Como referimos no capítulo terceiro, a pesquisa envolveu, pelas razões aí evocadas, oito escolas do ensino básico (com 2º e 3 ciclos), três no concelho de Lisboa e cinco no de Loures. Mais especificamente, duas das escolas, a E1 e a E2, ficam situadas numa região suburbana de maior exclusão (Quinta da Fonte e Camarate) com forte incidência de populações escolares oriundas dos PALOP e são ambas de grande dimensão (cerca de 800 alunos); duas outras, a E3 e a E4, ficam situadas num centro urbano do concelho de Loures, com forte presença de populações escolares com ascendência imigrante, com um leque diversificado de origens nacionais, e com uma dimensão ligeiramente mais reduzida (ronda os 600 alunos); as escolas E5 e a E6 ficam situadas na zona de fronteira da cidade de Lisboa e, apesar da proximidade, pertencem a distintos concelhos, com forte presença de estudantes com origem indiana, sendo a pertencente ao concelho de Loures de maior dimensão do que a sua congénere e, finalmente, as escolas E7 e E8 localizam-se na cidade de Lisboa, em zonas centrais de urbanização recente (últimos 60 anos), a primeira dentro de um bairro com mais tempo de existência e de dimensões mais modestas do que a segunda (quadro 5.1).
Para além da óbvia influência do contingente de alunos no número de turmas da escola, existe outro tipo de condicionantes, como o reduzido número de salas, que pode ditar a diminuição do número de turmas e a consequente maior extensão das mesmas: é o caso da E4 que tem, claramente, turmas de maior dimensão por se encontrar sobrelotada, estando no momento da inquirição a ser construída uma escola substituta.
Quadro 5.1. Alunos e turmas por escola
E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 Total alunos da escola 789 835 661 571 764 595 476 1011 2º ciclo
Total de alunos 372 471 307 318 466 325 233 487
Nº turmas 17 21 13 11 20 15 12 -
Alunos/turma 21.9 22.4 23.6 28.9 23.3 21.6 19.4 -
De acordo com os dados recolhidos através das genealogias elaboradas pelos alunos do 2º ciclo, encontramos neste ciclo uma forte presença de alunos com origem imigrante
que varia entre os 29% (E1) e os 53% (E4) (quadro 5.2). Estamos, pois, perante escolas que concentram descendentes de imigrantes, na medida em que a percentagem destes estudantes se encontra muito acima da média verificada na região de Lisboa (NUT II), onde estes alunos não ultrapassam os 14% dos alunos matriculados, como vimos atrás (quadro 4.5).
Quadro 5.2. Alunos e origens nacionais por escola (aplicação das genealogias) (2002/03)
Escola
Total (100%)
D. imigrantes Países de origem (nº absolutos)
nº % Índia C.V. Angola S. Tomé Guiné Brasil Vários
E1 353 103 29.2 1 57 4 11 4 7 18 E2 352 121 34.4 2 47 16 19 6 6 23 E3 189 76 40.2 9 12 20 3 6 0 25 E4 182 96 52.7 18 18 17 7 12 1 20 E5 428 155 36.2 43 41 14 19 6 3 29 E6 229 86 37.6 38 17 4 1 1 2 15 E7 152 66 43.4 15 21 9 3 2 2 12 E8 a) 85 22 - 2 7 0 0 0 1 11 Várias 22 22 100.0 13 9 0 0 0 0 0 Total 1992 747 37.2 141 229 84 63 37 22 153
a) Excepcionalmente, nesta escola, só os alunos onde se aplicou o inquérito completaram as genealogias.
A maioria dos alunos tem origem nos PALOP (55%), com forte expressão da origem cabo-verdiana (30%) que, como sabemos, foi intencionalmente procurada para efeitos da pesquisa, assim como os estudantes de origem indiana que neste universo aparecem com uma expressão muito acima da que tem no país e mesmo na região de Lisboa (18%). As escolas onde localizámos um maior número de alunos oriundos da Índia foram as situadas na zona de fronteira entre os concelhos de Lisboa e Loures (E5 e E6), seguidas de escolas de centro urbano, uma em cada um destes concelhos (E4 e E7). As escolas com um contingente mais expressivo de alunos com origem cabo-verdiana foram, claramente, as que se situam nas zonas mais periféricas do concelho de Loures (E1 e E2), seguidas da escola E5 que tem uma significativa presença dos dois grupos- alvo da pesquisa. Salienta-se, ainda, a proporção de alunos com ascendência “mista” (21%) e que corresponde, na maioria dos casos, a casamentos mistos intra países dos PALOP ou de oriundos destes países com autóctones.
