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4.1 Contextos das entrevistas nas escolas

4.1.1 As Escolas

Visitamos quatro escolas, e passamos por muitas outras, são duas EMEFS, uma CEI e uma EMEI, duas entrevistas foram realizadas no sindicato, pois um dos diretores estava de licença médica e aproveitamos um evento sindical para conversar com ele. E a outra diretora trabalha no sindicato.

Ao descrever o ambiente que encontramos e fomos recebidos intencionamos viver brevemente esses espaços escolares para que as entrevistas oportunizassem observar algumas cenas cotidianas, as estruturas e os territórios onde as escolas estão inseridas. São escolas localizadas na região norte da Cidade de São Paulo. E nossa incursão começa num CEI, em que a diretora começou há pouco tempo, pois veio removida de outra escola.

Era um dia bastante quente, a escola fica numa esquina com vários equipamentos públicos: posto de saúde, posto de saúde de especialidades, sacolão de frutas e legumes, um ponto final de linha de ônibus e a escola. A escola é um CEI-Centro de Educação Infantil que atende crianças de 0 a 4 anos, em período integral, com capacidade para atender 161 crianças. O espaço é amplo, com área externa que comporta o parque e espaço para brincadeiras, as salas são espaçosas, em algumas são atendidas até três turmas.

Marcamos a entrevista para depois do almoço, pois a diretora tinha voltado a poucos dias de férias e precisava organizar algumas coisas. Ela mesma me recebeu, me apresentou a equipe que estava trabalhando na escola, me convidou a entrar e se sentar. Assim que estava acomodada, abri meu material: gravador, celular, diário (notas) de campo, caneta. Começamos a conversar sobre as verbas que havíamos recebido, a situação com os prestadores de serviço, e enquanto isso organizei o material para iniciar a entrevista.

A diretora foi até a secretaria e solicitou a funcionária para não ser interrompida, me ofereceu água e café, e eu aceitei a água, pois estava muito calor neste dia. Iniciamos a entrevista, notei um certo tremor na voz no início, porém com o decorrer das perguntas ela foi ficando mais tranquila e o restante transcorreu muito bem. Ela respondeu todas as questões, enfatizou a importância da família em sua vida.

Quando as perguntas terminaram agradeci a atenção e a recepção, e ainda ficamos conversando sobre outros assuntos, ela perguntou algumas coisas que tinha dúvida e me coloquei a disposição para que me fizesse uma visita à unidade que trabalho. Assim que sai da escola coloquei o áudio para ouvir no carro e logo que cheguei em casa corri para escrever no diário de campo as impressões que tive da linguagem corporal da diretora que observei, e ainda escrevi algumas percepções que tive nesse primeiro encontro.

Na semana seguinte a segunda diretora me ligou para confirmar a entrevista, nessa o horário foi pela manhã, pois essa diretora é de EMEF-Escola Municipal de Ensino Fundamental, e as demandas são diferentes, e segundo ela o horário da manhã é mais tranquilo, inclusive as chamadas telefônicas. No horário marcado cheguei à escola e fui recepcionada pelo funcionário da secretaria que me conduziu até a sala da diretora, que me aguardava.

Essa EMEF tem aproximadamente 1000 alunos, do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, com 15 turmas por período e dois turnos, com aproximadamente 60 professores além da equipe de apoio e de secretaria. A opção da diretora por essa escola é por ser próximo de sua casa e ter a possibilidade de ter dois Assistentes de Diretor de Escola, assim possibilita que seu horário atenda as demandas, porém, seja flexível. Oferece além das aulas do currículo, aulas no contraturno das crianças com projetos interdisciplinares, porém ainda não atende como estrutura de ensino integral.

