2.4 A rearticulação do sistema partidário e a dissidência do PRL
2.4.1 As eleições para a Constituinte Federal de 1933
A primeira campanha eleitoral para as eleições à Constituinte Federal foi iniciada em abril de 1933, com a publicação diária da coluna, no jornal A Federação, ‘Proclamação,’ onde o PRL recomendava os seus candidatos a deputado. Também, em artigo escrito diariamente, no mesmo jornal “Os Candidatos Liberais” cada um dos concorrentes pelo PRL era apresentado ao leitor com dados de sua biografia pessoal e política. Igualmente, em outra secção do jornal, denominada de “Conselhos ao eleitor” orientava os partidários do PRL e ao povo de modo geral, sobre o alistamento e o modo correto de votar293.
No ano de 1933, o jornal O Nacional relatou que o Partido Liberal afirmara oficialmente seu apoio incondicional a Getúlio Vargas para candidato Constitucional da República. Assim referiu o jornal:
o general Flores da Cunha telegrafou aos jornais cariocas nos seguintes termos:
rogo-vos declarar pelas vossas brilhantes colunas que o Partido Liberal e quase a unidade dos rio-grandenses, somos pela eleição do ilustre dr. Getúlio Vargas a presidência Constitucional do Brasil. Não serão manobras secretas e por isso mesmo indecorosas que nos demoveram dessa atitude294. (grifos nosso).
Ainda em 1933, de acordo com O Nacional, acirravam-se os ânimos com referência às eleições constitucionais. Flores da Cunha, que havia dado seu parecer publicamente de apoio a Getúlio Vargas para o cargo de presidente da República, decretou com seu ato de lealdade a fúria de muitos adversários. Assim, Simões Lopes, líder da bancada liberal na Constituinte, enviou um telegrama a Flores da Cunha solicitando instruções para a situação, que era de revolta no estado, como relatou o jornal:
O general Flores respondeu por telegrama nestes termos: tudo devemos fazer para manter unidos e solidários os verdadeiros revolucionários. Nosso Estado prestigia a ação do sr. Getúlio Vargas, com o qual marchará, haja o que houver. Está igualmente resolvido não poupar esforços para que a constituinte desempenhe livremente a alta incumbência que lhe cometeu a soberania nacional.
Para afiançar a obra do governo provisório e deliberações da Constituinte, está
293A FEDERAÇÃO. Porto Alegre, n. 148, ano XXXIX, 21jul. 1933. p. 04.
294 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1679, ano IX, 11 dez. 1933. p. 1.
o Rio Grande disposto a mobilizar todos os seus recursos e reservas morais e materiais. A ordem deve ser mantida custe o que custar295. (grifos nosso).
As articulações que estavam sendo feitas objetivavam o apoio a Vargas para presidente constitucional e, também, a escolha do quadro de ministros que deveriam compor os ministérios. Aqui, mais uma vez se fazem pertinentes os registros localizados em O Nacional quanto à visita de Flores da Cunha ao palácio do Catete, no Rio:
Estiveram presentes a chegada do general Flores da Cunha no Rio, os srs, Oswaldo Aranha, Maciel Junior, Juraci Magalhães, Pedro Ernesto e os componentes da bancada liberal gaúcha. Abordado pelos repórteres o general Flores da Cunha disse que a Constituinte não corre nenhum perigo, pois todos amam o seu país e desejam prestigiá-la, a fim de que livremente se plasme o novo regime. Disse ainda que acredita que o reajustamento político, em torno do sr. Getúlio Vargas está feito, dependendo apenas da escolha dos nomes que ocuparam os postos vagos. O ponto de vista do Rio Grande do Sul é a defesa da ordem que, para ele está acima dos partidos e do amor próprio ofendido pelos políticos. Disse o interventor gaúcho que entrará em nenhuma recomposição ministerial. Se deixar a interventoria gaúcha, recolher-se-á a vida do campo. Tornando a falar sobre a recomposição ministerial disse que ele deve obedecer, de preferência, aos altos interesses do país, renegando para plano inferior os melindres feridos. Interrogado sobre a possibilidade da colaboração de elementos da República Velha no Governo disse que devem ser aproveitados os homens de valor, comprovado, tenham a origem que tiverem. Acha que São Paulo está no dever de colaborar com o sr. Getúlio Vargas. O Rio Grande do Sul nada pede para si. Contenta-se com o que tem conseguido já do sr. Getúlio Vargas, a quem apóia296. (grifos nosso).
