2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
2.2 As etapas do processo
A fim de definir os passos que foram adotados durante a pesquisa, continuo abordando como foi empreendida cada fase do trabalho. Inicialmente, foi necessário estabelecer critérios para a escolha dos participantes da pesquisa.Comojá informado, esses eram alguns egressos do Curso de Música/Licenciatura da UFCA. Após sete anos de atuação como docente neste curso, tínhamos já quatro turmas formadas, novos professores de Música que saíam para o início de sua carreira docente. Assim, no intuito de administrar a seleção dentre estes ex- graduandos, estabeleci alguns requisitos. Primeiro, era ideal que os egressos participantes da pesquisa tivessem, antes de qualquer coisa, interesse em colaborar com a mesma. Segundo, para participar da pesquisa era fundamental que esse professor tivesse realizado toda a Licenciatura em Música na UFCA. Terceiro, era essencial que esse sujeito estivesse atuando na Educação Básica, foco precípuo deste estudo.
Iniciei, então, uma busca com nossos ex-alunos a fim de encontrar pessoas com o perfil acima estabelecido. Para isso, me vali de contatos via telefone, whatsapp, email ou pessoalmente. Nestas ocasiões, os próprios ex-alunos me informavam onde determinado colega estava atuando, se na Escola Básica, ou não. Descobri também que alguns egressos haviam mudado de cidade e ingressado em novos cursos superiores. Outros simplesmente decidiram não prosseguir com a carreira de professor de Música, optando por outras profissões. É o caso de uma de nossas ex-alunas que decidiu ingressar nas Artes Cênicas.
Após esse levantamento, constatei que, dos professores que concluíram o curso no início de 2014, nove atuavam em escolas de Educação Básica – esses eram alunos da primeira turma formada. Da turma que concluiu o curso no início de 2015, não havia representantes docentes neste nível de ensino até aquela época, período em que se deu o início desta pesquisa. A seguir, Josso, dá indicações quanto ao número de participantes da pesquisa, podendo estes se configurarem em “[...] pequenos grupos (com nove/dez pessoas)” (2004, p. 114), “[...] organizados em grupos de três ou quatro, conforme o número total de participantes” (2007, p. 421). Portanto, um grupo de nove é uma quantidade adequada para o tipo de trabalho proposto pela abordagem História de Vida.
Esses nove professores, ao serem consultados quanto ao interesse em participar da pesquisa, mostraram-se bastante empolgados em colaborar. Tínhamos, portanto definido um grupo de trabalho. Por uma questão de organização, foi necessário determinar questões relacionadas à logística dos encontros do grupo. Foi preciso definir o local de encontro, as
datas dos encontros, a duração dos encontros, o período de tempo em que o grupo se reuniria, entre outros. No entanto, dentre esses itens, a questão do tempo parecia ser a mais difícil de se definir. Segundo Josso (2004):
Se a organização das fases ou etapas do cenário são grosso modo satisfatórias, a temporalidade,emcontrapartida, não parece sê-lo. Parece que a fase de compreensão e de interpretação das dinâmicas apresentadas nas biografias necessitaria de um tempo mais longo [...] É, no entanto, difícil estabelecer a relação, nesta constatação, entre as necessidades de cada um para refletir sobre um material e a mobilização relativa a uma tarefa como essa, realizada no momento em que os participantes estão envolvidos com outros trabalhos, além do seminário (p. 129 – grifos da autora).
Quando se trata da elaboração de História de Vida, há certa complexidade em determinar, com exatidão, o tempo que duraria cada etapa, principalmente porque cada participante tem o seu tempo particular. Há também o fato de que os participantes tinham inúmeros outros afazeres e não se dedicavam exclusivamente a este projeto. Portanto, uma agenda de encontros foi definida, mas essa permitia alguma flexibilidade, de forma a contemplar as necessidades do grupo, especialmente em relação a fatores imponderáveis que, certamente, surgiram (por várias vezes, imprevistos aconteceram, impossibilitando o encontro de determinado dia acontecer, modificando nosso planejamento). Definido o calendário de encontros, iniciamos as atividades, as quais começaram em 2015 e se prolongaram até 2016.
O primeiro encontro do nosso grupo foi um dos mais importantes. Neste, reservei “[...] um períodode apresentação do tema da reflexão biográfica” (JOSSO, 2007, p. 421). Nessa ocasião, a fim de clarificar aos participantes os detalhes da abordagem História de Vida, expus ao grupo assuntos sobre os quais venho discorrendo neste capítulo. Naquele momento, buscava nivelar entre os participantes o saber sobre esta forma de pesquisa, seu histórico, características, propostas, etc. Para a maioria desses, a abordagem História de Vida era algo completamente novo. Apenas um dos participantes tinha conhecimento em relação ao assunto, visto que, naquela época, era aluno de um mestrado profissional da Universidade Federal do Ceará, no qual essa temática era bastante abordada. Por isso, busquei esclarecer para os demais, da melhor forma possível, as questões sobre essa abordagem.
Os grupos deveriam se organizar em torno de uma determinada temática. Portanto, para Josso (2004, p. 30), “[...] a maior parte das vezes a história produzida pela narrativa limita-se a uma abertura que visa fornecer material útil para um projeto específico.” (grifos nossos). Nesse sentido, já nesse primeiro encontro, foi imprescindível apresentar aos participantes a temática sobre a qual as narrativas versariam. Para isso, informei aos mesmos
o objetivo geral desta pesquisa: Compreender como a formação adquirida no Curso de Licenciatura em Música da UFCA se relaciona com a docência no Ensino Básico observando dois parâmetros fundamentais: a formação musicológica e a formação pedagógica.
Esperava-se, à vista disso, que os componentes do grupo aliassem suas narrativas, aproximando-as do tema em questão, na busca de que “[...] as histórias de vida postas ao serviço de um projeto são necessariamente adaptadas à perspectiva definida pelo projeto no qual elas se inserem” (Ibidem, p. 31 – grifo nosso). Finalmente, cada membro do grupo fez suas colocações quanto à percepção que tinha sobre o tema que trabalharíamos durante o processo, assim como indica Josso (2007): “[...] os participantes são convidados a expor ao grupo o interesse que tal reflexão tem para eles, a fim de começarem a formular um projeto de conhecimento” (p. 421). Nesse sentido, todos os participantes entendiam como importante e necessária essa reflexão em relação ao curso de Música e a formação lá construída.
Tanto nos primeiros encontros, quanto em todo decorrer do processo, era imprescindível que cada membro tivesse ciência de suas funções e atividades no trabalho. Deveria haver um compromisso por parte de todos no sentido de que os afazeres propostos fossem cumpridos e os objetivos da pesquisa atingidos a contento. Josso (2004, p. 124) compartilha desta ideia ao afirmar:
Constatei igualmente a importância da negociação das tarefas não apenas no princípio do seminário, mas igualmente em cada etapa. Essa maneira de proceder não é apenas o indicador concreto do respeito pelo outro, mas mobiliza, no decorrer do processo, a responsabilidade de cada um no trabalho em curso. (grifos nossos).
Como em todo grupo, tínhamos diferentes sujeitos, cada um com suas peculiaridades. Em relação às funções individuais, percebi que alguns sempre cumpriam as atividades acordadas. Outros participantes não eram tão responsáveis. Várias vezes, deixamos de realizar algumas atividades devido ao não cumprimento dos compromissos por alguns participantes do grupo. Enfim, após a definição dessas questões, iniciou-se a fase de narração dos participantes, sobre as quais tratarei na seção seguinte.