2 ABORDAGEM TEÓRICA
2.4 AS ELITES POLÍTICAS E O CONTROLE DAS ESFERAS INSTITUCIONAIS
Conforme observamos anteriormente, uma das principais características que distingue uma reforma de uma revolução é o apoio que tal processo detém da elite política. Diante disso, a compreensão de um movimento revolucionário está condicionada à análise da influência das elites políticas dentro desenvolvimento institucional de um Estado. De maneira geral, o ponto de convergência da análise dos teóricos elitistas concentra-se no pressuposto de que em “toda sociedade existe, sempre e apenas, uma minoria que, por várias formas é detentora do poder, em contraposição a uma minoria que dele está privada” (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998, p.385). Trata-se assim, de uma abordagem teórica segundo a qual, em cada sociedade, o poder de tomar e de impor decisões válidas para todos os membros do grupo pertence sempre a um círculo restrito de pessoas.
Nesse sentido, a existência de uma elite detentora de poder deriva de um fator fundamental e universal dentro da vida social: a ausência de um interesse comum bem definido em qualquer grande coletividade. Apesar dos agrupamentos sociais se assentarem sob certas bases compartilhadas de valores, seus membros possuem diferentes interesses particulares cuja satisfação é incompatível. Quando estes conflitos de interesse se ampliam e refletem no funcionamento das estruturas políticas e no processo de tomada de decisão, surge a necessidade de que um determinado grupo assuma o controle dessas estruturas, de modo que a existência de
elites políticas pode ser compreendida como uma característica inerente à complexificação social.
Um dos principais autores que contribuiu com o desenvolvimento da teoria elitista foi Mosca (1939). Apesar da ideia de que as sociedades são divididas entre governantes e governados não constituir uma novidade no momento em o autor formulou sua teoria, ele foi o primeiro a apresentar essa concepção por meio de uma abordagem mais sistematizada e uma definição mais específica. Segundo ele:
Entre os fatos e tendências constantes que são encontrados em todos os organismos políticos, um é tão óbvio que é evidente para o olho mais despreparado. Em todas as sociedades – das sociedades que são muito pouco desenvolvidas e que mal alcançaram os alvoreceres da civilização, até as sociedades mais avançadas e poderosas – duas classes de pessoas aparecem – uma classe que governa e uma classe que é governada. A primeira classe, sempre menos numerosa, desempenha todas as funções políticas, monopoliza o poder e goza das vantagens que o poder traz, enquanto a segunda, a classe mais numerosa, é dirigida e controlada pela primeira (MOSCA, 1939, p.50, tradução própria13).
A inevitabilidade da regra da minoria sobre a maioria é reforçada por Mosca a partir da referência ao grau de organização da elite política. Para o autor, a monopolização de poder dos governantes sobre os governados é evidente e inevitável pelo simples fato de que é mais fácil para um número reduzido de pessoas organizar-se e agir em conjunto. Além disso, outra característica que distingue a elite política é sua superioridade em termos intelectuais e materiais em relação à maioria da população – o que, segundo o autor, não necessariamente está relacionado a características inerentes ao indivíduo, mas sim à passagem de padrões de comportamento e atitudes através da família e classe social (HARTMANN, 2006, p.9,10).
Outro expoente dentro da teoria elitista, Pareto compreende a elite política como o conjunto de indivíduos que desempenham direta ou indiretamente um papel notável nos mais altos níveis de poder. Ainda que sua análise seja semelhante à proposta por Mosca, em Pareto a classe dominante é subdividida em duas categorias: elite governante e elite não governante. A partir disso, Pareto dedicou seus estudos ao fenômeno de ascensão e decadência destes grupos, procurando explicar a manutenção do corpo político por meio do conceito de circulação das elites e desenvolvendo sua teoria sobre o modo como os diversos tipos de elites se combinam, se integram e se intercambiam (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 1998,
13 No original: “Among the constant facts and tendencies that are to be found in all political organisms, one is so
obvious that it is apparent to the most casual eye. In all societies from societies that are very meagerly developed and have barely attained the dawnings of civilization, down to the most advanced and powerful societies two classes of people appear a class that rules and a class that is ruled. The first class, always the less numerous, performs all political functions, monopolizes power and enjoys the advantages that power brings, whereas the second, the more numerous lass, is directed and controlled by the firs” (MOSCA, 1939, p.50).
