4.3 A relação dos cursos pesquisados com as TIC (C 3)
4.3.2 As entrevistas com os professores dos cursos
O quarto passo para a coleta de dados da pesquisa foi uma entrevista com os docentes dos três cursos. Foram entrevistados quatro docentes do curso do UNASP, um docente do curso da FNB e um docente do curso da UNICAMP.
O objetivo foi enxergar as tecnologias de uma maneira mais orgânica, a partir do olhar desses professores e além dos documentos.
As entrevistas foram realizadas com caráter semiestruturado, ou seja, o entrevistador faz as perguntas, mas tem liberdade para interferência para deixar o depoimento mais claro. Não havia tempo pré-determinado, podendo ser entre cinco minutos até uma hora, dependendo da relação do professor com o assunto abordado. A pesquisa foi conduzida através dos seguintes questionamentos:
Como você usa mediações tecnológicas em suas aulas?
Quais são suas percepções positivas e negativas em relação a esse fenômeno? Como você enxerga o aluno de licenciatura no contexto tecnológico?
Todas as entrevistas foram gravadas em um aplicativo no telefone celular do pesquisador. As entrevistas foram transcritas na íntegra e a seguir foi feito todo o processo de análise e codificação.
O grifo na análise representa o indicador das URs.
a) As tecnologias inseridas nas disciplinas.
O professor G.A. usa mediações tecnológicas nas disciplinas de Percepção Musical e Leitura e Estruturação Musical:
Bom, em LEM (Leitura e Estruturação Musical) a gente usa Earmaster (software para percepção), usamos recursos tecnológicos para fazer ditados de percepção. Na matéria de prática instrumental a gente pede para os alunos fazerem arranjos, aí eles têm que editar e usar essa tecnologia do Sibelius, Finale ou qualquer editor de partituras.
b) Uso das redes sociais e blogs.
O professor G.A. também usa as redes sociais, mas precisamente o Facebook como canal de comunicação e até como instrumento de avaliação:
[...] eu crio um grupo no Facebook com todos os alunos, e ali vira minha comunicação, esse ano, mandei material de aulas a distância pelo Facebook, todo o conteúdo lá, todos os textos lá. Então o aluno tinha que assistir três ou quatro vídeos ou ele tinha que ler um assunto e responder a discussão e assim por diante. Achei melhor fazer por Facebook, por que acho que é mais acessível a todos, é mais leve, onde você estiver você vai ter acesso, então, acho que isso faz o Facebook ser útil. [...] Então assim, já que o aluno está o tempo inteiro no Facebook está vendo tudo que acontece lá, qualquer ação que você fizer dentro dessa página vai ser vista por ele e ele não tem desculpa que ele não viu e que ele não tem trinta segundos para olhar e participar da atividade.
O professor também usa a ferramenta de construção de Blogs para avaliação na disciplina História da Música:
Partiu de uma palestra de um cara da educação que estimulava os alunos a criar blogs, páginas, Facebook, etc. e aí eu falei, porque não né? Cada aluno desenvolver um blog dentro de um assunto fica um negócio para o currículo da pessoa, e todo mundo pode pesquisar, fica praticamente um documento eletrônico com algum tipo de pesquisa e informação, que pode ser um dia importante para alguém.
A professora A.M. também adaptou recursos da internet em seu sistema de avaliação:
[...] sempre em Pedagogia e Didática musical III, eu mudo de portfólio que uso em Pedagogia I e II para Webfólio, então eles têm que ir colocando todo material que eles estão discutindo em aula, criando e alimentando um blog.
c) Gravação de áudio livros.
O professor G.A. também encontrou nas tecnologias uma forma de motivar a leitura através da gravação de livros. O professor nesse caso está produzindo os próprios áudio livros ou áudio books. Têm projetos para gravar o livro “História da Música no Brasil” de Vasco Mariz e já gravou o livro “A Música Moderna” de Paul Grift:
[...] um que eu fiz como teste, o áudio não ficou muito bom, teria que trabalhar o áudio, mas eu fiz, é o livro a Música Moderna do Paul Grift, aquele eu li inteirinho gravando. Precisei estabelecer alguns parâmetros quando abre aspas, fecha aspas, nomes difíceis, nomes em inglês, ou nomes em alemão, talvez tenha que soletrar, essas dificuldades que eu encontrei.
d) Uso de recursos da internet para complementar a aula.
O professor V.S. interage com diversas aplicações tecnológicas durante a aula:
Mesmo em sala de aula quando eu dou Organologia, eu uso a tecnologia, estou lá no Youtube mostrando vídeos, estou lá boa parte das aulas com Power Point mostrando instrumentos, som e fazendo as relações todas, pesquisando ali na internet, mostrando ali, já trazendo os sites para eles, dando endereço de sites, para eles pesquisarem em casa. Porque às vezes em aula não tem tempo para tudo isso, né, porque, as possibilidades que se abrem com a tecnologia são muitas, e o tempo em sala de aula é o mesmo.
O professor M.R. (FNB) utiliza a internet, principalmente o site Youtube (www.Youtube.com), durante as aulas. Além dessas ferramentas o professor utiliza biblioteca virtual de músicas, a plataforma moodle e o Facebook .
