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4 O “ESTILO INTERNACIONAL” DO RENASCIMENTO

4.5 As escolas de fortificação na Europa

Os mestres construtores se da Idade Média costumavam se organizar em agremiações, cuja existência se dava geralmente por autorização de cada reino. Estes grêmios consistiam em instituições destinadas à integração social dos profissionais, o que incluía deveres para com a religião, principalmente em parceria com as crescentes confrarias e irmandades, mas não havia ainda o intuito de estabelecer uma prática de organização e difusão de conhecimento profissional. Estes profissionais não gozavam de elevadas posições sociais nas cortes, e eram raros os que portavam títulos nobiliárquicos, principalmente porque, segundo Ferreira (2010), a arquitetura era considerada uma atividade de menor importância no universo das artes, que não merecia, portanto, reflexão teórica. Por outro lado, integrantes da nobreza e do clero chegaram a ter contato com o conteúdo dos livros das bibliotecas dos mosteiros e dos palácios, cuja maioria abordava temas de natureza filosófica e religiosa, e aprendiam matemática, geometria e álgebra, inclusive aplicadas à construção de igrejas, sem, no entanto, abordarem o tema de modo reflexivo, restringindo-se quase a métodos descritivos.

No mesmo período, os que se dedicavam à construção de edificações o faziam sem distinção de tipologias, dedicando-se tanto a construir castelos como igrejas. A maior parte desses profissionais faziam parte do exército, ou, quando não, deveriam adquirir experiência para exercer a profissão. Por muitos anos, a formação se dava pela atuação como aprendizes de mestres construtores nos próprios canteiros de obras, cuja relação mestre e discípulo era própria das agremiações. O aprendizado era

Gráfico 2 – Quantitativo da nacionalidade dos tratados de arquitetura militar elaborados do século XV ao início do século XVIII.

Fonte: Elaborada pelo autor.

Gráfico 3 – Quantitativo da nacionalidade dos tratados de arquitetura militar elaborados no século XVI.

Fonte: Elaborada pelo autor.

Gráfico 4 – Quantitativo da nacionalidade dos tratados de arquitetura militar elaborados no século XVII.

Fonte: Elaborada pelo autor. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 5 10 15 20 25 30 35 Italianos Holandeses Alemães Franceses Espanhóis Portugueses Ingleses

transmitido oralmente, de geração em geração, cujo conteúdo corria o risco de ser extinto caso não houvesse mais aprendizes, visto que o conhecimento adquirido a prática, resultado de longas tradições, não era registrado por escrito.

Os poucos textos da Idade Média que abordam arquitetura de um modo geral são predominantemente descritivos no que se refere às características arquitetônicas das edificações, mas muitos possuem reflexões de cunho filosófico, principalmente quanto aos significados das igrejas para as cidades, como em Procópio (século VI), que se referiu à igreja de Santa Sofia como sendo o ornato de sua cidade. No âmbito das obras de defesa, poucas são as referências atinentes à sua arquitetura no sentido prático, abordando-as enquanto seus significados iconográficos, ou questões políticas e condutas de guerra. Assim, não se pode afirmar que houve uma escola de fortificação ou algum tipo de conjunto de conhecimentos difundidos de modo formal, com o intuito de aprendizado e especialização, na Idade Média.

O conflituoso período de adaptação das antigas instalações militares do medievo para resistir à artilharia à pólvora conduziu à emergente necessidade de repensar a arquitetura da defesa, o que culminou na autonomia de um ramo específico da arte ou ciência de construir: a arquitetura militar. A inevitável necessidade de especialização nesta disciplina perante o vultoso número de conflitos entre nações, e a crescente utilização maciça dos canhões, não apenas contribuiu para sua erudição consagrada na tratadística, mas tornou urgente a capacitação de profissionais com base acadêmica, haja vista o grande nível de complexidade da fortificação abaluartada. Como predominava na Europa a tradição medieval do aprendizado empírico, as grandes nações se viram com corpo profissional insuficiente, principalmente pelas inúmeras obras de defesa que haveriam de erguer nas colônias ultramarinas. Assim, os especialistas italianos, inventores da fortificação alla moderna, passaram a ser contratados por diversos reinos, ou estes reinos enviavam seus próprios pretendentes à Itália para aprenderem a fortificação abaluartada.