Fui calorosamente recebida com um forte abraço, e convidada a sentar. Fazia muito calor e a escola estava em período de reforma, assim era forte o barulho do ventilador e do cortador de piso. Antes de começarmos a diretora me contou um pouco da expectativa e disse ter lido o que eu havia enviado e ficou curiosa para entender um pouco mais da pesquisa. Quando começamos percebi uma certa imposição de voz, como se as primeiras perguntas fossem o momento de ela expressar algumas das angústias que passou no início quando ingressou no cargo de diretora de escola. Explicou-nos a importância dela se descontruir professora e se reconstruir diretora e com a nova função novos desafios e que nesta escola o desafio era se constituir autoridade do grupo.

No decorrer da entrevista a diretora foi diminuindo o ritmo da fala e a entrevista começou a acontecer mais tranquilamente, com respostas mais assertivas. Essa diretora tinha muitas coisas para nos contar, passou por situações bem significativas e sua percepção da docência mostra sua trajetória de mais de 20 anos, em que mais de 16 anos foram no ensino particular.

No fim da entrevista ela me levou para rever os espaços da escola, as melhorias que ela conseguiu realizar nesses dois últimos anos de sua gestão, e ainda relatou alguns desafios que enfrenta no seu cotidiano. Expressou gratidão e acolhida na proposta da pesquisa e nos disse que gostaria de realizar a leitura depois que estivesse pronta. Como na primeira vez, ao entrar no carro, começamos a ouvir a entrevista, que ficou parcialmente prejudicada pelo excesso de barulho externo, nos alertando para a próxima entrevista ser num momento mais tranquilo. Ao chegar em casa foi realizado os registros pertinentes desse momento, com destaque aos primeiros dias como diretora nesta escola.

Uma das nossas entrevistas foi realizada com uma diretora de escola aposentada, que hoje desenvolve atividades no sindicato dos especialistas. Essa foi uma entrevista que não foi em escola, mas sim no centro de formação do sindicato, espaço importante para os gestores da rede municipal.

No dia da entrevista chovia fino, garoava, e estava muito frio, as pessoas com passos rápidos nas ruas do centro da cidade de São Paulo. Entramos e aguardamos nossa entrevistada que já nos aguardava, fomos para uma sala de reunião, silêncio, calmaria, ambiente muito diferente das escolas. Me causou, confesso, certo estranhamento, mas nossa entrevistada foi muito gentil e calorosa, nos recebendo com um forte e aconchegante abraço de vovó.

Na sabedoria dos anos, uma paciência, uma tranquilidade, uma vitalidade impressionante. Começamos nossa conversa, que transcorreu calmamente, conforme as perguntas eram feitas ela foi nos contando sobre sua infância, adolescência, a chegada a São Paulo, até o ingresso na PMSP como professora e o ingresso como diretora de escola no início da década de 90. A dificuldade financeira de sua família, os sonhos que tiveram que ser reorganizados para sobrevivência.

A entrevista foi marcada por muitas memórias, por risos e lágrimas, lembranças que foram revividas e reafirmadas, pois muito do que nossa entrevistada nos contou são princípios éticos que carrega consigo desde sempre.

Ao terminar não sei qual foi a motivação, mas começamos a mostrar fotos de nossos familiares, comentar sobre assuntos que fazem parte de nosso cotidiano, e assim terminamos esse encontro que foi muito especial.

Alguns dias se passaram, o tempo firmou, e desta vez fomos para o extremo norte da cidade de São Paulo, e chegamos numa região marcada por muitas escolas, muitas pessoas, barulhos, cheiros e outros equipamentos públicos, como: posto de saúde, várias linhas de ônibus e uma estação de trem. A escola que fomos é uma EMEI-Escola Municipal de Educação Infantil, que atende crianças de 04 e 05 anos, aproximadamente estão matriculadas 350 crianças. Relativamente nova, essa escola quando começou suas atividades era feita de contêiner (conhecida como escola de latinha), e para quem trabalhou na escola naquela época, como a diretora que entrevistamos, há lembranças daquela época marcada por dificuldades, calor, e situações difíceis. Alguns anos a estrutura foi refeita, e a escola construída com tijolos, porém alguns problemas permanecem, como a caixa d’agua, a quadra que é da escola, mas não é possível de ser usada sem a autorização de algumas pessoas que ocupam o espaço.