p.386). Nesse sentido, a “circulação de elites” corresponde à substituição de indivíduos pertencentes à elite dominante por indivíduos pertencentes às classes inferiores. Se inicialmente essa alteração tem como função fornecer estabilidade ao sistema político e têm consequências positivas nos esforços da classe dominante para manter-se no poder, Pareto observa que, com o passar do tempo isso geraria uma ampliação da organização nos estratos inferiores14. Como consequência disso, a circulação de elites não seria mais capaz de impedir que o poder da elite dominante fosse ameaçado e ela acabaria sendo substituída por uma nova elite por meio de um movimento revolucionário (HARTMANN, 2006, p.13-15).
É importante destacar que a ideia de circulação de elites, entretanto, não é um elemento restrito à análise proposta por Pareto. Na realidade, tal fenômeno também esteve presente nos trabalhos de Mosca, mas os dois autores apresentam divergências em relação à explicação fornecida. Enquanto Pareto concede ênfase aos aspectos psicológicos e qualidades intelectuais e morais que distinguem o grupo dominante e as classes inferiores, Mosca observa que tais características individuais são frequentemente produtos de circunstâncias sociais, adotando uma perspectiva onde a complexidade e a variabilidade histórica da estrutura de classes possuem maior destaque. Admite-se que, diante de mudanças econômicas ou culturais, o declínio de determinados interesses e o surgimento de novos objetivos faz com que novos grupos aumentem sua influência na sociedade e ascendam ao poder político, configurando assim, o processo de circulação de elites (BOTTOMORE, 2001, p.41-43).
No entanto, ainda que Mosca conceda uma maior influência de elementos sociais em sua análise – principalmente quando comparado a Pareto – percebe-se que ambos baseiam-se na concepção de que o objetivo da ciência política está ligado ao estudo das leis e regularidades que regem os fenômenos políticos de maneira universal. Compreende-se assim, a existência de uma elite política como uma constante em todos os organismos políticos e em qualquer período histórico. Essa abordagem, entretanto, é contraposta por Mills (1981). Para o autor, a ideia de que “em todas as épocas da história humana e em todas as nações, uma minoria criadora, uma classe dominante, uma elite onipotente, condiciona os fatos históricos” não passa de uma tautologia.
14 Segundo Pareto a transferência de membros da elite política para as classes inferiores no longo prazo teria como
resultado a acumulação de elementos superiores nos estratos inferiores e elementos inferiores nos estratos superiores, o que levaria à derrubada revolucionária da classe dominante (HARTMANN, 2006, p.13).
A definição mínima da elite do poder como os que tomam as decisões de importância a serem tomadas, não significa que os membros dessa elite sejam sempre os fazedores da história, nem, por outro lado, que jamais o sejam. Não devemos confundir a concepção de elite, que desejamos definir, com uma teoria sobre o seu papel, ou a teoria de que seja a mola da história de nossa época. Definir a elite, por exemplo, como “os que governam a América” é menos definir um conceito do que levantar uma hipótese sobre o papel e o poder dessa elite. Não importa a definição, o poder de seus membros está sujeito a variações históricas (MILLS, 1981, p.30).
A grande diferença entre Mills e os demais elitistas repousa sobre o fato de ele não considerar a existência de uma elite política uma lei sociológica universal, mas sim um elemento historicamente condicionado. Logo no início de sua obra, Mills destaca que a realidade do homem comum é cercada de acontecimentos que os mesmos não podem compreender nem controlar, de modo que o que os diferencia da elite do poder é o fato de esta ser “composta de homens cuja posição lhes permite transcender o ambiente comum dos homens comuns, e tomar decisões de grandes consequências” (MILLS, 1981, p.12, grifo próprio). O conceito de elite adquire assim, um caráter estrutural, de modo que o que a distingue dos demais não são suas características superiores, mas sim os condicionantes históricos que permitiram que seus indivíduos ocupassem esta posição.
