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As escolhas matrimoniais entre crioulos e africanos

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Escravos casados segundo os tamanhos das escravarias São Tomé das Letras (1840-1870)

2.3 As escolhas matrimoniais entre crioulos e africanos

Como qualquer casamento pressupõe sempre uma estratégia, para além dos limites impostos pela demografia e pela vontade senhorial, devem-se levar em consideração as predileções dos cativos. Refiro-se a fortíssima tendência aos padrões matrimoniais endogamicos e exogamicas escolhidos pelos escravos. Ou seja, havia espaço para escolhas, o que significa dizer que as preferências e restrições por parte dos mancipios também tinham sua parcela de responsabilidade na produção das relações endogamicas e da exogamicas 164.

Com base nestas questões, faremos uma analise sobre as relações matrimoniais de crioulos e africanos pertencentes a vários planteis escravista da Freguesia de São Tomé das Letras. O objetivo é perceber se há variações no que diz respeito à escolha do cônjuge, principalmente observada sob o prisma da naturalidade que poderia ensejar possibilidades de aliança diferenciadas.

O fato de não contarmos com designações menos genéricas do termo africano, não nos permitiu inferir acerca das escolhas no tocante ao casamento endogamia ou exogamico por etnias. Tanto sequência, foram contraídos 123 matrimônios pelos cativos na região entre os anos de 1840 a 1870. Para estes casais de cativos, foram mencionadas 81 referências as suas naturalidades. Os homens africanos e as mulheres crioulas eram a maioria, respectivamente, 41 e 58, seguidos por 40 crioulos e 23 africanas. Abaixo segue um quadro das relações maritais entre estes mancipios de distintas naturalidades

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Sobre a forte tendência para a endogamia entre os escravos em regiões e períodos distintos, cf. FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A paz das senzalas..., p. 147-152 e GUEDES, Roberto. Egressos do cativeiro...,p. 159-170.

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Tabela nº 8

Uniões matrimoniais entre os cativos por etnias na Freguesia de São Tomé das Letras (1840-1863)

Crioulos x Crioulas Crioulos X Africanas Africanos x Africanas Africanos x Crioulas Total 35 5 17 24 81 43,2% 6,1% 21% 29,7% 100%

Fonte; Arquivo da Cúria de Diocesana de Campanha. Registros paroquiais de casamento da Freguesia de São Tomé das letras 1840-1870.

De acordo com que esta exposta na tabela n° 10, podemos notar que as relações matrimoniais endogamias era algo significativo nas vidas dos cativos nascidos em terras brasileiras. Principalmente para os homens nativos que casaram-se com mulheres da mesma origem. Nota-se que se uniram a pouquíssimas nubentes vindas do outro lado do atlântico, nisto apresentaram um o maior padrão de endogamia entre os escravos que tiveram suas uniões legitimadas pela igreja.

Provavelmente a maioria destes nubentes crioulos não queria correr o risco de se envolver com pessoas que ainda precisavam se adaptar aos novos códigos culturais e morais da região, pessoas que talvez, não contribuiria para ajuda-los a enfrentar as hostilidades da vida em cativeiro. Portanto, em consequência desta política interna na senzala, a maioria das mancipais africanas teve que se unir mais aos cônjuges da mesma procedência.

Verificamos que houve cinco uniões (6,1%) entre homens crioulos e mulheres africanas. Os motivos destas uniões consistem no fato de estes cativos de procedência distintos encontrarem-se resididos em pequenas posses. Possivelmente, tanto os cativos nascidos no Brasil quando as africanas viam-se obrigados a unir-se entre si, por conta da limitação do raio de escolha que estava circunscrito a uma pequena propriedade. Como eram impedidos de contrair matrimônios com escravas de outras propriedadesos crioulos tinham poucos opções comparado aos outros que cativos que viviam em planteis escravista maiores.