Uso nas aulas o Youtube, internet, a biblioteca virtual Naxos Music Library e a plataforma, Moodle. Nas aulas de instrumentos para musicalização I – Flauta doce, crio grupo de turmas no Facebook e e-mail.
e) As tecnologias como auxiliadoras no processo de ensino e aprendizagem. O professor J.O. ministra as disciplinas de Regência e Canto Coral. O professor utiliza recursos tecnológicos para resolver problemas de afinação. Nesse caso o professor utiliza o software Melodyne.
O Melodyne, pela sua capacidade polifônica, eu tenho usado muito assim: - para gravar um ensaio eu jogo no melodyne, ele mostra graficamente a afinação, e aí eu mostro [...] estão errando, aqui é semitom e vocês estão fazendo assim uma passagem escorregada, não está limpo esse intervalo, e assim por diante.
f) Ampliação da percepção auditiva – referência visual.
O professor também ressalta que nesse caso o software Melodyne representa uma ferramenta que amplia sua percepção como regente.
Para mim como regente é muito útil, eu pego uma gravação e tenho uma ferramenta para não confiar só no meu ouvido, expansão da percepção, me dá uma referência visual da percepção.
O professor sentiu que com essa ferramenta, suas abordagens podem trazer também a informação visual, o mesmo ressalta que para indivíduos que não tem o ouvido treinado para afinação, passam a ter uma representação visual quando tem a voz analisada pelo software.
A afinação é uma coisa abstrata. Se o indivíduo não tem o ouvido treinado ele não percebe. Mostrar para eles, mostrar de uma maneira mais concreta, [...] é preto no branco sabe, o sujeito não tem o que argumentar.
O professor V.S. usa algumas estratégias para motivar os alunos a pesquisarem um assunto específico, fazendo nesse caso o papel do professor direcionador, pois ressalta que com tantas informações disponíveis é necessária uma condução para que o aluno atinja o aprendizado.
[...]os alunos em aula são estimulados a fazerem isso (pesquisar na internet), e as vezes você já dá o endereço, já dá o link para eles buscarem todas essas informações, para eles irem além da aula fazendo a sua pesquisa.
Você precisa orientar o aluno, já dar as coisas mais ou menos direcionadas para o aluno ir além e digo: isso abre um caminho muito grande de estudo, de pesquisa, de análise, para o aluno hoje em dia que há um tempo não se tinha. Só quem vem de outra época pode perceber a diferença.
h) Internet como forma de construção de conhecimento.
O professor fala da oportunidade que se desenvolve atualmente com o uso da internet para o conhecimento. O professor ministra a disciplina de Organologia, e nesse sentido enxerga a internet com grandes recursos para o processo de ensino-aprendizagem.
Então o aluno dizer que não conhece o instrumento, não sabe o som, não conhece o compositor, uma formação de orquestra ou de banda, de grupo, isso hoje não tem explicação, não existe mais, porque você dá um cliquezinho no Youtube, uma formação, um concerto, uma orquestra, um grupo, um compositor você tem todas as opções gravadas em diferentes formatos, em diferentes estilos, enfim, então está ali a disposição de todos.
i) Medo da tecnologia (tecnofobia).
O professor V.S. relata o problema dos alunos que migraram para a tecnologia e são de gerações anteriores em que não havia tantas aplicações tecnológicas, e hoje esse perfil de aluno sente-se distante desta área.
[...] ela chega à tua aula e já de cara você percebe que ela tem medo. Como eu creio que isso fez parte da formação dela, ela entrou nessa filosofia da informática, da tecnologia mais tarde, ela teve acesso mais tarde, não teve um primeiro momento, ela olha isso como algo distante dela, algo difícil, até algo impossível.
j) A necessidade de incluir o aluno com o “bloqueio tecnológico”.
O professor V.S. fala da atitude do professor em incentivar o aluno a usar e ajudá-lo a perder o medo tecnológico. Para isso a motivação tem que ser relacionada à prática do aluno, dessa forma ele vê mais significado para sua vida profissional na utilização de tecnologias.
Existe como eu falei algumas pessoas que são bloqueadas, então ali você tem um desafio grande, você não pode pegar pesado, tem que ir explicando, olha o que a ferramenta faz, olha a felicidade que a ferramenta traz para você para o seu dia-a-dia pedagógico, você como professor, quantas coisas você pode fazer utilizando...você pode gravar, você pode salvar, você pode criar arquivos, você recorta um compasso, uma nota, joga no teu texto, no teu Power point, você ilustra, você faz...tá tudo ai na sua mão num cliquezinho.
k) Mudança no perfil dos alunos.
Sobre esse conceito o professor fala também da mudança de perfil dos alunos ao longo da história da difusão tecnológica, ao passo que hoje os conceitos básicos de informática já estão implícitos no cotidiano dos alunos.
