1. REVISANDO O PLURALISMO NA ECONOMIA
1.2. O Pluralismo Estruturado de Sheila Dow
1.2.3. As Escolas de Pensamento: a incomensurabilidade parcial
De acordo com Dow (2004) a noção de escola de pensamento na Economia só
ganhou força durante a segunda metade do século XX, quando do crescimento do formalismo
matemático como característica metodológica dominante da Economia. No entanto, houve
diferentes entendimentos sobre o que define uma escola de pensamento distinta. Nos anos 60
e início dos anos 70 as escolas podiam ser identificadas inicialmente em termos de diferenças
teóricas dentro de um quadro metodológico comum. Entretanto, havia uma consciência
crescente de que as diferenças entre Cambridge Inglaterra e Cambridge Estados Unidos
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entre monetaristas e keynesianos, por exemplo, provinham de diferenças metodológicas,
epistemológicas e, em última instância, ontológicas muito mais profundas.
A ideia desenvolvida por Dow está consubstanciada na linguagem como papel
crucial para o conhecimento. A maneira como entendemos palavras e conceitos está enraizada
em nossa ontologia, e esses entendimentos, por sua vez, têm consequências reais para a
construção do conhecimento. Por sua vez, o processo de construção do conhecimento implica
em demarcações ou recortes, o que justifica a importância das escolas de pensamento na
consecução de determinados modos de pensamento.
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Durante os anos 60 houve um debate teórico e matemático entre economistas das duas instituições, que ficou conhecido como “o debate das duas Cambridge”. O debate era relativo à natureza e papel de bens de capital e a critica da visão neoclássica dominante de produção e distribuição agregada.
Para demonstrar a importância das escolas de pensamento na sua compatibilidade
com o pluralismo, destacando o papel da crítica e a comunicação, Dow (2004) recorre a uma
leitura atenta da incomensurabilidade paradigmática de Thomas Kuhn (2003 [1962]).
Kuhn [2003 [1962]) percebeu o foco de Popper em comunidades científicas para
desenvolver uma explicação para a aparente falta de adesão dos cientistas a conjuntos comuns
de regras decorrentes da filosofia da ciência. Enfatizando não apenas a ausência de um
conjunto universal de padrões, mas também a ausência de um uso compartilhado da
linguagem, Kuhn desafiou a visão de que era viável concordar com uma filosofia universal da
ciência comprovadamente válida. Pelo contrário, as comunidades científicas se formam em
torno de crenças, epistemologias e metodologias ontológicas compartilhadas, das quais
emergem conjuntos distintos de métodos e teorias, expressos em termos de significados
compartilhados pela comunidade.
Indiscutivelmente, elementos da ideologia estão inevitavelmente embutidos no que é,
em última análise, um sistema de crenças, de tal forma que eles não podem ser separados.
Esses paradigmas são incomensuráveis na medida em que não há um conjunto independente
de princípios pelos quais julgá-los, nem um conjunto compartilhado de significados de
linguagem para discuti-los. A ciência normal conduzida dentro desses paradigmas, juntamente
com a ciência extraordinária que de tempos em tempos desafia os paradigmas dominantes,
concentrando-se na reavaliação dos fundamentos para abordar as anomalias, é como Kuhn
entendia o caminho que a ciência segue.
É importante não associar a força do argumento entre paradigmas necessariamente
com a presunção de correção em qualquer sentido absoluto. A persuasão é parte e parcela do
pluralismo metodológico.
A ciência extraordinária, no esquema de Kuhn (2003 [1962]), é o lócus desse
argumento. Se ocorrerem revoluções científicas, alguma comunicação persuasiva deve ter
sido possível. Apesar da incomensurabilidade, argumentos fundamentados podem, portanto,
ser construídos, expressos e, em algum sentido, entendidos fora do paradigma, em favor da
metodologia alternativa preferida. Embora cada paradigma possa ser entendido como um
sistema social, existe um sistema social disciplinar maior (Economia, por exemplo) do qual
cada um é um subsistema. Existem alguns focos e entendimentos compartilhados que
permitem alguma comunicação (expressando concordância ou discordância).
Segue-se então que, na estrutura de Kuhn, a incomensurabilidade não significa
ausência de comunicação, mas dificuldade de comunicação. Como Kuhn (2003 [1962], p.
251) coloca, “o que resta aos interlocutores que não se compreendem mutuamente é
reconhecerem-se uns aos outros como membros de diferentes comunidades linguísticas e a
partir daí tornarem-se tradutores”.
Mais uma vez, o ponto de partida é o reconhecimento da diferença, a partir da qual a
comunicação pode construir um exercício de hermenêutica. Assim, a crítica entre paradigmas
é possível e pode ser frutífera. O incentivo para se envolver em tal comunicação é estar
exposto a novas ideias, novos argumentos e novas perspectivas sobre o próprio paradigma.
A crítica é inevitavelmente conduzida a partir da perspectiva de um paradigma ou
algum outro. Mas um dos legados importantes de Kuhn era aumentar a conscientização de que
a comunicação entre paradigmas requeria um esforço particular de tradução, qualquer que
fosse a linguagem do paradigma.
Nas palavras de Dow:
Para as ciências sociais pluralistas, onde nos preocupamos com paradigmas contemporâneos e não consecutivos, essa distinção tem particular importância. Embora seja uma distração irracional (popperiana) ter todos os economistas engajados em todos os momentos em esforços de ciência extraordinária na forma de tradução, é, no entanto, razoável ter todos os economistas capazes de compreender em algum grau o significado das linguagens de outros paradigmas (ou, pelo menos, consciente de que há uma questão de diferença linguística) (DOW, 2004, p. 287, tradução nossa).
Voltando aos fundamentos ontológicos do pluralismo metodológico, Dow (2004)
realça que a estruturação da realidade social (e a linguagem que desempenha um papel
importante nessa realidade) sugere uma estruturação também no nível epistemológico. O
pluralismo estruturado, então, é a defesa de uma gama de abordagens metodológicas para a
Economia que, como a gama de estruturas sociais, não é infinita. A partir de uma estrutura
provisória, as escolas de pensamento, como descrições de um sistema aberto, possuem
natureza inconstante, não apenas por causa de suas interações, mas também pelo seu próprio
modo de compreensão, o que permite coexistirem com o pluralismo.
Uma abordagem metodológica, assim como as estruturas sociais, requer uma
comunidade com crenças compartilhadas sobre a natureza da realidade, um foco
compartilhado em um segmento particular dessa realidade, categorizações compartilhadas e
entendimentos compartilhados dos significados dos termos. Para Dow (2004) as
categorizações das escolas de pensamento são compatíveis com a proposta pluralista, além de
servirem como ferramentas que permitem construções de pontes ou conexões entre as
diversas linguagens das diferentes abordagens.
O argumento de Dow (2004) referiu-se extensivamente à estrutura de Kuhn,
principalmente por sua ênfase na definição de paradigmas em termos de incomensurabilidade
na linguagem. Isso reforça o papel das escolas de pensamento em definir o alcance de
categorizações e entendimentos específicos de termos. Nas considerações de Dow:
Muitos dos benefícios do pluralismo metodológico, como a criação de novas conexões entre paradigmas, só podem ser derivados se houver suficiente percepção e compreensão da diferença de linguagem que alguma comunicação é possível. Algumas línguas estão mais próximas do que outras, facilitando a compreensão mútua. Mas, sem alguma categorização da própria linguagem, dentro de um quadro de escolas de pensamento, não haveria nenhum ponto de referência sobre o qual basear os esforços para se comunicar (DOW, 2004, p. 288, tradução nossa).