86 Enquanto as mulheres crioulas, estas se uniram mais aos cativos da mesma origem, mas não podemos desconsiderar que uma parcela significativa destas escravas envolveu-se com vários escravos oriundos do continente africano. E sobre estas uniões faça-se uma pergunta, por que as nativas casaram-se com os africanos? Diante desta indagação, iremos analisar os motivos que levaram as crioulas a se uniram aos além- mares.

Rômulo Andrade, em seu estudo sobre Juiz de Fora do século XIX, encontrou uma exogamia praticada em maior número por homens africanos casados com mulheres crioulas. Segundo o historiador, o que ocorreu não foi uma preferência por parte dos cativos, a demografia desequilibrada da plantation desfavoreceu o africano, que não encontrou dentro das posses um possível cônjuge da mesma origem. O pesquisador demonstrou ainda que os africanos tinham idade mais avançada que as crioulas, “praticamente todas já casadas (com os grupos, em quase sua totalidade) ou enviuvadas”. Outra observação feita por Andrade para explicar os casamentos entre escravos de origem diferente esta nas limitações impostas pelo sistema escravista, que levava africanos e crioulos “a recorrer às ‘sobras’ do sexo”165.

Retomando aos dados que foram encontrados na Freguesia de São Tomé das Letras, verificamos que no 1º capitulo, o desequilíbrio sexual nos planteis escravistas da região não eram algo tão acentuado, quantidade de homens e mulheres cativas nestas posses apresentou percentuais muito próximos. Na população escrava da região, os homens demonstraram uma porcentagem de 57,1% e as mulheres de 42,9%. Em termo de uniões maritais, havia quase uma mulher para cada homem.

No que diz respeito à idade dos nubentes de procedências distintas, verificamos que a maioria dos africanos eram mais velhos do que as crioulas, somente três além- mares uniram-se as nativas mais velhas. Em media, os escravos vindos da África, eram 8 anos mais velhos do que as cativas nascidas no Brasil. Constatamos que a media de idade dos cônjuges africanos variava em torno de 26,4 e para suas nativas esposas girava em torno 18,3. A idade avançada destes nubentes africanos pode ser um dos fatores que pesaram sobre as escolhas das nubentes crioulas. Observando as lista de matriculas de escravos que se encontra anexadas nos inventários da região, descobrimos que muitos destes contraentes africanos chegaram novos na região. Na referida

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ANDRADE, Rômulo Garcia de. “Limites impostos pela escravidão à comunidade escrava e seus vínculos de parentesco: Zona da Mata de Minas Gerais, século XIX” (Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 1995), p. 276.

87 documentação foram descritos da seguinte maneira, “vieram pequenos de sua nação”. Com base na media de idade dos homens africanos, nota-se que estiveram resididos na região por muito tempo, e com isto conseguiu se aclimatarem as novas condições socioculturais do cativeiro. A exemplo disto, temos o caso Antônio Benguela de 44 anos, roceiro, casado com Vicência crioula, natural de São Tomé das Letras, ambos eram cativos do senhor José Gonçalves de Goês. Na lista de matricula de escravo anexada no inventario deste senhor, Antônio Guine, é referido da seguinte forma, “veio pequeno de sua nação”.

Seu matrimonio foi oficializado no ano de 1842, nesta época este africano encontrava-se com 22 anos de idade e sua esposa Vicência Crioula com 16. Este casal de origem distinta, ao longo do tempo tiveram 5 filhos, Cândida, pajem de 7 anos, Malaquias solteiro, roceiro de 11 anos, Vitoria solteira, cozinheira de 14 anos, Barbara solteira de 18 anos e os mais velho, Tomé roceiro, solteiro de 22 anos.

Analisando o testamento do senhor José Gonçalves de Goês podemos constatar que Antônio Benguela foi um dos primeiros cativos a chegar a sua propriedade, presumimos que este cativo tenha vivido na região, por mais de três décadas. Sendo assim, adquiriu tempo suficiente para ter apreendido e conhecido os códigos de conduta da sociedade em que vivia e os limites para agir e se comportar perante os outros, no qual é a maneira mais propicia de maximizar ganhos e reduzir perdas.

