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Assim, em Luciano, a crítica se volta contra quem faz sua escolha ou sua adesão a uma doutrina de modo extemporâneo ou dissimulado, como Peregrino ou Alexandre, ou de forma pouco refletida ou mesmo arraigada a uma única perspectiva, como os cristãos ou Hermótimo. De uma forma ou de outra, contra o engano ou contra a auto-ilusão, o que se requer, a princípio, é uma capacidade judicativa experimentada e comparativa, formada discursivamente (é o que argumentamos) nos relatos biográficos de Luciano e constitutiva da esfera do si mesmo.

Essa capacidade crítica é discutida e analisada de forma clara e relativamente detalhada no Hermótimo320. Nesse diálogo está em questão a proaíresis, a escolha de uma

doutrina ou a adesão a ela (ou o assentimento a um conjunto determinado de princípios) e o

pisteúein, o acreditar, o confiar, o permanecer numa fé. Enfatiza-se, certamente, na figura de

Hermótimo (um adepto e discípulo dedicado do estoicismo), a sua incapacidade de avaliar criticamente a própria corrente de que faz parte; sua avaliação, com efeito, é baseada na aparência exterior do filósofo estóico, o que leva Luciano a buscar uma comparação com o

320 Não consideramos, certamente, o Hermótimo um relato biográfico, embora o personagem Lycino (que é uma

forma helenizada do seu correspondente latino Lukianós) possa ser qualificado como uma espécie de alter-ego de Luciano. A obra, em si, é um diálogo de tom bastante platônico, porém não é ‘assinada’, ou seja, Luciano não encena aqui o personagem do autor do discurso.

campo das imagens, comparando-a com estátuas, no intuito de criticar uma filosofia artificial e calcada numa exterioridade enganosa321.

É preciso, então, segundo a perspectiva do Hermótimo, ultrapassar esse juízo calcado na aparência, no intuito de fazer, em proveito de si mesmo, uma escolha criteriosa (akribê

poiésasthai tèn diaíresin)322

. Para isso, faz-se mister encontrar (através de um mestre) ou desenvolver (por si mesmo) uma técnica de discernimento (diakríseos tékhnen tiná)323, uma preparação e instrumentalização crítica e investigativa (kritikês tinos kaì exetastikês

paraskeués)324, uma capacidade de julgamento crítico (kritikèn dýnamin)325.

Não obstante, isso não pode ser atingido de modo absoluto, pois não seria possível distinguir um critério que viesse a ser um parâmetro invariável e confiável para qualquer tipo de escolha. Então, a atitude mais indicada e imparcial em relação a qualquer doutrina filosófica ou religiosa é, antes de tudo, o desacreditar, ou melhor, o “não te embriagues e lembra-te de não crer” (néphe kaì mémneso apisteîn)326. Dessa forma, numa situação de

julgamento na esfera do si mesmo, parte-se do princípio de deslocar-se do próprio lugar, pois o descrer de si mesmo (descrer da escolha que se possa fazer em algum momento) significa a possibilidade do sujeito dramático descolar de si e não ficar acometido pela afecção de um determinado discurso. Convém lembrar, mais uma vez, que a tese de Brandão é que essa contraposição ao discurso do filósofo diz respeito à constituição da poética de alteridade de Luciano, que busca uma certa legitimação de sua prosa como um espaço discursivo marcado pelo psêudos (o que o aproxima do campo dos sonhos, dos pintores e dos poetas), que lhe

321 Cf. no Hermótimo as passagens em que há esta comparação com imagens: 19, 26-27, 33, 51; cf. também a

comparação de Peregrino com a estátua de Zeus: Sobre o fim de Peregrino, 6.

322 LUCIANO, Hermótimo, 52. 323 Idem, 69. 324 Idem, 64. 325 Idem, 68. 326 Idem, 47.

confere pura liberdade de criação e de manuseio dos materiais da tradição, espaço esse definido em relação de alteridade com os discursos verdadeiros, submetidos ao princípio da verdade, ou seja, filósofos, historiadores e oradores não seriam livres como os poetas, pintores e sonhos; o estatuto destes últimos e do discurso luciânico, desdobrado e revelado por uma poética da alteridade, seria, portanto, da ordem do ficcional.

Quando se trata, não obstante, de questões religiosas, a estratégia luciânica é vinculá- las, de alguma forma, ao lógos filosófico (e, às vezes, ao lógos médico327). O relato biográfico,

como temos argumentado, é, com efeito, o espaço discursivo eleito por Luciano (mas não o único) para abordar essa problemática a partir de um enquadramento pragmático da ação moral. O relato de um bíos fornece essa possibilidade de auferir um critério de verdade relativo à atuação prática do representante de uma dada doutrina ou crença; contemplar as ações deste numa narrativa biográfica propicia a possibilidade de um julgamento de valor conforme o seu engajamento legítimo ou fictício aos valores advogados. Por outro lado, todavia, se os prodígios forem considerados como os elementos distintivos de um relato de um

bíos de caráter aretológico, então o próprio de tal discurso viria a ser, a partir da ótica

luciância, também da ordem do ficcional – o próprio desse tipo de discurso cujo exemplar mais evidente viria a ser a Vida de Apolônio de Tiana de Filóstrato328.

Talvez seja esse tipo de tensão que caracterize o tipo de bíos elaborado por Luciano, mormente sobre as figuras de Alexandre e Peregrino, que se definem como líderes religiosos, os quais são venerados em vida e depois da morte; os pretensos prodígios (terástia) realizados por eles sempre são desqualificados por Luciano, revelando-os como puros artifícios (mekhanémata), fraudes montadas para enganar um público devoto. Por conseguinte, a adesão,

327 Cf. BRANDÃO, 1990. 328

Cf. VAN UYTFANGHE, 1993, p. 156-157; cf. Também ELSNER, 1997, p. 22-37 [ELSNER, John. Hagiographic geography: travel and allegory in the Life of Apollonius of Tyana. IN: The Journal of Hellenic Studies, v. CXVII, 1997].

mesmo sendo alvo de uma encenação cujo julgamento na esfera do si mesmo resulta menos num assentimento do que num quadro comparativo de todas as perspectivas envolvidas, deve ser buscada segundo a esfera humana do si mesmo, sem o concurso da divindade (katà sautòn

áneu theoû)329

. Com efeito, parece ser, segundo a via argumentativa do Hermótimo, danosa para a atividade judicativa do si mesmo a dependência de uma instância divina, cuja ação seria semelhante à de um Deus ex machina que resolve tudo no final; a expressão é mencionada curiosamente no Hermótimo, não em relação à adesão religiosa ou filosófica, mas com referência à contra-conversão de Hermótimo operada por Licino330

; volta-se à vida comum como quem volta à sobriedade, saindo-se do estado de embriaguez provocado pela afecção de tais discursos, no caso, pelo páthos de uma adesão absoluta e não crítica a uma seita filosófica (que também pode ser religiosa).

Aquilo que é encenado nos relatos biográficos luciânicos e que é o traço distintivo de um discurso que suscita a adesão (o engajamento sério ou dissimulado) diz respeito ao páthos, à afecção ocasionada por um tal tipo de lógos, portador de um phármakon, uma droga destrutiva (pharmákoi olethríoi)331

. Os filósofos, dessa forma, são temidos como cães raivosos (toùs lyttôntas tôn kynôn), da mesma forma como Luciano temera ser despedaçado pelos cínicos admiradores de Peregrino (hypò tôn kynôn)332.