Podemos perceber, pelas reportagens dos jornais, que os discursos de Flores sempre vinham ao encontro dos propósitos do governo situacionista, mesmo após ter fundado seu próprio partido. Flores surpreendia constantemente a todos os seus aliados com sua notável diplomacia ao negociar politicamente, privilegiando de maneira clara a preservação de seus interesses, bem como os do Rio Grande do Sul. Assim, entendemos que a posição de Flores era direcionada ao suporte a Vargas.
A ida de Flores ao Rio ocorreu com a intenção de amenizar os ânimos dos descontentes e tentar solucionar a crise política instaurada em razão da escolha do ministério que comporia o governo de Vargas. Igualmente, Flores tentava solucionar o pedido de exoneração efetuado pelos ministros da Fazenda e do Exterior, Oswaldo Aranha e Afrânio de Mello Franco. O Nacional em 1934, trouxe ao conhecimento de seus leitores o que ocorria em se tratando da solução da crise política:
295 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1684, ano IX, 16 dez. 1933. p.3.
296 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1701, ano IX, 08 jan. 1934. p.1.
É o seguinte o teor da nota distribuída pela secretaria do palácio do Catete, a propósito da solução da crise ministerial e política: em virtude do resultado da reunião realizada no palácio Tiradentes, presidida pelo general Flores da Cunha, da qual participaram os srs, general Góes Monteiro, José Américo, Pedro Ernesto, Armando Salles de Oliveira, Juarez Távora, Salgado Filho, almirante Protógenes Guimarães, Maciel Junior, Washington Pires, Juraci Magalhães, Oswaldo Aranha, Ari Pareiras e Afrânio de Mello Franco, dando-se como encerrado por uma fórmula altamente honrosa e patriótica, o incidente que motivou os pedidos de exoneração dos ministros da Fazenda e do Exterior, o chefe do Governo Provisório, nos termos das deliberações unânimes tomadas, resolveu que os referidos titulares, continuassem nos seus postos, reassumindo as altas funções em que tão assinalados serviços vinham prestando ao país. Palavras do sr. Juraci Magalhães297. (grifos nosso).
Ainda com referência à crise política instaurada diante do pedido de exoneração dos ministros da Fazenda e do Exterior, O Nacional noticiava sobre a entrevista de Oswaldo Aranha: “Rio- 11- O sr Oswaldo Aranha aos jornalistas que lhe perguntaram a saída do palácio Tiradentes o que havia de novo, se deliberará voltar ao Governo, disse: “o que há de novo, é que fiz o ato mais original de minha vida: assinei o meu atestado de óbito”298. (grifos nosso). Da mesma forma, a imprensa continuou comentando a respeito do ato de exoneração de Oswaldo Aranha: “Rio – 11- Os matutinos refletem a sua surpresa e ao mesmo tempo satisfação pela solução da crise política. O jornal do Brasil diz que não se esperava uma solução tão simples, depois de tantas demarques299. (grifos nosso).
De acordo com O Nacional Getúlio Vargas enviara duas cartas, sendo uma para Oswaldo Aranha e outra para Afrânio de Mello Franco, convidando-os a reassumirem suas pastas. Oswaldo Aranha regressaria para Petrópolis, devendo visitar Getúlio Vargas em companhia de Afrânio de Mello Franco; e reassumiria a pasta da Fazenda300. Contudo, Afrânio de Melo Franco enviou carta a Getúlio Vargas demonstrando sua irredutibilidade na decisão em não retornar ao Ministério do Exterior. No entanto, continuaria oferecendo seu apoio absoluto a Vargas. Assim transcreveu o O Nacional:
Afrânio de Melo Franco não voltará ao Ministério do Exterior, sendo a sua atitude conciliadora explicável pelo propósito que tinha de não criar embaraços, antes auxiliar, o regresso do sr. Oswaldo Aranha a pasta da Fazenda. O Jornal do Brasil diz que o sr. Melo Franco escreveu uma carta ao sr. Getúlio Vargas dizendo que agora que está liquidada a crise política reclama a sua liberdade para o
297 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1705, ano IX, 12 jan. 1934. p. 1
298 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1705, ano IX, 12 jan. 1934. p. 1.
