Universidade Portucalense, Porto, Portugal
Resumo
Este artigo examina a relação entre cultura e emoção analisando as emoções dos Japo- neses. Após uma breve revisão do conceito de cultura ao longo dos tempos, faz referência ao crescente aumento de encontros interculturais e ao interesse pragmático por compreen- der diferenças culturais, particularmente no que respeita às emoções pelo papel que desem- penham na comunicação. Seguidamente a atenção é dirigida para a investigação sobre as emoções dos Japoneses, cujos resultados desafiam estereótipos e revelam aspectos comuns a outras culturas e diferenças específicas da cultura japonesa. O artigo conclui argumentan- do que o estudo das emoções dos Japoneses apoia a tese de que as emoções e as expressões emocionais são universais, mas as regras sociais que as governam são socialmente cons- truídas.
PALAVRAS-CHAVE: Emoção, cultura, cultura japonesa.
Introdução
A cultura deslocou-se para o centro dos debates das Ciências Sociais nas últimas décadas e, embora nos anos mais recentes a atenção esteja a ser diri- gida para a Genética, a cultura continua a ser essencial para compreender o comportamento humano.
O significado do termo ‘cultura’ tem mudado na sua trajectória ao longo dos tempos. No século XV, o termo estava associado à agricultura e criação de animais. Posteriormente associou-se às ‘boas maneiras’ e às artes, tendo por base a ideia de que a cultura estava reservada só alguns povos (os Euro- peus) identificando-se com ‘civilização’. A definição de cultura que derivou do Iluminismo concebe a cultura como processo geral de desenvolvimento social histórico da humanidade no qual a Europa desempenhava o papel central (Bocock, 1995).
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A contribuição de Herder (1784-91, in Bocock, 1995) merece destaque. No seu livro Ideais sobre a Filosofia da História da Humanidade criticou o Eu- rocentrismo e a sua subjugação dos quatro cantos do globo. Usou o termo ‘cultura’ no plural referindo-se aos distintos modos de viver, valores e significa- dos partilhados, o que foi uma inovação para a época.
A evolução do termo levou a ultrapassar a distinção entre ‘civilizado’ e ‘primitivo’, e o Darwinismo social deu lugar ao relativismo cultural. No século XX, o termo passou a incluir a cultura popular e a dos media, e a designar va- lores, modos de viver partilhados por nações, grupos e classes. Nos anos mais recentes teve considerável impacto nas Ciências Sociais a ideia de que é im- portante não só o que a cultura é, mas também o que a cultura faz. Deste mo- do, ‘cultura’ passou a ser um conjunto de práticas pelas quais os significados são produzidos e partilhados no seio de um grupo social.
Houve portanto um movimento de análise do quê para o como e deste modo passou a ser objecto de análise não só o conteúdo do que é a cultura, mas também as práticas culturais. Consequentemente a metodologia passou a incluir a análise de práticas sociais. Desenvolveram-se também novos modos de pensar a cultura que deixa de ser vista como sendo um conjunto estável de significados e práticas reproduzidas socialmente para ser vista como sendo plural, dinâmica, contestada e negociada constantemente (Strauss, 1992).
A constatação de que a variação intercultural influencia o comportamento social levou à exploração de sistemas culturais para analisar comportamentos sociais e descobrir o que têm em comum e de diferente. Trata-se por um lado, de analisar comportamentos ligados a contextos socioculturais (como saudar: apertar a mão, beijar, fazer vénias) e por outro, analisar o que fundamental- mente têm em comum todas as culturas (saudar, cumprimentar).
O desenvolvimento da conceptualização do termo ‘cultura’ foi acompa- nhado de estudos interculturais, que deixaram de ser apenas estudados pela Antropologia para serem estudados também por outras Ciências Sociais no- meadamente pela Psicologia. Contudo, é preciso dizer que muita da investiga- ção realizada tem sido criticada por ser, nas palavras de Berry (1978, in Deaux et al., 1993, p.352), ‘culture bound and culture blind’, e por ter falha- do em analisar a cultura da sociedade em estudo caindo em generalizações de teorias e resultados obtidos com amostras reduzidas de estudantes em si- tuações de laboratório (Gabrenya, 1988).
