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PARTE I: AUTOETNOGRAFIA DE UM PERCURSO EDUCACIONAL E

3. Digressão sobre grupos de pesquisa, a pesquisa como modelo de produção do

3.2 As disciplinas científicas em tempos recentes

Na perspectiva de Readings (1996), o projeto de universidade de pesquisa como uma força ética que organiza as comunidades nacionais entrou em ruínas – o que não significa, para o autor, que desapareceu completamente. Para ele, a emergência dos Estudos Culturais (Cultural Studies) e seu estabelecimento nos departamentos de Literatura dos EUA, campo disciplinar que os países anglófonos elegeram como privilegiado para a compreensão da “unidade” da cultura72, demonstra o enfraquecimento do Estado-nação e, consequentemente, do projeto de formação do cidadão nacional a partir de uma cultura comum.

71 “Most americans registered only the claim to autonomy and the actual rigor and micrology of German

practitioners. Americans missed the loftier rethorical notions behind the micrology and the rigor [...] The American research university developed its own dynamic. “The dominant characteristic of the new American universities was their ability to shelter specialized departments of knowledge” as Veysey put it”

72 Para Readings (1996) os teóricos da universidade alemã, como Schleiermacher, se inspiraram nos gregos como

exemplo de comunidade orgânica, fundada sobre a linguagem da razão. Seria a razão, expressa na filosofia, a teia que mantinha a unidade da comunidade grega. O interesse destes pensadores no exemplo grego era porque o tomavam como um caso para pensar a relação entre a comunidade produzida pelo conhecimento (universitário) e a comunidade política nacional arregimentada pelo Estado – relação essencial, uma vez que a universidade de pesquisa nasce da relação com o Estado-nação (CLARK, 2006). Já os teóricos da universidade inglesa, como o Cardeal Newman, devido a particularidades de seu contexto nacional (em especial, certa relação de proximidade do Estado com a Igreja), elegeram a literatura como o ponto de referência de uma comunidade indivisa a inspirar

87 De acordo com Readings (1996), a substituição do canon literário no contexto norte- americano pela noção de cultura, da maneira que esta é proposta pelo expoentes dos Estudos Culturais, bem como outros “studies” surgidos mais ou menos na mesma época (Women´s Studies, Afro-American Studies, Gay´s Studies e outros), significa o colapso da noção, mais ou menos orgânica, de cultura. Para Readings, a grande questão presente nos Estudos Culturais é que seus teóricos partem da constatação de que o sonho da cultura como totalidade não mais existe.

Seguindo a tradição iniciada por Raymond Williams, os Estudos Culturais adotam a noção de cultura no sentido das particularidades que caracterizam a vida de determinados grupos – no caso de Williams, dos trabalhadores ingleses. Para que este conceito, “cultura”, pudesse se tornar um instrumento teórico cabível para alcançar, e assim compreender, os diversos “tipos” de excluídos do sistema social, foi preciso que os Estudos Culturais o “dereferentialized” (READINGS, 1996, p. 99), ou seja, o fizesse deixar de ter qualquer significado substancial para que, assim, tudo e todos passassem a caber nesta noção. Deste modo, os Estudos Culturais se direcionam ao “estudo das práticas significantes”, sendo que “todas as manifestações da cultura são práticas significantes, e todas as práticas significantes fazem parte da cultura”73 (READINGS, 1996, p. 98, tradução nossa), uma operação lógica que permite incluir tudo como cultura.

Uma vez que as disciplinas surgem justamente para demarcar certa organização própria a um tipo de saber, como também constituir e sustentar um tipo de indivíduo considerado como parte de uma cultura integral (aquela da nação), elas se chocam com a noção esvaziada de cultura proposta pelos Estudos Culturais, na qual não há mais critério normativo para estabelecer quem está “dentro” e quem está “fora”. A descentralização máxima da noção de cultura leva Readings (1996) a afirmar que: “ao contrário de uma disciplina específica, os Estudos Culturais parecem ser a recusa de qualquer especificidade disciplinar”74 (p. 98, tradução nossa).

É difícil recusar o efeito que os Estudos Culturais, e diversos outros fatores, tiveram na vida acadêmica, como também é difícil precisar qual a amplitude das consequências. Definitivamente, as disciplinas não desapareceram, mas parece que se tornaram mais imprecisas, mais abstratas, menos centrais.

a relação entre universidade e Estado-nação. Os romances escritos por Shakespeare são interpretados, pelos ingleses, como “the natural origin of culture” (READINGS, 1996, p. 79).

73 “study of signifying practices” e “all manifestations of culture are signifying practices, and all signifying pratices

are culture”

88 Deste modo, nas últimas décadas estudos e pesquisas apontam uma mudança, ou pelo menos um enfraquecimento, nesta matriz organizacional disciplinar característica da instituição universitária moderna. A extinção da cultura como noção diretriz da universidade, apontada por Readings (1996), parece indicar também a erosão do substrato ético e epistemológico da especialização disciplinar surgida no século XIX.

