3 ELITES, IDEOLOGIA, SOCIOLOGIA E ARQUITETURA
3.4 As Elites e suas relações com os concursos
Segundo Piñon (2007) entre os fatores que contribuiriam para a conformação das elites na arquitetura estariam a mídia, os periódicos e as revistas de arquitetura. São veículos de circulação de capital cultural, que orientam-se à doutrina das massas do campo profissional através de discursos que reforçam valores ditados pelas elites. Para Bourdieu (2007), os campos profissionais assemelham-se a seitas religiosas e suas respectivas hierarquias e monopólios de discursos. Os veículos de divulgação primariam pela busca do novo, a qual beira o irreverente, e acabariam por precipitar-se na promoção hiperbólica de projetos ainda não consagrados como símbolo de excelência da arquitetura (PIÑON, 2007). Para Montaner (2001) o valor de uma arquitetura é determinado pela crítica, que deve atribuir valores para as obras de acordo com o conjunto de variáveis com as quais o projeto se depara. O autor julga necessário que a análise, primeiramente, depare-se com a obra construída. Além disso, o autor acredita que a crítica deve equacionar o contexto anterior e posterior a obra.
O impacto ambiental (urbano ou ecológico) deve ser elemento a ser pesado pela crítica. Deve-se pesar quais os agentes sociais envolvidos no lançamento do programa, as populações beneficiadas, os grupos discordantes, a classificação da obra dentro da historiografia da arquitetura, os impactos deixados no meio social e todos as inferências da arquitetura em outros campos. Para tanto, Montaner (2001) defende que a crítica, quanto
mais ampla e multidisciplinar, mais próximo pode chegar da interpretação de um projeto. Em contrapartida, Johnson (1993) acredita que o emprego de termos externos a arquitetura fragiliza a força do campo. Ao recorrer a termos de outros campos como a sociologia, a antropologia, a ecologia, a arquitetura foge de seu elemento, e passa a falar de questões que não domina a pleno. Segundo o autor essa atitude alimenta o mito de que a arquitetura é um campo que se presta à estruturação social. Para ele, há de se distinguir o que é mito e o que é realidade a respeito do papel da arquitetura na estrutura cultural e social.
Stevens (1998) avaliou a profissão do arquiteto segundo a sociologia. Constatou, em primeira instância, que o perfil da arquitetura é afeito a abordagem da psicologia, que compreende a ideia do “gênio”. Para compreender a ideia por trás do gênio é necessário recorrer a Immanuel Kant (1724 —1804), que o definira enquanto a disposição da mente da qual emerge o talento para a arte bela. Requer, para tanto, a originalidade para criar seus próprios modelos.
O gênio seria determinado por duas faculdades do ânimo: a imaginação e o entendimento. O entendimento consiste na recondução dos fenômenos à regra, ou seja, reconhecer as relações que originam os fenômenos. Já a imaginação compete a faculdade de criar imagens, na forma de esquema, de como essas relações se estruturam. São, portanto, faculdades interdependentes do gênio que lhe conferem dons e aptidões inatas.
Contudo, Stevens (1998) acredita que o arquiteto que ocupa posições de dominância no campo é fruto de relações de ordem sociológica. Para isso cita o sistema de pupilagem recorrente nas arquitetura de alto valor simbólico dentro de um campo. Arquitetos que trabalharam com expoentes intelectuais da profissão acabam por herdar o “direito” à mesma posição no campo. Podemos citar como exemplo a relação de Frank Lloyd Wright com Sullivan, ou mesmo, em contexto mais próximo, a relação entre Marcelo Ferraz e Lina Bo Bardi.
A questão não é o demérito ao trabalho do arquiteto (inclusive esse sistema pode ser um meio informal de troca que poderia ser mais bem explorado pela profissão), antes disso, que existe um sistema dentro do campo que prioriza indivíduos socialmente bem inseridos no campo. Isso ocorre também em relação às escolas de arquitetura. Na formação dos arquitetos, Stevens (1998) reconheceu que arquitetos exponenciais dentro de um campo, na maioria, são oriundos de mesmas faculdades. A sociologia bourdiana entende esses indivíduos como detentores de capital simbólico social superior. Quando atribuído aos outros tipos de capital simbólico (institucional, objetificado e corporificado) o social apenas
contribui para a manutenção hereditária dos título profissionais e intelectuais.
A relação entre o arquiteto buscar redenção pelas questões sociais de sua obra, conforme acusa Johnson (1993), é conflitante com o ideal do gênio ao qual Stevens (1998) se refere. Contudo, ambos chegam a conclusões semelhantes: para ambos os autores, o mito da arquitetura como determinante para o aprimoramento da sociedade é a maneira pela qual o arquiteto tenta promover sua apreciação ante outros campos.
Piñon (2007) também acredita que o arquiteto é determinado pela sua rede de relações sociais. O autor critica que o arquiteto da atualidade é um produto de suas relações sociais e sua aptidão midiática, que se permite acreditar nos valores mercadológicos que vende ao público. Os valores mercadológicos da arquitetura, para Piñon (2007) são traduzidos pela arquitetura que é feita antes de tudo para angariar admiradores pela estética, pela gestão de imagens e critérios de mercado. O uso do benefício social ou ambiental são temas recorrentes desses argumentos.