299 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1705, ano IX, 12 jan. 1934. p. 1.
300 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1705, ano IX, 12 jan. 1934. p. 1.
repouso que necessita. Diz que se tomou parte na solução da crise política foi para não criar dificuldades para a volta de Oswaldo Aranha ao governo301. (grifos nosso).
Prosseguia O Nacional informando, em suas páginas sobre a entrevista que fora concedida ao Diário de Noticias por Borges de Medeiros, na qual ele falara a respeito da Constituinte:
[...] Borges de Medeiros declarou: a Constituinte não fracassará e corresponderá aos anseios do povo, atingindo os seus fins. Acredita que isso depende, em grande parte do Governo Provisório, julgando ainda que adotaremos o projeto do Itamarati com pequenas modificações. O dr. Borges diz que discorda de vários pontos da bancada paulista e terminou dizendo que quando deixou o Rio Grande do Sul, pensava abandonar a política. Agora, porém, sente-se na obrigação de não abandonar a vida pública. Proclamada a Constituinte regressará ao Rio Grande assumindo o posto que lhe designarem seus conterrâneos na vida política. Para ele, agora, isso é uma imposição de sua dignidade. Terminou dizendo que a tendência espontânea é a fusão dos partidos da Frente Única – “Pensamos todos em consolidar a Frente Única com os antigos partidos Republicano e Libertador”302. (grifos nosso).
Infere-se pelo teor da reportagem focalizando a atuação de Borges de Medeiros no Diário de Notícias, que todos os partidos do Rio Grande do Sul e seus chefes estavam envolvidos nas eleições para a Constituinte e apoiavam claramente o líder Getúlio Vargas, como primeiro presidente constitucional do Brasil.
Dessa forma, após a fundação do PRL deu-se início à preparação do processo eleitoral para a eleição da Constituinte Federal de 1933. Em nível estadual, Flores da Cunha iniciou um processo de alistamento eleitoral e enviou às direções dos municípios cartas circulares solicitando dados sobre os eleitores. Consta no Arquivo da Prefeitura Municipal de Carazinho um exemplar, enviado por Darcy Azambuja, secretário-geral do PRL a Homero Guerra, prefeito municipal de Carazinho, onde são solicitadas, em nome do General Flores da Cunha, informações referentes ao número de eleitores republicanos liberais inscritos no município, bem como dos eleitores da Frente Única, dos que faziam parte da Liga Eleitoral Católica e, também, dos eleitores avulsos303.
301 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1705, ano IX, 12 jan. 1934. p. 1.
302 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1707, ano IX, 15 jan. 1934. p. 1.
303 Carta Circular n. 11. Porto Alegre, 10 abr. 1933. Arquivo da Prefeitura Municipal de Carazinho. In PRATES, Ana Maria da Rosa. A trajetória de Nicolau de Araújo Vergueiro na história política de Passo Fundo – RS (1930-1932). 2001. 251f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História) - Universidade de Passo Fundo,
Em Passo Fundo, o tenente Cúrio de Carvalho, substituindo Nicolau Vergueiro que se encontrava exilado na Argentina, fez um chamamento por meio de “O Nacional’ para que os correligionários republicanos de Passo Fundo votassem nas eleições do dia 3 de maio de 1933. O texto estava assim redigido:
Sou bastante conhecido vosso: fui o precursor do “Verguerismo” em Passo Fundo, proclamando pela A Voz da Serra, em 7 de março de 1917, o Nicolau Araújo Vergueiro o “primus inter pares” no seio do parfido republicano local. (...) Hoje, olvidando todas as desilusões sopitando todas as mágoas, retomo a meu posto de combate para clarinar aos quatro ventos, chamando a postos os companheiros de outrora afim de unirem fileiras em torno do chefe que no apogeu de suas glórias, no auge de seu prestigio o Partido Republicano de Passo Fundo sufragou com 4.004 votos. É um dever de gratidão, se não de lealdade, agora que o Vergueiro sofre o ostracismo de uma ausência forçada pelas perseguições polificas.
