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As Escolas de Pensamento: a incomensurabilidade parcial

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 40-44)

1. REVISANDO O PLURALISMO NA ECONOMIA

1.2. O Pluralismo Estruturado de Sheila Dow

1.2.3. As Escolas de Pensamento: a incomensurabilidade parcial

De acordo com Dow (2004) a noção de escola de pensamento na Economia só

ganhou força durante a segunda metade do século XX, quando do crescimento do formalismo

matemático como característica metodológica dominante da Economia. No entanto, houve

diferentes entendimentos sobre o que define uma escola de pensamento distinta. Nos anos 60

e início dos anos 70 as escolas podiam ser identificadas inicialmente em termos de diferenças

teóricas dentro de um quadro metodológico comum. Entretanto, havia uma consciência

crescente de que as diferenças entre Cambridge Inglaterra e Cambridge Estados Unidos

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e

entre monetaristas e keynesianos, por exemplo, provinham de diferenças metodológicas,

epistemológicas e, em última instância, ontológicas muito mais profundas.

A ideia desenvolvida por Dow está consubstanciada na linguagem como papel

crucial para o conhecimento. A maneira como entendemos palavras e conceitos está enraizada

em nossa ontologia, e esses entendimentos, por sua vez, têm consequências reais para a

construção do conhecimento. Por sua vez, o processo de construção do conhecimento implica

em demarcações ou recortes, o que justifica a importância das escolas de pensamento na

consecução de determinados modos de pensamento.

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Durante os anos 60 houve um debate teórico e matemático entre economistas das duas instituições, que ficou conhecido como “o debate das duas Cambridge”. O debate era relativo à natureza e papel de bens de capital e a critica da visão neoclássica dominante de produção e distribuição agregada.

Para demonstrar a importância das escolas de pensamento na sua compatibilidade

com o pluralismo, destacando o papel da crítica e a comunicação, Dow (2004) recorre a uma

leitura atenta da incomensurabilidade paradigmática de Thomas Kuhn (2003 [1962]).

Kuhn [2003 [1962]) percebeu o foco de Popper em comunidades científicas para

desenvolver uma explicação para a aparente falta de adesão dos cientistas a conjuntos comuns

de regras decorrentes da filosofia da ciência. Enfatizando não apenas a ausência de um

conjunto universal de padrões, mas também a ausência de um uso compartilhado da

linguagem, Kuhn desafiou a visão de que era viável concordar com uma filosofia universal da

ciência comprovadamente válida. Pelo contrário, as comunidades científicas se formam em

torno de crenças, epistemologias e metodologias ontológicas compartilhadas, das quais

emergem conjuntos distintos de métodos e teorias, expressos em termos de significados

compartilhados pela comunidade.

Indiscutivelmente, elementos da ideologia estão inevitavelmente embutidos no que é,

em última análise, um sistema de crenças, de tal forma que eles não podem ser separados.

Esses paradigmas são incomensuráveis na medida em que não há um conjunto independente

de princípios pelos quais julgá-los, nem um conjunto compartilhado de significados de

linguagem para discuti-los. A ciência normal conduzida dentro desses paradigmas, juntamente

com a ciência extraordinária que de tempos em tempos desafia os paradigmas dominantes,

concentrando-se na reavaliação dos fundamentos para abordar as anomalias, é como Kuhn

entendia o caminho que a ciência segue.

É importante não associar a força do argumento entre paradigmas necessariamente

com a presunção de correção em qualquer sentido absoluto. A persuasão é parte e parcela do

pluralismo metodológico.

A ciência extraordinária, no esquema de Kuhn (2003 [1962]), é o lócus desse

argumento. Se ocorrerem revoluções científicas, alguma comunicação persuasiva deve ter

sido possível. Apesar da incomensurabilidade, argumentos fundamentados podem, portanto,

ser construídos, expressos e, em algum sentido, entendidos fora do paradigma, em favor da

metodologia alternativa preferida. Embora cada paradigma possa ser entendido como um

sistema social, existe um sistema social disciplinar maior (Economia, por exemplo) do qual

cada um é um subsistema. Existem alguns focos e entendimentos compartilhados que

permitem alguma comunicação (expressando concordância ou discordância).