Para Johnson (1993) os periódicos e revistas especializadas, ao optar por determinados teóricos, confeririam-lhes condição de liderança. A curadoria e a tiragem (ou alcance) da publicação seriam determinantes para o reconhecimento de uma determinada corrente dentro da arquitetura e, seus defensores, abrigados sob o selo de uma elite. Segundo Stevens (1998) uma das maneiras mais eficazes de potencializar um determinado agente dentro do campo da arquitetura consiste na classificação da produção de determinados arquitetos como um tipo próprio de arquitetura, novo e diferente dos praticados fora desse grupo, pelo reconhecimento de novos princípios, teorias ou doutrinas.
O maior empecilho que Piñon (2007) identifica nos veículos de mídia da arquitetura é da ordem das quantidades: um contexto de muita produção e muita tiragem. Segundo o autor a quantidade de periódicos do mercado primariam pela insistência na novidade e na surpresa, aspecto que espetaculariza a profissão. O autor enxerga o arquiteto como uma vítima de seu tempo, que, tranquilizado por uma suposta relevância social, entrega-se às vaidades da fama em busca de reconhecimento público.
Pode-se demonstrar esse aspecto de maneira mais evidente pelo papel conferido pelas mostras e exposições na arquitetura, como no caso da já referida Brazil Builds (1943) que projetou a arquitetura moderna brasileira para o mundo. Tanto Johnson (1993) como Stevens (1998) citam o papel determinante daexposição Deconstructivist Architecture, realizada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em 1988 e com curadoria de Phillip Johnson. Para Stevens (1998) a exposição foi capaz de rotular a arquitetura por sete arquitetos diferentes sob um mesmo título, sendo que para isso gerou um capital simbólico
mais potente dentro do campo. Para Johnson (1993), a exposição conferiu aos arquitetos promovidos a elite da vanguarda que, a partir do evento, angariariam seguidores e admiradores nas camadas menos influentes da classe.
Segundo Stevens (1998), a autoridade e relevância conferidas às exposições de Phillip Johnson, que décadas antes organizou a exposição que divulgou e propagou a arquitetura moderna nos Estados Unidos, estaria vinculada com os títulos de nobreza conferidos ao indivíduo. Bourdieu (1979) seriam vinculadas a apropriação do capital cultural ao longo da vida do indivíduo e é determinada em primeira instância à família, pela profissão do pai, e posteriormente aos círculos sociais, ao estilo de vida e ao capital institucionalizado.
O indivíduo que cresce em um ambiente no qual o acesso à cultura é natural adquire o título de nobreza pela experiência. Bourdieu (1979) classifica a esse indivíduo como mundano. Em contrapartida, indivíduos que adquirem acesso à cultura por ensinamentos e instituições reconhecidas (universidades, escolas, etc.) também adquirem o mesmo título, contudo, são reconhecidos pelo autor como pedantes.
As premiações seriam realizações capazes de lançar novas forças ou reforçar elites no campo. Dos projetos expostos na mostra Deconstructivist Architecture, quatro eram fruto de concurso de arquitetura, ou seja, premiados. As premiações no campo da arquitetura não se limitam somente aos concursos, ocorrem tanto nos concursos como em premiações conferidas por veículos de mídia, entidades de classe e entidades externas à classe (JOHNSON, 1993).
Para Johnson (1993) as premiações preencheriam lacunas deixadas pelos meios especializados e propiciariam aspectos de valia à classe profissional. Contudo, para Stevens (1998), a questão seria mais ampla do que a simples identificação dos profissionais merecedores de tais honras. Segundo o autor, os concursos de arquitetura são eventos nos quais os arquitetos confirmam sua dependência dos campos dominantes na sociedade, reafirmando seus gostos e sua visão de mundo.
Para Larragaña (2015) o ato de promover a produção de um arquiteto por meio de prêmios tem reflexo direto no gosto e na opinião do público que se importa. É um ato de dimensão didática, com base em um corpo de jurados tidos como capazes de proferir tal grau de excelência e diferenciação ao trabalho de um em relação ao de outros. Para o autor “não há comentário sem consequências nem ação pública que se limite puramente ao privado” (tradução nossa, Larragaña (2015), "De la Vanidad a la Responsabilidad: Sobre los Prêmios y sus implicaciones").
Stevens (1998) ressalta que, por um lado, o concurso de arquitetura poderia ser o único evento no qual a arquitetura consegue, distanciada das questões implicadas por qualquer cliente, aprofundar suas questões simbólicas. Contudo, a temática dos concursos e seus resultados seriam voltados à confirmação dos valores prezados pelos campos dominantes. Segundo o autor, a chance da autonomia seria desde o princípio minada, visto que pela independência os arquitetos primariam por querer se mostrarem conhecedores dos valores prezados pela classe dominante.
A subserviência da arquitetura às elites dominantes da sociedade seria ainda mais aguda pela disposição apresentada pelos competidores, que investem seu tempo, esforço e recursos em desenhos capazes de contemplar tais símbolos mesmo sem garantia de contratação. Para o autor, às vezes parece ser de mais valia aos arquitetos uma menção honrosa ou qualquer posição inferior a de vencedor para que não corram risco de ter que alterar o projeto para a execução (STEVENS, 1998).
Conforme foi possível ver no capítulo anterior, muitos concursos ficaram marcados pelas suas premiações. Por vezes propostas de menção honrosa apresentam resoluções tão relevantes quanto a da proposta escolhida, que às vezes é preterida por atributos de desempate inesperados. Assim acontece também em concursos onde se preestabelece uma estilística ou que questões relativas à marca ou a atributos externos a arquitetura que podem definir a opção do júri (STEVENS, 1998).