Os tratados de arquitetura, além de comporem as bibliotecas reais e monásticas, passaram a ser propagados e, muitas vezes, utilizados como norteadores no processo projetual das modernas fortificações. A complexificação da nova arquitetura defensiva ocasionou a criação de centros para ensino dirigidos a proporcionar os conhecimentos adequados necessários, e tais centros se tornaram referência no final do século XVII, destacando-se aquelas localizadas na Holanda, na França, na Espanha e na atual Alemanha. Todas buscavam suas referências na Itália, mas implementando adaptações ou acrescentando novos elementos em conformidade com as novas práticas de guerra. As escolas holandesa e francesa se tornaram as mais importantes, enquanto que a alemã se tornou uma variante da italiana, e os portugueses e espanhóis desenvolveram variações das duas mais importantes, como os portugueses Pimentel e Azevedo Fortes que se basearam nas escolas holandesa e francesa, respectivamente (MOREAU, 2016).

Estas duas mais importantes escolas desenvolveram padrões sofisticados que exigiam cada vez mais o domínio da matemática e tiveram seus métodos aplicados em diversos lugares da Europa e em suas colônias.

A escola italiana, que criou a fortificação abaluartada, continuou importante durante o período de efervescência cultural do Renascimento na Itália, exportando seus profissionais e suas ideias por todo o mundo. Com o tempo, viu-se que a distância entre os baluartes italianos era maior do que a necessária, o que prejudicou a eficiência do fogo cruzado pelos flancos. A quase totalidade das obras de defesa italianas eram construídas em alvenaria de pedra ou tijolo, variando conforme a disponibilidade dos materiais em cada região, o que gerou fortificações com maior durabilidade, mas com custos elevados. De modo geral, os italianos deram preferência aos baluartes com orelhões e flancos retilíneos.

A escola holandesa se desenvolveu durante a Guerra dos Oitenta Anos contra a Espanha (1568- 1648) e teve Simon Stevin como o fundador da Escola de Engenheiros da Universidade de Leiden (1600), pela Aula Duytsche Mathematique fundada pelo príncipe Maurício, habilitando técnicos para a concepção e a construção de fortificações. Esta escola foi criada por inspiração da Academia das

Matemáticas e Arquitetura, fundada em 1582 por Filipe II da Espanha, certamente pela necessidade de

profissionalização dos holandeses frente à já crescente especialização dos espanhóis que dominavam Portugal e os Países Baixos, bem como recebiam técnicos italianos e enviavam seus próprios técnicos à Itália (HEUVEL, 1991). Embora Stevin tenha formulado o currículo do curso, não há evidências de que ele tenha dado aulas. Isto seria improvável pelo fato de que ele era professor particular do Príncipe Maurício67 (HEUVEL, 2011).

Outros arquitetos militares notáveis da escola holandesa foram Adam Freitag, Matthias Dögen e Samuel Marolois. Após a independência da Holanda, o barão Menno van Coehoorn (1641-1704) reestruturou as defesas do país e resgatou o prestígio de sua escola. Seu tratado (1687) estabeleceu, entre outros aspectos, o aumento do comprimento dos flancos para que pudessem abrigar mais canhões, o que aumentaria as possibilidades de cruzamento de fogo e, consequentemente, de defesa (BUCHO, 2010).

A contratação de estrangeiros, principalmente italianos, tanto na Holanda como em Portugal, é explicada por Heuvel (1991) e Paar (2001), respectivamente, pelo fato de que estes países buscavam os pioneiros da fortificação moderna para ensinar arquitetura militar e, com isso, implementar melhorias na defesa. Não só isso, pois esses países viviam em constantes conflitos, o que seria uma oportunidade para aqueles estrangeiros porem em prática a intelectualidade por trás da concepção do baluarte.

