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4. O DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA

4.1. Procedimentos de coleta de dados

4.1.1. As Entrevistas

Após a seleção das professoras, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, já que, de acordo com alguns autores, Rey (2002), Ludke e André (1986), Bogdan e Biklen (1994), são um instrumento flexível e que permitem que as adaptações sejam realizadas no decorrer de seu desenvolvimento, como eventuais esclarecimentos sobre as informações desejadas,

A grande vantagem da entrevista [...] é que ela permite a captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos [...] Permite correções, esclarecimentos e adaptações que a tornam sobremaneira eficaz na obtenção das informações desejadas [...], a entrevista ganha vida ao se iniciar o diálogo entre o entrevistador e o entrevistado [...] (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p. 34).

Além disso, as entrevistas permitem o contato e o diálogo entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa,

[...] a entrevista não é um instrumento organizado na forma de perguntas padronizadas, pois o diálogo permanente que a pesquisa envolve integra os interesses concretos do pesquisador [...], não é um momento frio e parcial, organizado em forma de perguntas a serem respondidas de forma direta pelos sujeitos estudados [...], mas se expande em seus conteúdos de forma espontânea [...] (REY, 2002, p.86).

Anteriormente à realização dessas entrevistas, foram feitas pré-entrevistas ou entrevistas “piloto” com duas professoras com as mesmas características das professoras que foram sujeitos desse estudo, ou seja, professoras de Ciências de 2º ciclo de Ensino Fundamental de Escolas Públicas que desenvolveram projetos de Educação Ambiental. A realização das entrevistas “piloto” foi muito importante na medida em que permitiu que o roteiro da entrevista fosse reformulado.

As entrevistas definitivas foram agendadas previamente conforme disponibilidade das professoras e tiveram a duração de aproximadamente uma hora. Duas delas ocorreram no próprio local de trabalho das professoras, uma durante o Horário de Trabalho Técnico-Pedagógico (HTPC) e outra, após o término das aulas. A outra entrevista foi realizada fora da escola, na residência da professora, já que a mesma se encontrava em “licença prêmio”.

Antes de iniciar a conversa, foi explicado às professoras a importância da pesquisa, seus objetivos e principais procedimentos, além de terem sido garantidas a privacidade e a confidencialidade das informações que seriam obtidas estritamente

para a pesquisa. As entrevistas foram gravadas em fita cassete, com consentimento prévio das professoras.

Segundo Ludke e André (1986), há uma série de exigências e de cuidados requeridos por qualquer tipo de entrevista, desde um respeito grande pelo entrevistado, que envolve local e horário marcados e cumpridos de acordo com sua conveniência, até a perfeita garantia de sigilo e anonimato, para que o informante se sinta à vontade para se expressar livremente. Para essas autoras, “é muito importante que o entrevistado esteja bem informado sobre os objetivos da entrevista e de que as informações fornecidas serão utilizadas exclusivamente para fins de pesquisa” (p. 37).

Além disso, o roteiro elaborado para a realização das entrevistas foi bastante flexível, o que garantiu um clima de confiança e liberdade no seu decorrer. De acordo com Ludke e André (1986), a entrevista semi-estruturada “que se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permite que o entrevistador faça as necessárias adaptações” (p.34). No apêndice A, encontra-se o roteiro das entrevistas realizadas.

Inicialmente, para que as professoras se sentissem à vontade e pudessem falar mais espontaneamente, foi solicitado que falassem um pouco sobre sua trajetória profissional desde que se formaram até o presente momento. No transcorrer da entrevista, gradativamente, foram discutidas as questões específicas da pesquisa, conforme o roteiro previamente organizado.

Segundo Ludke e André (1986), esse roteiro seguirá naturalmente uma seqüência entre os assuntos, dos mais simples aos mais complexos, evitando saltos bruscos entre as questões, permitindo que elas se aprofundem no assunto gradativamente e estimulem o fluxo natural de informações.

Rey (2002) também considera a relevância da “conversação espontânea” para a entrevista,

[...] O assunto estudado não surge de forma linear em face de instrumentos diretamente planejados para descobri-lo, porém de forma progressiva e diversa [...] A conversação espontânea [...] cria uma atmosfera natural, humanizada, que estimula a participação [...] em que as opiniões, cosmovisões, emoções, enfim, a subjetividade do sujeito estudado constitui elemento relevante para o processo [...] (p. 87-89).

É importante a interação entre entrevistador e entrevistado, havendo uma influência recíproca, já que “na medida em que houver um clima de estímulo e aceitação mútua, as informações fluirão de maneira notável e autêntica” (LUDKE; ANDRÉ, 1986, p.34).

As autoras Trigo e Brioschi (1992) também consideram a importância da “situação de interação” da entrevista,

[...] a entrevista é o encontro de dois sujeitos tendo por objetivo o estabelecimento de uma situação de interação [...] Assim, os esforços não devem ser mobilizados no sentido de anular as ‘interferências’ da subjetividade, [...] mas sim de tomada de consciência de si, do outro e da própria interação. É uma relação em que os atores percebem-se e relacionam-se [...] e cada um deles traz consigo toda uma bagagem histórica, na qual suas origens sociais, trajetórias de vida, inserção na sociedade, desempenham um papel específico [...] (p.31-33).

As entrevistas gravadas foram transcritas, para transformar os dados do material coletado em registro escrito para a análise posterior. Segundo Queiroz (1991), a transformação do material tem dupla finalidade, a de permitir um manuseio mais fácil, pois o torna independente da intermediação do gravador; e garantir uma conservação mais longa e eficiente do documento, dada a fragilidade das fitas, que exige condições específicas e dispendiosas de armazenamento. No anexo E, apresento uma entrevista transcrita na íntegra.

Queiroz (1991) considera também que

ouvir e transcrever a entrevista constitui [...] um exercício de memória em que toda a cena é revivida [...] e refaz de certo modo o contexto da entrevista. Transcrever significa [...] uma nova experiência da pesquisa [...] com seus envolvimentos e emoções, o que leva a aprofundar o significado de certos termos utilizados pelo informante, de certas passagens, de certas histórias que em determinado momento foram contadas, de certas mudanças de entonação de voz (p. 87-88).

Após as transcrições, o registro escrito foi explorado através de leituras e releituras para fundamentar a interpretação dos dados. Focalizaram-se, desta maneira, as concepções das professoras com relação à Educação Ambiental e a vários aspectos relativos às práticas pedagógicas desenvolvidas, como por exemplo, os objetivos, os procedimentos e recursos pedagógicos utilizados e outros.