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As estâncias

No documento 2006SueliMariadaSilva (páginas 54-57)

As estâncias no princípio eram apenas locais de repouso e recuperação, ao longo dos caminhos de tropas. Dessas paradas e pousos, surgiram instalações mais definitivas. Os povoadores dos campos precisavam de lugares onde pudessem fixar moradia para poderem cuidar das criações e protegê-las. Inicialmente se construíram os currais para a encerra do gado, posteriormente outras dependências que permitissem a moradia. As estâncias foram as células vivas do organismo social rio-grandense. Elas resumiam a vida da população.84

As primeiras estâncias de tropeiros, luso-brasileiros, começaram a aparecer no litoral, ao longo do Caminho de Laguna para a Colônia do Sacramento. Essas estâncias marcaram o início do povoamento com a finalidade de exploração da pecuária. Antes delas existia somente a caça ao gado xucro que vivia solto nos campos.

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BARBOSA, Fidélis Dalcin. Op. cit., p. 312.

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RIBEIRO, Cleodes Maria P. J.; POZENATO, José Clemente. Op. cit., p. 29.

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Os primeiros estancieiros eram lagunenses, atraídos para a faixa litorânea, entre o Mampituba e a Barra de Rio Grande. Depois da fundação de Rio Grande, em 1737, propagaram-se as estâncias na fronteira do Rio Grande.

As autoridades portuguesas, desde 1789, vinham concedendo sesmarias ao sul do rio Piratini. Uma vez conquistado o litoral, as sesmarias avançaram pelas margens do Jacuí. A partir do Tratado de Madri, em 1750, as concessões de sesmarias avançaram para o interior.85

Nas estâncias viviam reunidos parentes, amigos, peões, escravos negros, além dos posteiros ou agregados que podiam morar num pedaço de terra, cultivá-lo e criar umas poucas cabeças de gado, em troca da prestação de serviços ao estancieiro.

Na vida campeira, em lides normais, patrão e empregados eram muito semelhantes, os costumes extremamente simples e rústicos, a sobriedade das fazendas beirava à pobreza: poucos eram os móveis, os utensílios domésticos escassos, seus moradores possuíam pouca roupa. Limitava-se ao uso dos bens produzidos em casa.

Os estancieiros, donos de latifúndios e de milhares de cabeça de gado, tinham rendimentos baixos e com isso pouco poder aquisitivo. Primavam pela simplicidade de hábitos e costumes, só não demonstrando modéstia no montar: encilhava os mais belos e os melhores cavalos, e cobria de prata e até ouro seus arreios e acessórios de montaria.

As estâncias dos Campos de Cima da Serra foram, talvez, as que mais conservaram, por mais tempo, as características das estâncias primitivas, por viverem isoladas e por dever bastar-se a si mesmas. Nas estâncias era produzido tudo o necessário para a subsistência: alimentos, agasalhos, móveis, veículos, arreamentos, sabão, velas de iluminação, fumo etc. O que não era possível ser produzido em casa ou na região, vinha de fora, como o sal, as armas e algumas ferramentas.86

O dinheiro era sempre muito escasso, sendo conseguido através da comercialização de poucos produtos como: couros, sebo, erva-mate, lã, crina de animal, chifres. A venda de mulas para os tropeiros que vinham do centro do País se constituía na maior fonte de lucros. Em épocas remotas, junto com as mulas e cavalos, era possível vender gado de corte, em pé, que eram conduzidos para Minas Gerais.

No final do século XVIII e início do século XIX, com o desenvolvimento das charqueadas, em que o charque gaúcho conquistou mercados no centro e nordeste do País,

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Id., ibid., p. 40.

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foi que a venda de gado bovino gordo se transformou na principal finalidade da pecuária rio-grandense.

Nas estâncias a produção agrícola era muito reduzida. Embora contassem com a fertilidade natural da terra e do clima temperado, não havia entre os estancieiros a tradição agrícola. Os instrumentos de trabalho na lavoura eram extremamente rudimentares, desconhecia-se o emprego de adubos naturais. Todavia, o principal motivo da limitação na expansão das lavouras, era sem dúvida, a invasão dos animais que viviam soltos. Não havia arame e os cercamentos mais comuns eram as taipas de pedras que exigiam muito trabalho e tempo para serem levantadas. Faziam-se então roças dentro do mato, circundadas por tranqueiras de madeiras das árvores derrubadas. Além de proteger as plantas contra o gado e outros animais, as roças aproveitavam a fertilidade natural das terras de mato.

Cultivava-se o milho, mandioca, batata doce, feijão, trigo e demais produtos. A agricultura fazia-se com a participação da mão-de-obra livre, os peões, e também escrava. As colheitas proporcionavam não só alimentação das pessoas, como também dos animais domésticos. “Sem milho, sem mandioca, sem batata doce, não havia porco gordo nem galinhas, nem vacas de leite e animais de trabalho durante o inverno”.87

No final do século XIX e início do século XX a criação de porcos, que nas estâncias estava voltada somente para o consumo interno, adquiriu um novo significado para a economia dos estancieiros, colonos e comerciantes, agregando novos recursos financeiros. Com o processo migratório, principalmente de italianos e seus descendentes, no Rio Grande do Sul e com o desenvolvimento do comércio da banha, esses animais, criados no campo, passaram a ser adquiridos por tropeiros e trazidos para as áreas cobertas de florestas, principalmente florestas de araucárias, que no inverno produziam o pinhão, utilizado como um importante alimento para a engorda dos porcos. Posteriormente esses porcos eram vendidos para os matadouros e frigoríficos da região e até de outros estados brasileiros. Esse significado à economia será mais bem compreendido no próximo capítulo, quando abordaremos “o tropeirismo de porcos”, na região das matas do município de Lagoa Vermelha.

É inegável que o tropeirismo, apesar de ter provocado grande retirada de tropas de muares e bovinos do Sul para outras regiões do País, contribuiu enormemente para o surgimento de povoações nas regiões por onde passavam os Caminhos das tropas e por

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inserir novos costumes aos hábitos locais. O que muito bem está registrado por Ribeiro e Pozenato e podemos conferir na obra “Caminhos & Passos”:

“Como lugar obrigatório de passagem de tropas, de mulas e, mais tarde, de gado, as duas margens do rio Pelotas próximas do passo do Pontão guardaram fortes marcas culturais dessa presença, algumas ligadas à própria atividade do tropeirismo, outras como decorrência de costumes trazidos de outras partes do País, por tropeiros e peões que terminaram por se radicar no local ou nas suas proximidades. [...] alguns costumes dos tropeiros passaram, a se incorporar aos hábitos locais, seja na vestimenta, na culinária, nos jogos e nas diversões e até mesmo em práticas religiosas, podendo ser ainda hoje observadas. [...] na culinária o uso do charque cozido na brasa, o revirado de feijão, a paçoca, o arroz de carreteiro, o café de chaleira [...] o artesanato do couro e de apetrechos de montaria”.88

2.4 A produção econômica da região nas

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