Assim, Mittelstrauss (2011), sugere a insuficiência das disciplinas para manter a unidade inerente à ideia de universidade, sugerindo a importância das pesquisas contemporâneas transdisciplinares por oferecerem uma lógica diferente, mas não substitutiva, da organização disciplinar – ambas poderiam conviver na universidade. Knorr-Cettina (1999), por sua vez, utiliza o conceito de culturas epistêmicas para demonstrar como diferentes “maquinarias epistêmicas” (conjuntos de convenções, materialidades e dispositivos relativamente independentes dos sujeitos epistêmicos”), que podem ser consideradas mais fragmentadas, dinâmicas e independentes que as disciplinas, orientam a produção cientifica atualmente.

O caso da pesquisa realizada por Rodrigues (1997) parece exemplificar, porém, a ambiguidade vivida pelos próprios pesquisadores, professores e estudantes universitários nas últimas décadas em relação à importância e à preponderância da organização disciplinar na universidade. Assim a autora aponta, em diversos momentos de seu livro, os indícios de interdisciplinaridade na universidade – o que, é preciso ressaltar, não se opõe diretamente à lógica disciplinar, ao contrário de certas noções de transdisciplinaridade -, inclusive apresentando material empírico no qual os alunos demonstram a necessidade e o desejo de um diálogo mais profundo entre os diferentes saberes que constituem a universidade. Porém, ao discorrer sobre os rituais de defesa de dissertação e tese, a autora reconhece que o melhor critério para compreender as diferenças percebidas por ela nos diversos eventos observados é a lógica disciplinar:

E, à semelhança das diferenças de postura em sala de aula, as variações existentes entre as conduções das defesas de tese nos diversos institutos – e aqui também será

conveniente observar que a comparação mais producente parece ser ainda por área do conhecimento – também exprimem as posições diferenciadas sobre a ciência e a prática científica, sobre o estatuto dos saberes, sobre critérios de verdade e de julgamento da produção científica. (p. 138, grifo nosso)

Esta ambiguidade em relação à organização disciplinar da universidade é compreensível, uma vez levada em consideração a importância, o grau e a antiguidade do laço que une essas duas instituições, universidade e disciplina. Além do mais, se as disciplinas perderam sua capacidade organizativa na universidade de pesquisa o mesmo não parece ocorrer

89 nas faculdades, centros universitários e universidades direcionados à formação profissional. Isso porque a lógica da especialização disciplinar foi adotada como referência também pelas áreas e carreiras profissionais, fruto da inclusão e fortalecimento nas últimas décadas da formação profissional como um dos objetivos da instituição universitária (SANTOS, 1994).

A relação entre as disciplinas científicas consolidadas na universidade de pesquisa de origem germânica e a especialização profissional que marca a universidade após o período de guerras no século XX não é, em nenhum aspecto, simples. Em certas dimensões uma continuação das disciplinas, enquanto em outras uma espécie de ruptura, o tema da relação entre a profissionalização e o saber acadêmico exigiria uma tese própria. De qualquer maneira, mais como uma ilustração histórica desta relação do que uma resposta, Stichweh (1992) lança algumas pistas:

No século XIX, disciplinas científicas se desenvolveram pela primeira vez exclusivamente com seu próprio pessoal e se separaram completamente das três faculdades tradicionais preexistentes no que concerne à base do conhecimento e à metodologia. Acima de tudo, elas não eram de forma alguma “profissionais”. Na verdade, as profissões clássicas, depois da virada do século XIX, representavam não os sistemas de conhecimento acadêmicos, mas sistemas de ação especializados no contato entre membros da profissão e clientes. Suas respectivas bases de conhecimentos foram direcionadas principalmente para este propósito. Gradualmente, desenvolveram uma configuração dogmática – isto é, voltada para ações estabilizadas e estabilizadoras. Ao contrário, as disciplinas representavam complexos aproximados de comunicação nos quais os colegas eram vistos como a audiência disciplinar e os clientes não eram conhecidos [...] Além disso, há uma reversão de assimetrias. No século XVIII, complexos instrucionais no interior da faculdade de Filosofia, que depois se tornaram disciplinas acadêmicas, eram vistos como meros saberes propedêuticos para os estudos nas faculdades mais elevadas. No século XIX, ao contrário, as ciências, como resultado do rápido progresso nas pesquisas desenvolvidas no interior das disciplinas científicas, questionaram o saber dogmático que embasa as profissões. Estes últimos tiveram que aprender com as disciplinas, e de repente se mostraram como atividades subordinadas e apenas aplicadas75 (p. 10-11,

tradução nossa)