Portanto, tendo mínimo conhecido sobre estas praticas sociais, Antônio Benguela teve plenas condições de oferecer uma vida estável para a sua esposa e filhos. Tanto é que este africano e sua família conseguiram permanecer juntos por muito tempo, mesmo depois da morte de seu senhor.

Diante deste pequeno exemplo, podemos sugerir que a experiência de vida deste cativo africano que por muito tempo povoou os planteis escravista da região, teve um enorme peso na escolha matrimonial de Vicência crioula.

Outro dado que pode elucidar estas relações, é a proximidade cultural que havia entre africanos e crioulos. A maioria das mulheres crioulos que se uniram aos além- mares eram filhas de pais africanos, somente uma aparece como filha de mãe crioula. Percebe-se que estas contraentes que nasceram na Freguesia de São Tomé das letras eram descendentes diretas dos africanos. De certo modo, isto poderia ter contribuir para a formação de laços familiares entre cativos de procedências distintas.

A experiência de vida familiar destas mulheres crioulas de primeira geração quase sempre era diferenciada daqueles das gerações seguintes; ela comumente se dava

88 no seio da comunidade africana de seus pais. O crioulo de primeira geração nascia, crescia, se socializava, aprendia os ensinamentos e os comportamentos culturais oriundos dos membros da comunidade africana, se afeiçoava a ela e por isto não era rara a edificação de relacionamentos afetivos e familiares entre os seus membros. E se tratasse de negros libertos ou livres, esta interação se dava de forma ainda mais efetiva.

Em matéria de casamento, estas escravas nativas se destacaram no mercado matrimonial da região, entre todos os cativos, foram as que mais se casaram. Isto se justifica pela sua disposição em contrair uniões com indivíduos de origens distintas. Além do mais, estes dados podem sugerir que estas escravas nativas, teriam conquistado um lugar especial na população escrava da Freguesia, pois com seus cônjuges vindos do outro lado atlântico, interagiam e integravam aos valores sociais da região.

Além destes dados, procuramos observar em quais tamanhos de escravarias que os nubentes crioulos e africanos estavam distribuídos. As uniões endogâmicas e exogâmicas foram praticadas pelos cativos em todas as faixas de planteis escravistas, agora nos restas demonstrar a frequência destas uniões nas distintas posses escravas da Freguesia de São Tomé das Letras.

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Gráfico nº 7

Fonte; Arquivo da Cúria de Diocesana de Campanha. Registros paroquiais de casamento da Freguesia de São Tomé das letras 1840-1870.

Pois bem, o conhecimento dos dados expostos no Gráfico n°8 permite visualizar que as uniões endogamias e exogamicas entre crioulos e africanos ocorreram em maior numero nos grandes planteis escravistas da região de São Tomé das Letras. Nas demais faixas de planteis estas uniões foram poucos contraídos. Portanto, quando maior as escravarias, maior será a proporção de casamentos entre escravos de iguais e distintas naturalidades. Mas, nestas unidades de grande porte, a uniões entre crioulos das mesmas origens, foi superior a dos africanos e destes com as crioulas. Apenas nos planteis de 20 a 40 cativos que os nubentes crioulos (as) foram superados pelos outros casais.

Os laços maritais entre os homens africanos e mulheres crioulas se mostraram expressivos nas unidades escravistas da região. Apesar de não superar o numero de uniões dos casais crioulos, contraíram mais matrimônios dos que os outros tipos de casais (africanos x africanas / crioulos x africanas). Nas relações matrimoniais por naturalidade, os além-mares e as nativas foram os segundo casais que mais formalizaram suas uniões maritais nas propriedades escravista da Freguesia de São Tomé das Letras.

Portanto, podemos compreender que as relações matrimoniais endogamicas 0 2 4 6 8 10 12 14 1 a 10 escravos 10 a 20 escravos 20 a 40 escravos + 41 escravos

Relaçoes matrimoniais entre Crioulos e Africanos, segundo o tamanho dos Planteis - São Tomé das Letras (1840-1870)

Crioulos X Crioulas

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