Segue-se então que, na estrutura de Kuhn, a incomensurabilidade não significa

ausência de comunicação, mas dificuldade de comunicação. Como Kuhn (2003 [1962], p.

251) coloca, “o que resta aos interlocutores que não se compreendem mutuamente é

reconhecerem-se uns aos outros como membros de diferentes comunidades linguísticas e a

partir daí tornarem-se tradutores”.

Mais uma vez, o ponto de partida é o reconhecimento da diferença, a partir da qual a

comunicação pode construir um exercício de hermenêutica. Assim, a crítica entre paradigmas

é possível e pode ser frutífera. O incentivo para se envolver em tal comunicação é estar

exposto a novas ideias, novos argumentos e novas perspectivas sobre o próprio paradigma.

A crítica é inevitavelmente conduzida a partir da perspectiva de um paradigma ou

algum outro. Mas um dos legados importantes de Kuhn era aumentar a conscientização de que

a comunicação entre paradigmas requeria um esforço particular de tradução, qualquer que

fosse a linguagem do paradigma.

Nas palavras de Dow:

Para as ciências sociais pluralistas, onde nos preocupamos com paradigmas contemporâneos e não consecutivos, essa distinção tem particular importância. Embora seja uma distração irracional (popperiana) ter todos os economistas engajados em todos os momentos em esforços de ciência extraordinária na forma de tradução, é, no entanto, razoável ter todos os economistas capazes de compreender em algum grau o significado das linguagens de outros paradigmas (ou, pelo menos, consciente de que há uma questão de diferença linguística) (DOW, 2004, p. 287, tradução nossa).

Voltando aos fundamentos ontológicos do pluralismo metodológico, Dow (2004)

realça que a estruturação da realidade social (e a linguagem que desempenha um papel

importante nessa realidade) sugere uma estruturação também no nível epistemológico. O

pluralismo estruturado, então, é a defesa de uma gama de abordagens metodológicas para a

Economia que, como a gama de estruturas sociais, não é infinita. A partir de uma estrutura

provisória, as escolas de pensamento, como descrições de um sistema aberto, possuem

natureza inconstante, não apenas por causa de suas interações, mas também pelo seu próprio

modo de compreensão, o que permite coexistirem com o pluralismo.

Uma abordagem metodológica, assim como as estruturas sociais, requer uma

comunidade com crenças compartilhadas sobre a natureza da realidade, um foco

compartilhado em um segmento particular dessa realidade, categorizações compartilhadas e

entendimentos compartilhados dos significados dos termos. Para Dow (2004) as

categorizações das escolas de pensamento são compatíveis com a proposta pluralista, além de

servirem como ferramentas que permitem construções de pontes ou conexões entre as

diversas linguagens das diferentes abordagens.

O argumento de Dow (2004) referiu-se extensivamente à estrutura de Kuhn,

principalmente por sua ênfase na definição de paradigmas em termos de incomensurabilidade

na linguagem. Isso reforça o papel das escolas de pensamento em definir o alcance de

categorizações e entendimentos específicos de termos. Nas considerações de Dow:

Muitos dos benefícios do pluralismo metodológico, como a criação de novas conexões entre paradigmas, só podem ser derivados se houver suficiente percepção e compreensão da diferença de linguagem que alguma comunicação é possível. Algumas línguas estão mais próximas do que outras, facilitando a compreensão mútua. Mas, sem alguma categorização da própria linguagem, dentro de um quadro de escolas de pensamento, não haveria nenhum ponto de referência sobre o qual basear os esforços para se comunicar (DOW, 2004, p. 288, tradução nossa).