Para Capmany (2004), a escola francesa deu seus primeiros passos com o duque de Sully (1560- 1641), Mestre da Artilharia e Superintendente das Fortificações da França, que instituiu um corpo de arquitetos militares franceses para não depender dos italianos. O destaque desta escola se deu com a atuação de Antoine de Ville e do Conde de Pagan. Em seus tratados, deram preferência à fortificação de cidades existentes, pelo que se constata uma grande quantidade de recomendações para a construção de

perímetros amuralhados irregulares. Na segunda metade do século XVII, Sébastien Le Prestre, Marechal de Vauban (1633-1707) aplicou seus métodos em diversas cidades na França. Suas obras eram dotadas de enorme complexidade construtiva, com a adoção de muralhas abaluartadas concêntricas e, assim como os holandeses, com obras exteriores. Suas fortificações geralmente tinham grandes dimensões e demandavam um contingente demasiado numeroso para a construção, como os seis mil homens que construíram a fortificação de Lille. Apesar disso, seus métodos contribuíram para a predominância da escola francesa no século XVIII e serviram de referência para a maioria dos fortificadores seguintes. Entretanto, Vauban não criou traçados reguladores para conceber as fortificações abaluartadas, mas articulou os postulados de seus antecessores de maior renome, principalmente Pagan.

Em Portugal, no final do século XVI, havia ao menos dois tipos de ensino de arquitetura, sendo um ligado às belas artes e outro à estrutura da malha urbana, incluindo fortificação. O ensino era dado com ênfase na prática, e ocorreu em diversos edifícios públicos existentes em Portugal. Os mestres que ensinavam tiveram contato com as obras do Renascimento italiano e extraíram delas o conteúdo necessário para as aulas, como foi o caso de João de Castilho e Antônio Rodrigues (BUENO, 2011).

Com Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo-mor do Reino desde 1547, começaram a ser dadas cartas de ofício e aulas de matemática a pilotos. Em 1559, ele já ensinava na Aula do Paço, reorganizada em 1562 por D. Catarina para preparar jovens nobres que serviriam nas Conquistas. Em 1568, Pedro Nunes introduziu o estudo elementar das Matemáticas e da Esfera (Cosmografia), incluindo arquitetura militar (MOREAU, 2016).

Antônio Rodrigues, Mestre de Todas as Obras Régias e, posteriormente, Mestre das Obras das

Fortificações, e ainda como cosmógrafo-mor, passou a ensinar arquitetura, produzindo os tratados

manuscritos de 1576 e 1579. Estes tratados foram utilizados em suas aulas como apostilas para os jovens fidalgos, mostrando as referências teóricas nesta primeira iniciativa oficial de ensino de arquitetura militar. A iniciativa didática da Escola de Maços Fidalgos do Paço da Ribeira teria impressionado Filipe II e Juan de Herrera (1530-1597) quando estiveram em Lisboa no início da União das Coroas (1581-2), levando-os a criar uma instituição semelhante no Alcázar de Madri, a Academia de Matemáticas e

Arquitectura (1583) (MOREAU, 2016).

Com Filipe II, foi criada a Aula do Risco (1594), dispondo apenas de três vagas, sendo o Filippo Terzi o primeiro mestre. Após a morte de Antônio Rodrigues, Terzi, nomeado Mestre das Obras de El-

Rei e depois Arquitecto Geral, ficou encarregado de supervisionar a formação de três discípulos em uma

aula paralela à de Madri, com disciplinas que iam da matemática à arquitetura civil, fortificação e cosmografia. O regulamento da aula exigia dos alunos a prestação de serviços ao reino, ajudando no traçado de obras oficiais. Apesar de disporem de alguns tratados para o ensino, as aulas tinham caráter prático, razão pela qual se exigiam dos alunos conhecimentos prévios em geometria e arquitetura.