Ao chegar à escola fomos recebidos pela diretora que está nessa Unidade Escolar desde 2018, mas já havia trabalhado nesta unidade como professora. A diretora nos recepcionou com um café e logo em seguida nos apresentou a toda sua equipe.

A entrevista saiu do roteiro já no início, como havia encaminhado para a diretora as autorizações e o resumo do projeto, ela fez questão de ler e quando íamos começar, ela já estava fazendo os relatos, contando sua trajetória naquela escola, e por mais que tentássemos retomar, a entrevista tomou um caminho diferente, aprofundamos muitas questões que certamente irão enriquecer a pesquisa. Essa diretora está no cargo há mais de dez anos, assim já teve muitas vivências e muitas experiências e estava disponível e aberta para nos relatar tudo o que achou importante, indo muito além do nosso roteiro.

Numa região periférica e distante do centro da cidade, a escola, segundo a diretora, é mais do que espaço de cuidar e educar, se torna também um espaço em que as crianças se alimentam, em que famílias solicitam participação e que juntamente com outros equipamentos públicos compõe a rede de auxílio às famílias em situação de extrema vulnerabilidade.

Ao final da entrevista ela me levou para conhecer a escola, explicar os projetos que desenvolve na escola e me apresentou a Coordenadora Pedagógica e a Assistente de Diretor de Escola.

Numa atividade encontramos nosso entrevistado que está de licença médica, ainda debilitado, após receber nosso e-mail, aceitou nos conceder a entrevista, que até pela sua condição acabou sendo bem sucinta, mas traz elementos importantes para nossa análise. Diretor da rede também há mais de dez anos, relata as dificuldades burocráticas e desafios de ser um diretor de EMEF. Nós o escolhemos, pois realiza um trabalho relevante na região da Unidade Escolar, incentivando e dando visibilidade para os alunos que participam e queiram participar de atividades esportivas.

Outro diretor que conhecêssemos ingressou em 2017, mas já foi Coordenador Pedagógico e trabalhou na Diretoria Regional de Educação-DRE no setor pedagógico, aceitou participar da pesquisa e nos recebeu num dia quente de outono, em que a escola funcionava parcialmente por causa de uma greve. Chegou, e antes de nos receber, foi cumprimentar os colegas e observar a escola, acertou alguns detalhes da rotina do dia com o secretario e ao adentrar a sua sala nos convidou para ali realizarmos a entrevista, tendo em vista ser um local mais tranquilo.

A escola que está como diretor é uma EMEF com aproximadamente 650 alunos em dois turnos diurnos, porém desenvolvem vários projetos pré e pós aula, para que os alunos possam ficar mais tempo no espaço escolar, porém não é uma escola integral.

Nossa conversa foi bem tranquila, mas objetiva, não conseguimos aprofundar muito na história de vida do diretor, mas aprofundamos em muitas questões relevantes sobre gestão, administração e o pedagógico das escolas. Nos mostrou a importância do diretor nesses tempos desafiadores, mais ainda nas EMEFS, e afirma que é importante a liderança e a hierarquia.

Após a entrevista, fui convidada a conhecer os outros espaços da escola, um local muito legal que conhecemos é a casa das artes, espaço para atividades artísticas, apresentação e ensaios teatrais e danças, além do espaço para guarda dos instrumentos e roupas da fanfarra, outro projeto desenvolvido pela escola ganhador de alguns prêmios. O diretor nos relata com grande satisfação e alegria sobre os projetos que implantou e planeja implantar na escola. Relata que há muitos alunos em situação de vulnerabilidade e que a escola, além de ser o local para aprender, é importante também que seja o local do encontro, do estudo, e das aprendizagens.

Dessa forma, são muitos os territórios e os lugares que conhecemos, muitas histórias que compartilhamos nas nossas conversas. Estaremos nos aprofundando e analisando as entrevistas, focando em conceitos fundamentais da presente pesquisa.