Uma outra justificação para não só a existência de diversas escolas de pensamento,

bem como a imprecisão na definição das mesmas, deriva do que Dow (2003a) denomina de

modo de pensamento babilônico.

O termo “modo de pensamento” se refere aos princípios de construção e

comunicação do conhecimento que sustentam a escolha da metodologia. Um modo de

pensamento é "a maneira pela qual argumentos (ou teorias) são construídos e apresentados,

como tentamos convencer os outros da validade ou verdade de nossos argumentos" (DOW,

2003a, p. 11, tradução nossa).

A metodologia babilônica, desenvolvida pelo físico Richard Feynman, é uma ruptura

com o pensamento cartesiano/euclidiano associado ao sistema fechado de pensamento, e que

requer a necessária validade de axiomas (abstrai de problemas práticos para gerar soluções

universais no domínio da abstração – sistema governado por regras internas); no entanto, o

pensamento babilônico não é diametralmente oposto ao pensamento cartesiano/euclidiano,

mas transcende esse dualismo ao promover uma síntese entre o pensamento

cartesiano/euclidiano e o pensamento não-cartesiano/não-euclidiano. Essa síntese permite que

a possibilidade de conhecimento seja tratada como uma questão de grau, de forma que o

conhecimento possa ser apreendido mesmo em condições de incerteza fundamental. Assim, o

pensamento babilônico está associado a uma metodologia do tipo sistema aberto de

pensamento(KING, 2002).

Dow explorou a natureza e as implicações do pensamento babilônico, a fim de

entender as diferenças entre os fundamentos da metodologia econômica convencional e os das

metodologias de outras escolas de pensamento. Sendo o pós-keynesianismo uma dessas

escolas de pensamento, a ideia do pensamento babilônico passou a ser uma das maneiras pelas

quais o pós-keynesianismo foi identificado.

Um sistema de pensamento babilônico é uma forma de sistema aberto de

pensamento, e não o sistema fechado do pensamento cartesiano/euclidiano. Além disso, o

pensamento babilônico não é dualista nem atomístico. As categorias usadas para explicar a

vida social em um ambiente em evolução não são vistas como caindo prontamente nos duais.

De fato, a imprecisão das categorias é vista como tendo o benefício da adaptabilidade em um

ambiente em mudança, onde as instituições, o entendimento e o comportamento sofrem

mudanças. Em um sistema de pensamento com uma variedade de vertentes incomensuráveis

de argumento, as variáveis podem ser exógenas para uma vertente, mas endógenas para outra.

Em geral, o conhecimento é mantido com incerteza (pelos agentes econômicos e pelos

economistas); portanto, a análise aponta para graus de incerteza (DOW, 2003a).

Além disso, algumas linhas de argumento podem se referir a indivíduos e outras ao

nível do grupo, uma vez que as forças causais podem agir em qualquer direção. De fato, os

indivíduos não são vistos como independentes, e seu comportamento pode mudar à medida

que o ambiente muda. Instituições e convenções fornecem estabilidade para permitir que

decisões sejam tomadas em um ambiente incerto. Em outras palavras, a estrutura social é

entendida como orgânica.

Ademais, o pensamento babilônico fornece uma justificativa para o pluralismo.

Justifica tanto o pluralismo metodológico (metodólogos analisando uma variedade de

metodologias) quanto o pluralismo de método (economistas usando uma variedade de

métodos). Se o mundo real é entendido como orgânico, não governado por leis universais, há

espaço para uma série de metodologias. Além disso, o pensamento babilônico apóia

especificamente o uso de vários métodos diferentes para diferentes cadeias de raciocínio.

Mas, para serem operacionais, ambas as formas de pluralismo são moderadas pela maneira

como o sistema aberto de pensamento é especificado. Como o mundo real é entendido irá

governar a escolha particular da metodologia e, por sua vez, a variedade de métodos a serem

utilizados.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 40-44)