No levantamento das condições de funcionamento de cada escola, avaliadas por um conjunto variado de itens, detectamos uma diversidade considerável entre as escolas, que sintetizámos no quadro 5.3.
Quadro 5.3. Condições escolares (2002/03)
A. Recursos humanos E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 Professores efectivos (%) 78.1 74.1 - 73.0 85.3 80.4 80.1 78.8 Alunos/professor 8.2 7.4 7.8 7.0 7.0 5.6 7.0 7.6 Alunos/pessoal auxiliar 35.8 27.8 31.5 26.0 38.2 22.9 34.0 34.9 Classificação a) 1 2 2 2 2 3 2 2 B. Condições materiais Alunos/turma 21.9 22.4 23.6 28.9 23.3 21.6 19.4 - Alunos/sala 30.3 19.4 47.2 - 27.2 37.2 22.7 29.7 Alunos/computador 40.0 22.6 28.7 28.6 26.3 31.3 34.0 26.6 Alunos/obra Biblioteca 10.1 4.0 5.6 2.5 6.8 - - 4.9 Ginásio (nº) 0 1 0 0 1 0 1 1 Campo de jogos (nº) 1 2 2 0 2 1 1 2 Laboratórios (nº) 3 2 4 0 0 3 0 4 Estado de conservação b) B F B F M M B B Classificação a) 2 2 2 1 2 2 3 3 A + B 3 4 4 3 4 5 5 5
a) Classificação comparativa, resultante da ponderação das variáveis em análise: 1 (mínimo), 2 (médio) e 3 (máximo).
b) Estado geral definido de modo impressionista, por observação directa: Bom (B), Médio (M) e Fraco (F).
Em traços globais, encontrámos as melhores condições nas três escolas situadas no concelho de Lisboa, uma delas pelos excepcionais recursos humanos de que dispõe (E6) e as outras duas pela vantagem a nível dos recursos materiais e de condições de funcionamento (E7 e E8). As piores condições comparativas, são as das escolas E1 e E4, no primeiro caso pela carência de recursos humanos e no segundo pela falta de condições e recursos materiais, precisamente a escola que se encontrava em processo de substituição. As restantes tinham condições intermédias, tanto a nível dos recursos disponíveis como das condições de funcionamento.
Traçado este quadro genérico das escolas frequentadas pelos alunos inquiridos, vejamos, agora, as suas principais características quanto às origens nacionais (quadro 5.4). As escolas onde foram inquiridos mais alunos com ascendência imigrante foram
uma das que se situa no centro urbano do concelho de Loures (E4) e as que ficam na região de fronteira dos dois concelhos (E5 e E6). Os alunos de origem cabo-verdiana foram “recrutados”, sobretudo, numa das escolas periféricas (E1) e em outra que se encontra às “portas” da cidade de Lisboa (E5). Os de ascendência indiana distribuíram-se, especialmente, entre as duas escolas situadas na fronteira dos concelhos (E5 e E6).
Quadro 5.4. Alunos inquiridos por escola e origem nacional
Escola turmas Nº de alunos Total Alunos desc. imigrantes Origem Cabo Verde Origem Índia nº % col. % linha nº % col.. % linha nº % col. % linha
E1 6 111 40 10.8 36.0 29 26.4 26.1 0 - - E2 6 114 46 12.5 40.4 18 16.4 15.8 2 1.8 1.8 E3 2 42 13 3.5 31.0 2 1.8 4.8 5 4.6 11.9 E4 5 113 58 15.7 51.3 10 9.1 8.8 12 11.0 10.6 E5 7 150 86 23.3 57.3 26 23.6 17.3 35 32.1 23.3 E6 8 139 60 16.3 43.2 7 6.4 5.0 35 32.1 25.2 E7 4 63 23 6.2 36.5 3 2.7 4.8 5 4.6 7.9 E8 4 83 21 5.7 25.3 6 5.5 7.2 2 1.8 2.4 Várias - 22 22 6.0 - 9 8.2 - 13 11.9 - Total 42 837 369 100.0 44.0 110 100.0 13.1 109 100.0 13.0