2. A Organização das Nações Unidas e os direitos humanos
2.1. A importância do Conselho de Direitos Humanos
2.2.2. As etapas do processo da Revisão Periódica Universal
Após a identificação do papel, princípios e objectivos da RPU, coube definir as fases e periodicidade do processo de revisão, bem como as respectivas funções e responsabilidades de cada participante.
Neste contexto, anualmente teriam lugar três sessões de revisão do Working Group, que examinaria 16 Estados, e, assim, findos os quatro anos do primeiro ciclo da RPU, 48 Estados teriam sido examinados.
No que concerne à documentação a ser utilizada em cada uma destas sessões, foi estabelecida uma abordagem tridimensional, isto é, seis semanas antes da sessão de revisão de cada Estado, deveriam ser submetidos três relatórios fundamentais: o relatório elaborado pelo próprio EsR– que não deveria exceder as 20 páginas; a compilação de informação preparada pelo ACNUDH, correspondente ao trabalho desenvolvido pelos
48 As ONG têm que ser acreditadas pelo CESNU para que possam assistir às sessões do Working Group.
49 Freedman, R. (2011b), op. cit., p. 300.
19 mecanismos convencionais e procedimentos especiais das Nações Unidas50 – não podendo exceder as 10 páginas; e, por último, o relatório preparado pelo ACNUDH, referente à informação disponibilizada pelos denominados stakeholders, isto é, ONG e especialistas independentes – relatório também limitado a um máximo de 10 páginas.51
O limite de páginas estabelecido pelo CDH é um factor importante, pois um relatório maior exigiria mais tempo de análise e, por consequência, diminuiria o número de revisões estatais por sessão. Por outro lado, um tão reduzido número de páginas, pode levar também a que determinados problemas de direitos humanos não recebam a devida atenção.
De modo a facilitar a submissão dos relatórios estatais e a uniformizar o seu conteúdo, o CDH estabeleceu um manual de orientação, através da Decisão n.º 6/102,52 datada de 27 de Setembro de 2007, o qual indica que os relatórios devem incluir, por exemplo, o histórico do país – a nível institucional e normativo – sobre a promoção e protecção dos direitos humanos, desafios e conquistas na sua implementação efectiva, bem como identificação de políticas, iniciativas e compromissos nacionais em matéria de direitos humanos.53
Cada sessão de revisão é conduzida por um Working Group, liderado pelo presidente do CDH e composto por todos os seus Estados-membros, pretendendo-se, deste modo, assegurar a participação de todos, sem retirar tempo às sessões do CDH para a discussão de outros assuntos.54Além disso, cada sessão de revisão é igualmente constituída por um painel distinto de Estados – denominado Troika –, responsável por preparar a sessão de revisão de determinado Estado-membro, transmitir-lhe as questões submetidas por escrito pelos restantes membros à fase do diálogo interactivo e, ainda, ajudar na elaboração do relatório final do Working Group.55
Durante o primeiro ciclo de revisão, a fase de diálogo interactivo teve a duração de três horas, onde a cada EsR foi atribuída uma hora para apresentar o seu relatório
50 Toda a informação reunida pelos stakeholders deveria ser entregue ao ACNUDH num período de seis a oito meses.
51 A introdução desta abordagem tridimensional permitiu diferenciar o trabalho da RPU dos outros mecanismos da ONU.
52 Cf. HRC/DEC/6/102, de 27 de Setembro de 2007, referente ao acompanhamento da Resolução n.º 5/71 do CDH, pp. 1-2. Acedido Dezembro 10, 2016, em http://ap.ohchr.org/documents/E/HRC/decisions/A_HRC_DEC_6_102.pdf.
53 Cf. Vengoechea-Barrios, J., op. cit., pp. 108-109.
54 Cf. Freedman, R. (2011b), op. cit., p. 301.
55 A Troika é composta por um representante de três Estados-membros de diferentes grupos regionais, eleitos por sorteio. As modalidades e práticas da Troika e do Working Group foram definidas pelo presidente do CDH, na sua declaração de 9 de Abril de 2008.
20 nacional e responder a perguntas orais pronunciadas durante a sessão, bem como a questões escritas submetidas antecipadamente. As restantes duas horas foram distribuídas pelos Estados-membros do CDH, em períodos de três minutos, e os restantes Estados participantes, em períodos de dois minutos, por forma a apresentarem os seus comentários, questões e/ou recomendações.56
Numa segunda etapa do processo de revisão, a Troika elabora – nos dois dias seguintes à sessão de revisão – o relatório final que deverá ser submetido ao Working Group e, posteriormente, ao CDH, na sua sessão plenária trianual. O relatório consistirá num sumário de todo o processo de revisão, recomendações recebidas e compromissos assumidos pelo EsR.
A terceira e última etapa do processo da RPU consiste na adopção do relatório final pelo Working Group e pelo CDH. Os EsR têm dois minutos para apresentar as recomendações rejeitadas e aceites, incluindo as reservas sobre as recomendações recebidas. De igual modo, durante esta fase podem ser colocadas as questões e os problemas que não foram suficientemente abordados durante a fase do diálogo interactivo. Os Estados-membros do CDH, os restantes Estados participantes e, especialmente, os stakeholders podem efectuar comentários sobre o desfecho do processo de revisão. Estas intervenções serão resumidas no relatório da sessão do CDH e incluídas em anexo ao relatório final do Working Group que, posteriormente, será adoptado formalmente pelo CDH.
No ciclo de revisão subsequente serão avaliados os progressos e os desafios encontrados por cada Estado na implementação das recomendações aceites. Este processo de acompanhamento da implementação das recomendações é crucial para o sucesso da RPU, pois determina a eficácia e a credibilidade do mecanismo e, além disso, identifica os Estados que realmente estão empenhados na promoção e no fortalecimento dos direitos humanos.
A comunidade internacional, os stakeholders e os mecanismos de direitos humanos da ONU podem auxiliar o EsR neste processo de implementação, sempre que o Estado assim o consinta. Se, no entanto, o EsR não possuir recursos para implementar as recomendações aceites, pode candidatar-se aos fundos da RPU, seja o Voluntary Fund for Financial and Technical Assistance for the Implementation of the Universal Periodic
56 Na semana anterior à sessão de revisão do Working Group, os Estados devem inscrever-se no Palácio das Nações, em Genebra, para participar no diálogo interactivo.
21 Review, seja o Voluntary Trust Fund for Participation in the Universal Periodic Review.57 O primeiro fundo tem como propósito geral “to facilitate the participation of developing countries, particularly least developed countries, in the universal periodic review mechanism”,58 servindo, em termos concretos, para financiar as viagens de delegações a Genebra, a fim de apresentar o relatório nacional, inscrever o Estado no diálogo interactivo, assistir às sessões da RPU ou ocupar o seu lugar como membro do Working Group ou da Troika.59 Por sua vez, o segundo fundo pretende ser “a source of financial and technical assistance to help countries implement recommendations meaning from the universal periodic review in consultation with, and with the consent of, the country concerned”.60
Relativamente aos EsR que recusem cooperar com a RPU, a citada Resolução n.º 5/1 do CDH de 2007, apenas determina que o CDH “will address, as appropriate, cases of persistent non-cooperation with the mechanism”.61 No nosso entender, esta é uma medida muito fraca para dissuadir futuros Estados infractores a não cooperarem com o mecanismo. Apesar de ser difícil identificar o passo concreto a adoptar, o CDH deve ser mais transparente e directo quando se trata de proteger os direitos humanos e de corrigir o comportamento dos seus membros.
2.2.3. A importância da Revisão Periódica Universal e os desafios da protecção dos