia-se contra o “Leviatã” que ele mesmo engendrara séculos antes para enfraquecer o poder da Igreja e da nobreza de então. O nascimento do Estado Liberal, portanto, coincidiu com a afirmação dos direitos fundamentais de primeira geração, ou direitos de liberdade. Trata-se de um Estado não-intervencionista, mero expectador das atividades econômicas do capitalismo comercial nascente.
Demarcou-se, assim, uma zona de não interferência do Estado na vida dos cidadãos, com a previsão de direitos de liberdade, de defesa. São direitos de resistência ou de oposição perante o Estado, conforme lembra Bonavides (1996:517). Fazendo uma analogia com a teoria dos quatro status de Jellinek (v.
subitem anterior), tem-se que estes direitos corresponderiam ao status negativus.
D´Ávila Lopes (2001:63) esclarece quais direitos estariam enquadrados como de primeira dimensão ou geração:
Compreendem os direitos individuais ou civis e políticos, tais como a vida, a liberdade, a igualdade, a propriedade, a segurança, a liberdade de consciência e de expressão. Por outro lado, na segunda metade do século XIX, fazem sua aparição os direitos de caráter coletivo e os relativos à participação política do cidadão. Abrange esta categoria o direito de reunião, de greve, de associação, o sufrágio universal e o direito à criação de partidos políticos.
O Estado Liberal, entretanto, revelou-se extremamente excludente. De fato, apenas a classe burguesa auferiu vantagens com a quase total abstenção do Estado da vida social. O processo de industrialização acentuado formou uma extensa massa de miseráveis, cuja força de trabalho era explorada para sustentar o vertiginoso crescimento industrial. Começou a ficar muito claro que não era suficiente a consagração formal da igualdade e da liberdade para garantir o acesso efetivo de todos aos direitos fundamentais.
Estava formado o campo propício para a propagação das primeiras idéias socialistas, que denunciavam esta exclusão brutal em benefício de uma pequena minoria. Surgiram, portanto, ainda no século XIX, movimentos revolucionários, encabeçados pela massa trabalhadora, fortes o suficiente para levar a burguesia a tentar uma composição. É neste momento que surge o Estado Social e, em seu bojo, a previsão dos direitos fundamentais de segunda dimensão, ou direitos de igualdade. Todavia, somente em meados do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, é que um número significativo de constituições os prevê em seus textos.
São os direitos sociais, culturais e econômicos, a exigirem a efetiva participação do Estado para sua prestação. O Estado absenteísta da formulação tipicamente liberal não tinha condições (e foi imaginado para não ter) de garantir o acesso a estes direitos, que correspondem ao status positivus da construção doutrinária de Jellinek, pois colocam ao Estado obrigações prestacionais de caráter material e jurídico.
São comumente citados como de segunda dimensão os direitos: ao trabalho, à educação, à moradia, à saúde, à cultura e ao lazer.
A terceira dimensão de direitos fundamentais começou a se formar a partir da constatação das grandes desigualdades existentes entre os diversos Estados, visto que poucos deles lograram alcançar grande desenvolvimento econômico e social, enquanto outros permaneciam afundados na miséria. Possuem como característica mais marcante, destarte, ter como destinatários determinados grupos humanos (família, povo, nação), afastando-se da idéia de titularidade única do indivíduo – implicação universal ou transindividual, como prefere Sarlet (2004:57).
Os direitos fundamentais de terceira dimensão são também chamados direitos de solidariedade ou de fraternidade. A doutrina costuma apontar como exemplos os direitos: à paz, ao desenvolvimento, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à autodeterminação dos povos, de comunicação, ao patrimônio histórico e cultural.
Já começa a se sedimentar na doutrina a aceitação de uma quarta dimensão de direitos fundamentais, como resultado do processo acelerado de globalização - também de direitos - observado nas últimas décadas. Sarlet (2004:59) atribui originalidade nesta elaboração a Bonavides (1996), que enumera como de quarta dimensão os direitos à democracia, à informação e ao pluralismo.
Com toda a autoridade doutrinária que lhe é inerente, Bonavides (2006), inclusive, em artigo para o Jornal Folha de São Paulo, preconizava o surgimento de um direito da quinta dimensão ou geração, a saber, a paz. Assim ensina o constitucionalista cearense:
Em suma: dantes, a paz tida por direito fundamental nas regiões teóricas;
doravante, porém, a paz erguida à categoria de direito positivo. Ontem, um conceito filosófico, hoje, um conceito jurídico. E tanto mais jurídico quanto maior a força principiológica de sua acolhida nas Constituições (BONAVIDES, 2006, p.01).
Desse modo, como uma decorrência da historicidade dos direitos fundamentais, novos direitos surgirão com o evoluir das relações sociais. De fato,
determinados conceitos, que antes apenas habitavam a seara filosófica, passam a ser estabelecidos como direitos, ganhando, dessa forma, contornos jurídicos.