2 A CIÊNCIA DA LÓGICA E O PÓS-ESCRITO: UMA EXPOSIÇÃO DAS DUAS
2.3 O PÓS-ESCRITO CONCLUSIVO NÃO CIENTÍFICO DE KIERKEGAARD
2.3.2 Das Migalhas ao Pós-Escrito
2.3.2.1 As duas Partes ou Perspectivas do Pós-Escrito
A primeira surpresa que se tem ao abrir o índice do Pós-Escrito é ver a divisão desproporcional da obra; dividida em duas partes, a primeira não chega a quarenta páginas, enquanto a segunda ocupa mais de quinhentas. Essas duas partes dizem respeito às duas perspectivas com as quais o sujeito pode abordar o cristianismo, isto é,
objetiva ou subjetivamente; as duas partes do livro são, respectivamente, sobre elas. A diferença básica entre as duas é a seguinte: "O problema objetivo seria então: o da verdade do cristianismo. O problema subjetivo é: o da relação do indivíduo com o cristianismo". (PSI, p. 22/ SKS 7, p. 26).
A parte dedicada ao problema objetivo, por sua vez, se divide em dois capítulos, sendo o primeiro composto por três parágrafos (§). Esse primeiro capítulo trata da consideração histórica do cristianismo, onde a fé estará baseada na certeza que se pode ter da verdade do cristianismo historicamente, o que deve passar por uma análise apurada da Bíblia, das datações, canonicidade dos textos, etc. Mas a posição de Kierkegaard é posta logo cedo:
Segundo minha ponderação, é mais importante que seja compreendido e recordado o seguinte: que mesmo com a mais estupenda erudição e perseverança, e mesmo se as cabeças de todos os críticos estivessem montadas em um único pescoço, não se chegaria jamais a nada além de uma aproximação, e que há uma discrepância essencial entre isso e um interesse pessoal e infinito na própria felicidade eterna. (PSI, p. 30/ SKS 7, p. 31).
Dessa passagem, o que julgamos ser o mais importante é a indicação de que todo conhecimento perante o histórico é sempre um "quase" e nunca um "exatamente". Isso já faz com que a base daquele que coloca a sua fé sobre um saber histórico – por exemplo: "é verdade que Jesus disse isso e aquilo depois que fez isso e aquilo" –, já seja abalada.
Nesse capítulo, por isso, ele igualmente acaba tratando do poder e influência que teses objetivo-verdadeiras, pró e contra cristianismo, poderiam ter sobre a subjetividade. A primeira hipótese é:
Então, suposto que tudo esteja em ordem com relação às Sagradas Escrituras – e daí? Alguém então que não tinha a fé chegou agora um único passo mais próximo da fé? Não, nem um único. Pois a fé não resulta de uma deliberação científica direta, e nem chega diretamente; ao contrário, perde-se nessa objetividade aquela atitude de interesse infinito, pessoal e apaixonado, que é a condição da fé, o ubique et nusquam [lat.: por toda parte e em nenhum lugar] através da qual a fé pode nascer. – Aquele que tinha a fé ganhou alguma coisa em relação ao poder e à força da fé? Não, nem um tiquinho; nesse conhecimento prolixo, nessa certeza que paira à porta da fé e suspira por ela, ele está antes numa posição tão perigosa que vai precisar de muito esforço, muito temor e tremor para não cair em tentação, e confundir conhecimento com fé. Enquanto que até agora a fé teve na incerteza
um pedagogo proveitoso, ela deveria ter seu maior inimigo na certeza. (PSI, p. 35/ SKS 7, p. 36).
Fundamental, aqui, é frisar que, para Kierkegaard, a fé não resulta do científico, e que ele é até perigoso para o crente. Isso porque a fé vem como a marca do interesse subjetivo na promessa e que, assim, é pautada pela incerteza, pois ao ter certeza, se obtém conhecimento, e não fé (parte do requisitado Interesse), ou seja, não adianta estarmos certos cientificamente da verdade do cristianismo ou o termos comprovado porque esse aumento de conhecimento não toca diretamente a fé, que é subjetiva. Não é, portanto, adquirindo conhecimento que se ganha a fé; ir atrás do primeiro ponto é fugir do segundo, e fugir do segundo é fugir da vida eterna.
A segunda hipótese é a contrária:
Eu suponho então o oposto, que os inimigos tiveram sucesso em provar o que queriam em relação às Escrituras, com uma certeza que supera o mais caloroso desejo do mais odioso dos inimigos – e daí? O inimigo, assim, aboliu o cristianismo? De modo algum. Ele prejudicou o crente? De modo algum, nem um tiquinho. Ganhou o direito de se eximir da responsabilidade de não ser um crente? De modo algum. [...] pois se o aceitasse em virtude de uma demonstração, estaria a ponto de abandonar a fé. (PSI, p. 36/ SKS 7, p. 36-37).
Isso porque – se permanecermos na trilha do argumento anterior da não relação direta entre conhecimento e fé – pouco importa, para o crente, se existe demonstração científica contra ou a favor do cristianismo; ter fé porque se ganhou uma prova objetiva, não é ter fé. Por isso Kierkegaard diz (PSI, p. 27/ SKS 7, p. 29-30): "por esse caminho [objetivo] o problema jamais surgirá de forma decisiva, isto é, nem se apresenta, porque o problema reside precisamente na decisão [i Afgjørelsen]"; e a decisão é subjetiva.
A outra forma objetiva de tentar captar a verdade do cristianismo é a especulativa, e Kierkegaard coloca:
A consideração especulativa concebe o cristianismo como um fenômeno histórico; a pergunta sobre a sua verdade significa, portanto, penetrá-lo de pensamento de um tal modo que por fim o próprio cristianismo seja o pensamento eterno. (PSI, p. 55/ SKS 7, p. 54).
A especulação, na visão de Kierkegaard, pretende solucionar o problema do cristianismo via pensamento puro, identificando nesse movimento histórico a sua
necessidade de ser – a cujo tema (essa 'necessidade') Kierkegaard faz, prontamente, referência ao Interlúdio das Migalhas como base de sua contra-argumentação76.
Contudo, é preciso indicarmos a não existência de asco da parte de Kierkegaard para com a especulação; se isso ocorre, é por preconceito mal fundado77. Certamente, o que
acontece é Kierkegaard negar à especulação a capacidade de fazer emergir do seu particular ponto de vista – adjetivado inúmeras vezes como sub specie æterni –, o real problema do cristianismo. O especulante, ao usar apenas do pensar, tenta explicar, dentro desse campo, o paradoxo, sendo que o que o paradoxo do cristianismo exige do sujeito para que receba a sua promessa não é nem a sua explicação e nem o abandono da existência [Existents], mas fé e paixão – elementos que não deixam o existente [existerende] se extraviar da tarefa de existir [existere] em sua própria vida.
Tomado objetivamente, então, o problema do cristianismo sequer emerge para o indivíduo, pois o que o cristianismo pede é a decisão subjetiva de se acreditar no absurdo – pórtico ao qual a via intelectual jamais levará. Dessa forma, resta a Kierkegaard explorar o outro caminho, o da subjetividade; justamente o que faz na
Segunda parte da obra, e do qual já pudemos perceber os detalhes importantes para uma
visão geral (nosso objetivo).