3. A LITERATURA INFANTIL: TEXTO E CONTEXTO
3.4 As duas artes: a da palavra e a da imagem
No tratamento dessa questão é oportuno lembrar a indicação de Góes (1991, p.27), para quem o livro destinado ao público infantil “ocupa um lugar privilegiado, pois é o ponto de encontro entre duas artes, a da palavra e a da forma, isto é, o texto e sua ilustração”. Entende-se, a partir dessa ponderação, que esse “lugar privilegiado” pode referir-se tanto ao mercado editorial, que tem aumentado os investimentos nessa modalidade literária, quanto ao crescente número de leitores que se debruçam sobre esses textos (incluídos os adultos interessados nesse tipo de leitura).
Sabe-se que são inúmeros os recursos que entram na construção de uma obra infantil, no entanto as ilustrações ganharam destaque na produção infantil a partir da década de 197028, deixando de figurar como elementos subsidiários do texto para configurar-se como elementos autossuficientes. Atualmente, pela frequência com que surgem nas obras destinadas às crianças, elas caracterizam-se como um pilar substancial dessa modalidade literária, já que
28 É sabido que antes de ganhar esse destaque, a ilustração já figurava em algumas obras literárias, mas não se
“parecem desenhar uma segunda natureza da obra infantil”, porque são elementos que reforçam a história e atraem os pequenos leitores (LAJOLO; ZILBERMAN, 2009, p. 13).
Zilberman (2005) mostra que a ilustração pode ser compreendida como autossuficiente porque, em alguns casos, chega a substituir a linguagem verbal, muito embora não possa substituir “os elementos próprios à literatura, como, por exemplo, a narrativa, a opção por personagens humanos ou humanizados, a adoção de um ponto de vista” (p. 156). Em geral, a ilustração está visivelmente a serviço do texto, mas em alguns casos a imagem pode sobrepor- se à palavra e, em outros, a linguagem verbal pode estar “integrada a um objeto visual que compõe o cenário, transformando-se em parte da ilustração” (p. 162), como mostra a imagem abaixo:
Figura 04 – Páginas 11 e 12 do livro A escola do Marcelo Autora: Ruth Rocha (2001)
Ilustração de Adalberto Cornavaca
Nesse caso, a palavra rato, que poderia vir explicitada no texto verbal, vem integrada a (expressa verbalmente em) um objeto de cena (na lousa), passando a fazer parte da ilustração oferecida.
Em uma época em que as ilustrações ainda não haviam ganhado o espaço que tiveram a partir dos anos 1960/1970, Meireles (1984)29 já apontava a necessidade de estudá-las sob o ponto de vista da contribuição que o uso da imagem pode dar, conjugando-se com o texto verbal, para que a criança melhor acompanhe a história. Na linha dessa proposta, a autora sugere que, em alguns livros, a imagem pode exercer papel “puramente decorativo na
29
ornamentação do texto” (p. 147), enquanto em outros, ao contrário, a imagem pode exercer alguma função relevante dentro do texto. Há casos, pois, diz a autora, em que o enunciador poderia, em certa medida, manter as passagens mais expressivas ou mais difíceis de entender sem o auxílio da imagem, o que contribuiria para o maior desenvolvimento intelectual da criança.
A partir dessas ponderações, compreende-se que, a imagem, na maioria das vezes, fala por si, e não por acaso muitos livros destinados a crianças na faixa etária entre 2 e 4 anos de idade, aproximadamente, são compostos apenas por imagens – sirva como exemplo a obra
Quer brincar?, de Eva Furnari (1986). Por outro lado, há que considerar que em muitas
histórias não é possível a dissociação entre o verbal e o imagético. Nesse caso, é justamente a inter-relação entre as duas mídias (o texto verbal e a ilustração) que dá sentido ao enunciado, pois “o texto revela a imagem e a imagem revela o texto”, e, assim, “a compreensão e eficácia do livro são aumentadas” (GÓES, 1991, p. 27). É o que pode verificar na imagem acima ilustrada (figura 04 – p. 72), ou, ainda, como se poderá verificar, por exemplo, na análise da figura 05 (subseção 4.1, p. 79), que é parte integrante da obra No caminho de Alvinho tinha
uma pedra, de Ruth Rocha (2004a).
Dentre outros aspectos verificados nos livros com ilustrações está o fato de que por meio deles a criança pode concretizar relações abstratas que, “só através da palavra, a mente infantil teria dificuldade em perceber”, e, além disso, está também o fato de que uma obra ilustrada pode contribuir “para o desenvolvimento da capacidade da criança para a seleção, organização, abstração e síntese dos elementos que compõem o todo” (COELHO, 2000, p. 197). Afinal, “a fantasia na criança possui certa atividade interior reprodutiva que a capacita a combinar imagens e a refundi-las” (CARVALHO, 1989, p. 47).
Depreende-se, então, que, na mesma linha do que propõe Linden (2011, p. 157), “o livro ilustrado é uma forma original, livre que, felizmente, permanece em parte inapreensível”, pois “escapa a qualquer tentativa de fixação de regras de funcionamento” e, por isso, “sua diversidade e flexibilidade não raro contrariam as tentativas de modelização de seus princípios e implicam uma constante atualização das certezas”.
É por essa razão que o livro ilustrado, se bem aproveitado, contribui de maneira singular para a formação da criança, dado o fato de que a leitura desse tipo de livro estimula, ao mesmo tempo, o desenvolvimento do intelecto e do imaginário infantil.
Esse é um dos pontos que impulsionam o estudo proposto nesta tese, que vai não só à verificação das organizações linguísticas (mais especificamente aos elementos de coesão do
texto verbal: os elementos fóricos), mas também à verificação da relação entre o verbal e o imagético, sob o ponto de vista referencial.
Pelo exposto, compreende-se que, para atingir o objetivo de fazer que a criança compreenda a mensagem de seu texto, o enunciador (autor/narrador) utiliza diferentes estratégias em sua obra. Uma delas é a ilustração (que, em geral, tem diferente autoria), a qual, a partir dos anos 1970 – note-se, como lembra Coelho (2000, p. 197) – passou a oferecer “também ao adulto excelentes meios de leitura crítica do mundo”, exercendo função particular dentro de cada obra, já que, quase sempre, é disposta de acordo com a intenção do ilustrador. Tanto é assim que a mesma história pode ser ilustrada por diferentes artistas, que transmitem diferentes interpretações, mas a história verbal continuará basicamente a mesma (NIKOLAJEVA; SCOTT, 2011).