O crescente contacto entre diferentes culturas no período póscolonial, acompanhado do progressivo aumento da multiculturalidade de todas as so- ciedades e da globalização, criaram a necessidade de pôr em prática conhe- cimentos sobre diferenças culturais. Esta necessidade foi muita sentida a todos
os níveis: para fazer negócios, estabelecer negociações diplomáticas ou levar a cabo acções de carácter voluntário.
Expressões como ‘gerir diferenças culturais’ começaram a fazer parte do vocabulário e das preocupações das organizações. Multiplicaram-se cursos e programas no sentido de desenvolver estratégias para preparar as pessoas para encontros culturais, e desenvolveram-se metodologias e técnicas no senti- do de treinar competências interculturais.
Um dos aspectos mais importantes nos encontros culturais é a comunica- ção e esta está intimamente ligada ao comportamento emocional. As emoções servem funções comunicacionais nas interacções sociais e as expressões fa- ciais evoluíram na história da espécie humana com este propósito (Berry et
al., 2002). É, pois, crucial estudar a relação entre cultura e emoção para
compreender a comunicação intercultural. Este trabalho procura ser uma con- tribuição para esta área de estudo examinando as emoções dos Japoneses e analisando o que têm de universal e de particular.
O Japão tem recebido particular atenção por parte de Cientistas Sociais que procuram ‘desvendar’ os seus segredos. As publicações sobre a socieda- de e a cultura japonesas desenvolveram-se nas duas últimas décadas com a emergência do Japão como segunda potência económica mundial, e com o aumento e a dificuldade dos contactos com os Japoneses.
Livros como ‘As regras dos Japoneses’ (Hasegawa, 1998) são exemplos de best sellers traduzidos em vários idiomas a ‘iniciar’ os estrangeiros na cul- tura japonesa. Paralelamente a esta literatura popular desenvolveram-se esfor- ços académicos e há mesmo sites com introduções à cultura japonesa, nomea- damente, o site criado pela Universidade de Stanford.
Desenvolveram-se também inúmeros estudos interculturais comparando os Japoneses com outras povos (em especial norte-americanos). O primeiro tra- balho de Antropologia foi iniciado por Benedict (1954), mas hoje há estudos em todas as áreas, comparando atitudes em relação ao trabalho, à motivação e a muitas outras variáveis. No estudo das emoções, destacam-se o livro edi- tado por Lebra e Lebra (1974) com o seu estudo sobre cultura e moralidade, De Vos (1960,1973) com a sua análise ao sentimento de culpa e vergonha nos Japoneses, e Ishida (1961) que se debruçou sobre o amor e o ódio na so- ciedade japonesa.
Conceitos são divulgados como sendo as ferramentas para compreender a sociedade japonesa e para lidar com os Japoneses. Os próprios Japoneses usam estes conceitos e apresentam-se como sendo muito diferentes dos restan- tes povos sejam eles asiáticos ou ocidentais e há uma corrente pseudocientífi- ca (Nihonjinron) que explora as diferenças entre os Japoneses e não Japone-
ses. Por todo este esforço poder-se-ia concluir que os Japoneses são agora mais bem compreendidos. Contudo, problemas de comunicação entre Japone- ses e não Japoneses continuam a dificultar os contactos, e estes problemas são atribuídos em parte à dificuldade de descodificar a semiótica das expressões emocionais dos Japoneses. Simplificações e generalizações de conhecimentos superficiais sobrepõem-se a conhecimentos divulgados, e a imagem transmiti- da é a do estereótipo dos Japoneses de expressões indecifráveis como robots sem emoções, ou então a de actores excessivamente emocionais em filmes e séries televisivas.