Em 1590, foi instalada a Aula de Esfera no Colégio de Santo Antão, onde padres jesuítas ensinavam matérias relacionadas à cartografia, que serviria de base para a arquitetura militar. A aula atraiu alunos de outros países e esteve aberta, inclusive, para não fidalgos. Como possuía ementa

bastante aprofundada em matemática aplicada à ciência náutica, artilharia e fortificação, produziu um número relativamente alto de apostilas.

Após a Restauração (1640), com o intuito de diminuir a dependência de profissionais estrangeiros, D. João IV criou a Aula de Artilharia e Esquadria, em 1641, com ensino específico de arquitetura militar, funcionando no Paço da Ribeira, em Lisboa. Em 1647, a aula foi transferida para a Ribeira das Naus, com o título de Aula da Fortificação e Arquitectura Militar, sendo também chamada de Academia

militar ou Aula Régia, consagrando-se como a primeira instituição portuguesa para a formação

específica de arquitetos militares (BUENO, 2011).

Entre 1647 e 1678, Luís Serrão Pimentel foi titular da Aula Régia, onde escreveu diversos textos. Em 1680, publicou seu Méthodo Lusitânico, considerado primeiro tratado português de arquitetura militar por excelência, que consistiu no principal documento sobre o conteúdo da Aula Régia. Como o título do tratado sugere, era um método, o qual ele utilizava em suas aulas, abordando fortificações regulares e irregulares, considerando as particularidades do sítio a ser fortificado. Os arquitetos militares passariam agora a dispor de uma teoria, na língua vernácula, como orientação na prática projetual e construtiva. Os holandeses foram referência no tratado de Pimentel e também utilizados em suas aulas, mas Pimentel considerou que os métodos holandeses eram de fácil aplicação, razão pela qual escreveu seu tratado direcionado com conteúdo de fácil compreensão, inclusive para principiantes, tornando sua aula mais objetiva, com exercícios passo-a-passo. Manuel de Azevedo Fortes sucedeu a Pimentel na

Academia Real de Fortificaçam e comandou um movimento de renovação no ensino, incluindo as

teorias de Vauban. Em 1728, Fortes publicou seu tratado, o segundo de Portugal (BUENO, 2011). Ambos os portugueses, Pimentel e Fortes, se dedicaram ao ensino da arquitetura militar em Portugal, tomando holandeses e franceses como referência, mas se preocupando em apresentar o conteúdo de modo sistemático e didático.

Bueno (2011) comenta que, no final do século XVI, a coroa portuguesa passou a investir na formação regular68 de fidalgos para realizar os desígnios das conquistas, pois Portugal dependia de profissionais estrangeiros, sobretudo italianos. Esta iniciativa levou a uma alta erudição dos portugueses, cujos resultados tiveram ressonância em suas colônias, o que inclui o Brasil. Como ainda havia pouco contingente de arquitetos portugueses, insuficientes no próprio solo português e mais ainda nas colônias, tornou-se necessário criar aulas de arquitetura militar no Brasil, aproximadamente um século após as primeiras experiências acadêmicas em solo português. A primeira delas se instalou em Salvador (1696), depois no Rio de Janeiro (1698), São Luís (1699), Recife (1701) e Belém (1758). Os lentes, como se chamavam os professores, eram escolhidos pelo engenheiro-mor de Portugal e, primeiramente, a escolha era determinada pela experiência prática, mas o conhecimento teórico passou a ser, posteriormente, um fator determinante. Assim como nas aulas em Portugal, as aulas do Brasil contavam apenas com três

68 A arquitetura militar chegou a ser ensinada em Portugal em meados do século XVI, mas de modo ainda embrionário, na época em que Francisco de Holanda era expoente do cenário teórico da arquitetura portuguesa.

vagas e a matemática, em geral, era ensinada, juntamente com o auxílio de tratados de arquitetura militar como os de Pimentel e Fortes.