depois de duas prisões humilhantes e injustas, que todo o eleitorado de Passo Fundo, homens e mulheres. lhes tragam o conforto moral de sua solidariedade. votando sem discrepância, em seu nome, incluindo na chapa da Frente Única para Assembleia Nacional Constituinte. (...) Eleitorado de Passo Fundo! No dia 3 de maio daí o vosso voto ao Nicolau Araujo Vergueiro. Nosso chefe, nosso amigo e nosso médico! A gratidão sempre foi o apanágio dos homens de honra304. (grifos nosso).
Os adversários políticos de Flores da Cunha anunciavam que o PRL havia sido criado somente por capricho pessoal de seu líder. Entretanto, a realidade mostrou-se bem distante de tal afirmação, visto que em maio de 1933 foram realizadas as eleições para a Constituinte Federal e o novo partido obteve vitória expressiva, ou seja, mais de cento e trinta mil votos, contra menos de quarenta mil da oposição. Assim, das dezesseis cadeiras que cabiam ao Rio Grande do Sul, o Partido Republicado Liberal conseguiu treze, sendo derrotado em apenas cinco municípios (Candelária, São Pedro, D. Pedrito, Caçapava e São Sepé)305.
Dessa forma, as eleições deram vitória vantajosa ao PRL, embora este tenha se valido de artimanhas políticas de seus componentes, a exemplo da atitude tomada por Flores da Cunha de solicitar ao presidente do Supremo Tribunal Eleitoral a cassação dos direitos políticos de alguns candidatos que haviam se envolvido na Revolução de 1932. Estando dentre eles Nicolau de Araújo Vergeiro, preso por duas ocasições, a Frente Única concorreu sem nenhum representante de Passo Fundo306. O gráfico 1 sintetiza os resultados da referida eleição:
Passo Fundo, 2001. p. 151.
304 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1572, ano VIII, 27 abr. 1933. p. 1.
305 CAGGIANI, Ivo. Flores da Cunha: biografia. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1996. p. 64 -135.
306 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1256, ano VIII, 21 nov. 1932. p. 4.
Gráfico 1 - Resultado das eleições em Passo Fundo e Carazinho para as eleições de 1933
Fonte: dados sintetizados pela autora com base nas informações recolhidas no Jornal da Serra, Carazinho, n.198, ano. III, 6 jun. 1933. p.2.
Na análise do gráfico 1, com os dados completos expressos na Tabela 1, (Anexo C), constatamos que tanto em Passo Fundo como em Carazinho o PRL venceu as eleições, demonstrando a derrota da FUG, assim como ocorreu na quase totalidade dos municípios gaúchos. Podemos atribuir esse fato, concordando com os historiadores e analistas da época, à intensa articulação florista, que se aproveitou da desarticulação da FUG especialmente pelo exílio de seus líderes, além das artimanhas políticas já mencionadas.
Constatamos que no decorrer da campanha política o PRL valorizou o apoio que seus candidatos receberam da Liga Eleitoral Católica (LEC), que se dedicou à qualificação eleitoral, contando com o apoio da Igreja. Nesse sentido, apontamos as manifestações do monsenhor Nicolau Max, que assinou vários artigos conclamando o eleitorado católico, como este: “Um católico que, sob a legenda da Frente única der o seu voto a um candidato, por mais católico que este seja, vota também nos inimigos das nossas reivindicações”307.
