1. PROTEÇÃO SOCIAL NA SOCIEDADE CAPITALISTA
1.3 AS EXPERIÊNCIAS ANTERIORES DE TRANSFERÊNCIA
No conjunto de sistemas de proteção social a “seguridade social” compreende previdência social, serviços públicos de saúde e assistência social (BOSCHETTI, 2012). O termo social security, utilizado nos Estados Unidos desde 1935, somente chega ao Brasil nos dicionários de língua portuguesa em 1988.
Até meados da década de 1980, a chamada seguridade social era composta em sua maior parte pela ação caritativa de instituições beneficentes. A seguridade social, desse modo, coexistia com práticas coercitivas, assistencialistas e tutelares. Ainda que na Era Vargas tivéssemos algum gérmen de seguridade social, o que o então presidente realizou foi reestruturar a caridade privada das instituições filantrópicas, reconhecendo-as como parceiras. O pobre era entendido como descapacitado, desvalido de qualificações sociais, objeto da assistência. O que nada mudou no período autoritário de 1964 a 1985.
Os anos 1980 no Brasil foram marcados pela participação popular no enfrentamento ao regime decadente da ditadura civil-militar. Os movimentos sociais dessa época estavam aglutinados em torno à transição democrática e na luta pela constituinte. Em 1988, a partir da promulgação da Constituição Federal, a visão preconceituosa sobre a pobreza passaria a se transformar. Assim, a nova constituição trataria de direitos sociais e não de benefícios caritativos aos pobres.
A constituição cidadã, assim chamada pelo deputado Ulysses Guimarães, traria em seu capítulo II uma nova visão sobre seguridade social, afirmando que ela “compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social” (BRASIL, 1988, art.194). Assim, a nova visão sobre a seguridade social estava atravessada pelas mais variadas tendências de pensamento da época. No caso da área da saúde, por exemplo, o caráter universalista teve mais êxito. Todavia, nas duas outras áreas o peso das proposições das agências internacionais foi mais forte.
Ugá (2004) afirma que o grande contingente de pessoas pobres no país dos anos 1980, era objeto de reflexão nas ciências sociais. O fim do chamado “milagre brasileiro” trouxe estagnação e desemprego, aumento da dívida externa, privatizações. O aporte teórico das ciências sociais chamava atenção as intervenções internacionais no país, via Banco Mundial e FMI. Como descrevemos anteriormente, para se adaptar as condicionalidades do Fundo Monetário Internacional o Brasil teve que aplicar diretrizes econômicas já Programadas no Consenso de Washington.
Mesmo neste cenário ruim para as políticas sociais, um cenário de desemprego e acentuação das desigualdades, surge no parlamento nacional a proposta do então senador Eduardo Suplicy, como ressaltávamos em linhas anteriores, de um Programa De Garantia de Renda Mínima (PGRM). Desse modo, foi em 1991 que o debate sobre renda mínima tomou consistência no país. Em 1993 o sociólogo Betinho criou a Ação de Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, colocando em primeiro plano a questão da fome. É neste mesmo período que surgem os já referidos Programas nas cidades de São Paulo e no Distrito Federal.
Certamente que as novas leis constitucionais levaram tempo para entrarem de fato na cultura política da sociedade brasileira. Ainda que tenha tido grande importância, o artigo 194 da Constituição Federal, só iniciaria sua efetiva ação sobre as obras sociais com a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) de 1993, que, estabelecia as bases para a Assistência Social, criaria o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e as conferências participativas de Assistência Social no Brasil (BRASIL, 1993). Vale lembrar, que, a LOAS foi sancionada somente em 2014, pela presidente Dilma Rousseff. Até este ano ela ficara em tramitação e sofreu constantes transformações na redação original. A LOAS também implementou o Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujo público alvo são idosos acima de 65 anos ou portadores de deficiência, de qualquer idade, que sejam impedidos por razões fisiológicas de ingressar no mercado de trabalho.
No ano de 1996 entra em vigor no Brasil o primeiro Programa de Transferência Condicionada de Renda, é o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). O objetivo principal deste Programa é oferecer um beneficio monetário com a condicionalidade educativa. Para receber a bolsa PETI o responsável pela criança em idade escolar deve mantê-la
estudando sem que esta venha a praticar algum tipo de trabalho infantil. A forma institucional de fiscalização é o controle de frequência escolar, que, tal como no Bolsa Família, deve ser de um 85%.
Na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, marcada pela dureza com as empresas estatais, foram criados os Programas Bolsa Escola e Bolsa Alimentação. Ambos, também Programas de transferência condicionada de renda. As condicionalidades eram nas áreas de educação e saúde.
Com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo em 2003, é implantado o Programa Fome Zero. Pensado e estruturado pelo Instituto de Cidadania em 2001, a proposta era atender a população pobre brasileira com foco no combate à fome. Tal população era definida através de um cálculo proposto pelo Banco Mundial, sendo assim, eram considerados pobres os indivíduos que vivessem com até 1 dólar ao dia, totalizando cerca de 45 milhões de pessoas no Brasil (MARQUES, 2008). Atualmente o cálculo utilizado é o mesmo.
Com a difícil implantação do Programa Fome Zero, em 2004 é sancionada a Lei/decreto de criação do Programa Bolsa Família, que, na sua primeira etapa atendia somente os municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das regiões norte e nordeste do Brasil.
Como veremos adiante, o Programa Bolsa Família, foi uma articulação de outras leis já existentes, uma espécie de racionalização da seguridade social brasileira. Ele se transformou no maior PTCR do mundo, e, hoje atende cerca de 56 milhões de pessoas pobres (BRASIL, 2014). É a principal estratégia de combate à pobreza e está vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), centralizador das ações da Assistência Social no país.