Hoje em dia, eu como trabalho com isso já possivelmente há mais de dez anos, [...] eu percebo que de lá para cá mudou muito. Porque nos primeiros anos quando se falava, por exemplo, “salvar’”. As pessoas diziam: o que é salvar? não sabiam. Há, é guardar isso que está fazendo em um arquivo, o que é arquivo? memória... vai guardar lá... no outro dia ele pode abrir. Não tem ideia nenhuma de como as coisas eram... [...] você tinha que explicar a base toda da informática para depois você chegar ao seu programa. Hoje em dia não, isso já está feito. O dedo vai rápido, as pessoas já têm uma cabeça aberta para a tecnologia.
l) O problema da acessibilidade digital.
Já a professora E.S. reconhece que ainda existe o problema de acessibilidade digital. Às vezes existe a falsa impressão que todos já conhecem e interagem com tecnologias, mas como argumenta a professora, não é bem assim:
Temos ainda problemas com questão ao acesso. A gente ainda tem problemas de acessibilidade. Então por exemplo, tem muitos alunos que para eles é grego o computador, mesmo jovens, a gente fica abismado!
Com esse diagnóstico preliminar de que as tecnologias eram algo comum aos alunos, a professora relatou que a matéria referente à notação musical informatizada passou de obrigatória à eletiva, mas que a mesma (que é coordenadora do curso) já está considerando volta- la para obrigatória em função da proficiência em informática dos alunos:
Até inclusive a gente passou para optativa a matéria de Sibelius, de escrita musical informatizada porque a gente achou que muitos chegariam
conhecendo e ledo engano. Eu estou quase voltando ela para ser matéria
obrigatória, é melhor dispensar um, dois, do que ficar arranjando caminhos para todos os demais. Então, a gente ainda tem problema de acessibilidade.
m) Problemas da implantação e manutenção de plataformas.
O professor M.R. relata que um dos problemas para a implementação de sistemas consistentes reside no alto custo de manutenção e valores de licenças. A FNB usa sistemas livres (Open Sources) como o Linux e softwares gratuitos disponíveis na internet.
O que torna para nós um problema com o uso das tecnologias são os valores de licenças de softwares, mesmo o valor institucional, porque cada valor é por máquina, tanto para os programas de editoração quanto para a plataforma que precisa que é o Windows, por máquina. Usamos o Linux e os programas de
acesso livre como o Musescore e o Audacity, além dos programas livres na internet. Outro problema é o alto custo para manter um sistema atualizado.
n) Dependência Tecnológica.
Outro problema relatado pela professora E.S. é em relação à concepção da dependência tecnológica:
A gente tem que cuidar para não tornar as tecnologias uma necessidade única e não trocar, ela é uma ferramenta que vai junto, mas ela não tem que substituir as outras.
A professora A.M. também mostra preocupação com a questão da dependência tecnológica pelos alunos e fala sobre a gravidade desse problema em relação ao desenvolvimento dos mesmos:
O problema para mim em relação às tecnologias é o quanto que as crianças e jovens estão muito ligados nos recursos tecnológicos, e o quanto que isso está transformando até eles, prejudicando eles em termos de coordenação motora, eles não brincam mais, eles não correm mais. Ficam contidos na frente dos tablets e celulares e isso é verídico.
o) Os cuidados com o estereótipo do efeito “milagreiro” do uso das tecnologias digitais.
O professor V.S. ressalta o cuidado para não cultivar o efeito “milagreiro” das tecnologias, ou seja, mesmo o aluno adquirindo proficiência tecnológica, é necessário que estas ferramentas não criem a falsa impressão de que não se precisa mais estudar pelos métodos tradicionais:
Então as pessoas dizem "ah, eu não vou mais estudar instrumento musical, não vou mais estudar teoria, está tudo feito aqui”, não! não está feito, você não abre mão, você precisa estudar da mesma forma, é apenas um facilitador em determinados momentos do processo.
Eu diria que a tecnologia não faz com que a pessoa não fique livre de estudar teoria, harmonia ou instrumento. A tecnologia é apenas um instrumento para você desenvolver, para você colocar, guardar informações, fazer as coisas de uma forma mais rápida, para isso a tecnologia funciona, ela não exime você de ter que estudar. Estudar instrumento, estudar harmonia, estudar teoria, estudar todos de forma igual. A tecnologia facilita mas não substitui.
p) Ampliação da sala de aula: aspectos positivos.
A professora A.M. usa as ferramentas de comunicação da internet para atender alunos fora da sala de aula. Existem na fala da professora concepções positivas, como é o caso da possibilidade de orientação à distância.
Eu uso muito Skype para fazer orientações de alunos, desde a iniciação científica até o mestrado. Tenho alunos que moram em São Paulo e acho desnecessário eles virem até aqui só para fazerem orientação, então eu combino com eles e faço orientação por Skype.
q) Ampliação da sala de aula: aspectos negativos.
O Facebook eu andei meio ausente, eu já nem entro, e quando entro já fico invisível, porque eu entrava pingava 20 alunos para me perguntar coisas de trabalho, aí eu simplesmente saí do Facebook, desde que eu entrei no Whatsapp.
5 INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
No presente tópico será feita a interpretação dos dados coletados e analisados no capítulo anterior, possibilitando assim a inferência do pesquisador sobre o assunto aqui constituído.