O que estou afirmando é que nesta época particular, uma conjunção de circunstâncias históricas levou ao aparecimento de uma elite de poder; que os homens dos círculos que compõem essa elite, isolada e coletivamente, tomam atualmente as decisões chaves, e que devido à ampliação e centralização dos meios de poder existentes, as decisões que tomam ou deixam de tomar têm maiores consequências para um número de pessoas maior do que em qualquer época da história mundial da humanidade (MILLS, 1981, p.39).
Mills argumenta que a elite dominante seria composta pelos altos cargos dos setores político, econômico e militar e considera que é essa pequena parcela de indivíduos que realmente tomam as decisões e possuem algum poder de influenciar o rumo da história.
Na cúpula de cada um desses três domínios ampliados e centralizados surgiram as altas rodas que constituem a elite econômica, política e militar. No alto da economia, entre as grandes empresas, estão os principais executivos; no alto da ordem política, os membros dos diretórios políticos; no alto da organização militar, a elite dos soldados-estadistas se comprime em torno dos Estados-Maiores e do escalão superior. À medida que esses domínios coincidem entre si, as decisões passam a ser totais em suas consequências, e os líderes desses três domínios de poder – os senhores de guerra, os chefes de empresa e o diretório público – se reúnem para formar a elite do poder (MILLS, 1981, p.17).
Segundo Mills (1981, p.18) o que possibilita que estes indivíduos ocupem uma posição diferenciada na sociedade é o seu acesso ao comando das principais estruturas institucionais, uma vez que, para o autor, é por meio destas que a elite se torna capaz de “realizar sua vontade, mesmo com a resistência de outros”. Apesar de nem todo poder estar ligado e ser exercido por
meio das instituições, é somente dentro delas que que o poder conseguirá garantir a sua continuidade e estabilidade.
Se tomarmos os cem homens mais poderosos da América, os cem mais ricos, os cem mais celebrados e os afastarmos das posições institucionais que hoje ocupam, dos recursos de homens, mulheres e dinheiros, dois veículos de comunicação em massa que hoje se voltam para eles – seriam então sem poder, pobres e não celebrados. Pois o poder não pertence a um homem, A riqueza não se centraliza na pessoa do rico. A celebridade não é inerente a qualquer personalidade. Ser célebre, ser rico, ter poder, exige o acesso às principais instituições, pois as posições institucionais determinam em grande parte as oportunidades de ter e conservar essas experiências a que se atribui tanto valor (MILLS, 1981, p.19).
Nota-se assim que a definição de elite dominante para Mills concentra-se na análise do poder em termos dos meios do poder. Nesse sentido não são características individuais que determinam os elementos que farão parte da minoria dominante, mas sim o seu acesso à estrutura de tomada de decisão, ou seja, as instituições. Como para o autor o papel das elites modifica-se de acordo com cada época e cada estrutura social, o fato do poder ter sido enormemente centralizado ao decorrer dos anos resultou numa ampliação das consequências das decisões tomadas pela elite dominante, e um consequente acirramento da disputa institucional.
Dessa forma, com base no que foi apresentado, a presente dissertação irá conceber o conceito de elites como “indivíduos e grupos pequenos, relativamente coesos e estáveis, com grande poder de decisão”. Tratam-se assim do conjunto de indivíduos que se encontram na posição de influenciar o processo de tomada de decisão nas maiores ou mais importantes instituições de uma sociedade e que por isso “afetam decisivamente estabilidade ou a instabilidade dos regimes políticos, as formas e o funcionamento das instituições políticas e as principais políticas dos governos” (HIGLEY, 2018, p.27). A partir dessa concepção, a incorporação desta variável ao modelo de análise mostra-se de fundamental importância para conferir agência política à análise do desenvolvimento político.