Salientamos que o período de 1933 foi de mudanças, como a da realização da primeira eleição constituinte. Nesse sentido, o jornal O Nacional, em reportagem na primeira página, referiu-se à mensagem lida por Getúlio Vargas, assim narrando:
307 A FEDERAÇÃO. Porto Alegre, n. 87, ano XXXIX, 28 abr. 1933. p. 07.
Rio 16- foi um verdadeiro acontecimento a leitura da mensagem do sr. Getúlio Vargas na Constituinte. [...] A câmara estava cheia, como nos seus grandes dias, achando-se presentes os embaixadores, interventores e ministros, além de pessoas gradas. Estavam presentes os srs. Flores da Cunha, Lima Cavalcanti, Juraci Magalhães, Pedro Ernesto e Mainard Gomes. Todos os lugares estavam ocupados e o povo rodeava tudo. A entrada e a saída da Constituinte, o chefe do Governo Provisório recebeu continências de tropas do exercito. Sua excia. entrou acompanhado do sr. Antonio Carlos, presidente da Constituinte, e de uma comissão de deputados. Foi saudado pelo sr. Raul Fernandes. A seguir leu a sua mensagem, cuja leitura levou cerca de 50 minutos, a qual narra o seu governo, tratando das obras públicas, finanças e políticas, a qual causou ótima impressão. A parte política da mensagem do Governo Provisório diz, no início, que o movimento revolucionário de 1930, não teve similares na história. As forças armadas colocaram-se patrioticamente ao lado do povo, libertando-se o país pelo seu próprio esforço. Diz que o governo discricionário baniu de si a prepotência e o arbítrio, respeitando as normas jurídicas existentes, não prejudicando os direitos adquiridos. Cabia-lhes destruir o estado de coisas inveterado que já fazia hábitos dos interesses contrários a nacionalidade. Era natural que os donatários da situação derrogada, reagissem, pela passividade, contra o predomínio da revolução. Alguns levados por motivos pessoais procuraram infiltrar-se entre os elementos perturbadores para perturbar a ação do governo308. (grifos nosso).
Na avaliação de O Nacional, o discurso de Vargas dera ênfase às atividades do Governo Provisório; logo podemos verificar que, tenuemente, eram dadas explicações aos acontecimentos ocorridos nesse período. Continuava o relato do jornal:
O desassossego extremado e a afoiteza ambiciosa foram fatores de perturbação e desentendimentos, explorados para atemorizar o governo e impor-lhe rumos exclusivistas. A reorganização política do país, prevista e iniciada logo após o Governo Provisório, com o preparo da reforma eleitoral, foi o pretexto mais utilizado para agitar o ambiente, para rotular a obra reacionária dos despeitados. Sobre os propósitos do governo de restabelecer a ordem constitucional, não era lícito alimentar dúvidas diante dos compromissos espontânea e solenemente assumidos pelo governo. Decretado o Código Eleitoral, seguiram-se todos os atos indispensáveis para a execução rápida do alistamento, manutenção da ordem e para a defesa dos ideais que representa. Aplicando-as, não pode porém, abrigar ódios e nem intuitos de vingança, sentimentos negativos e contrários a sua finalidade construtora. A função de governar é por sua natureza impessoal, isenta de paixões, cumpre exercê-la sobrepondo-se as lutas e dissídios, quase sempre estéreis para só ter presente os superiores interesses da Pátria, que está a exigir a cooperação e o esforço sincero de seus filhos, para que se ultime num ambiente de tranqüilidade e confiança, a grande obra de reconstrução nacional, para que dentro de tão elevado espírito de tolerância e leal entendimento,
308 O NACIONAL. Passo Fundo, n. 1658, ano IX, 16 nov. 1933. p. 01.
todos os brasileiros encontrem abertas as fronteiras do país e igualmente francas garantias para o livre exercício de suas atividades pacíficas309. (grifos nosso).
Portanto, analisando o discurso transcrito pelo jornal O Nacional, podemos dizer que o Governo Provisório procurou se colocar acima das competições, para não trair os compromissos assumidos. Dessa forma, não podia se transformar num simples executor dos programas partidários, mas, sim, deveria ser o executor e coordenador das aspirações populares, com vistas a estabelecer o equilíbrio das correntes representadas. E essa era a função que o Governo Provisório buscava concretizar esforçando-se permanentemente para obter a acomodação entre as direitas e esquerdas revolucionárias.