75 “In the nineteenth century, scientific disciplines developed for the first time exclusively with their own personnel

and separated themselves completely from the traditions of the three preexisting faculties as far as their knowledge base and methodology was concerned. Above all, they were in no way "professional." Actually, the classical professions, after the turn of the nineteenth century, represented not scholarly knowledge systems but action systems specializing in contacts between members of the profession and clients. Their respective knowledge bases were activated primarily for that purpose. Increasingly they developed a dogmatic — that is, action-stabilizing — character. In contrast, the disciplines represented closed communication complexes in which colleagues were seen as the disciplinary audience and clients were not known [...]Additionally, there is a reversal of asymmetries. In the eighteenth century, instructional complexes within the philosophy faculties that later became scientific disciplines were seen as merely propaedeutics for studies in the higher faculties. In the nineteenth century, in contrast, the sciences, as a result of the rapid progress of research within scientific disciplines, questioned the dogmatic knowledge bases of the professions. The latter began to have to learn from the disciplines, and suddenly appeared to be subordinate and applied”

90 No século XX, até certo ponto como herança da ambiguidade característica da universidade moderna, a especialização disciplinar veio a ser incorporada ao mercado e à indústria, ambos crescentemente atados ao desenvolvimento tecnológico especializado. Os empregos disponíveis passaram a exigir cada vez mais conhecimentos intelectuais e técnicos mínimos, mesmo para atividades antes consideradas “meramente manuais”, conduzindo ao aumento de demanda por treinamento profissional.

Assim, por exemplo, a graduação em Psicologia na Unifor se apresentava, durante a minha formação universitária, por vezes como uma disciplina científica, com os requisitos herdados da universidade de pesquisa, ainda que modificados pelas relações históricas, enquanto em outras ocasiões se mostrava mais próxima de um curso profissionalizante, com o propósito de inculcar “sistemas de ação especializados no contato entre membros da profissão e clientes" (STICHWEH, 1992, p. 10). Se esta ambiguidade entre disciplinas científicas e áreas profissionais não estava tão evidente durante a minha graduação e o mestrado, no âmbito das IES não-universitárias privadas se mostrará mais pujante e dramática. Porém, este será uma das questões apresentadas na parte II desta tese.

No fim deste capítulo, é importante encerrar a digressão que propus retomando as características apreendidas sobre a pesquisa, enquanto um modelo específico de produção de conhecimento na universidade, e conduzindo-as a servir como crivo de compreensão sobre a minha passagem pelo VagaMundos, grupo de pesquisa que definiu, em muitos aspectos, a minha formação acadêmica. Será por meio do mapa parcial construído neste capítulo que avançarei para a reflexão sobre a minha experiência neste grupo de pesquisa. Para tanto, elenco algumas indagações, apresentadas como referências no percurso a seguir. No VagaMundos:

 A produção do conhecimento estava acoplada a uma dimensão formativa do pesquisador? Ou seja, havia, seguindo o princípio originado na universidade “humboltiana”, uma indissociabilidade entre ensino e pesquisa?

 Era adotada uma orientação disciplinar, marca da universidade moderna? Se sim, como esta orientação efetivamente se realizou, uma vez que o grupo de pesquisa em questão não estava associado a uma arquitetura institucional, como aquela apresentada por Clark (1995)?

 Qual era a relação com a referida “indústria intelectual” (NYBON, 2007)? Teria sido o VagaMundos uma “quase-firma”, como apontou Etzkowitz (2003) sobre os grupos de pesquisa contemporâneos?

91  Existiam dispositivos destinado à “domesticação” e ao “disciplinamento” dos livros, como Wellmon (2015) pressupunha ser inerente à pesquisa e à ordem disciplinar?

 Qual era a forma e o tipo de trabalho intelectual adotados?  Realizava-se, afinal, pesquisas?

 Qual era a relação dos seus membros com a produção e com a comunidade científicas?

 Qual o sentido dado à noção de originalidade, este atributo essencial à universidade de pesquisa e que remonta aos seminários filológicos (CLARK, 2006)?

 Qual era a importância e o uso específico dado à escrita, elemento constitutivo das práticas de pesquisa (CLARK, 1989)?

Todas estas questões se mostram interessantes e pertinentes à compreensão deste grupo de pesquisa, situado numa instituição universitária, e por isso serão abordadas, em maior ou menor grau, no próximo capítulo. Porém, é preciso mais uma vez ressaltar que o enfoque que será dado a estes questionamentos decorre do recorte específico desta pesquisa, calcado na tentativa de compreender a relação entre a minha formação acadêmica, por um lado, e as atividades docentes que desenvolvi, na última década, em IES não-universitárias privadas. Ou seja, os desdobramentos destas indagações serão explorados até onde se mostrarem pertinentes a este perímetro investigativo estabelecido.

Desta forma, uma última pergunta se mostra essencial, porque subjacente e organizadora de todas as outras questões postas anteriormente: “que tipo de persona se produzia e era produzida pelas instituições de pesquisa científica?”76 (CLARK, 1989, p. 113, tradução nossa)? Ou melhor, que tipo de pesquisador (disposições, valores, práticas, identidade etc.) se produzia e era produzido no interior do VagaMundos?

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