CAPÍTULO VI Diálogo entre a escola e os saberes da comunidade quilombola: a biodiversidade
6.6 As experiências da coordenadora pedagógica
Nesta seção, serão apresentados alguns aspectos referentes às experiências da coordenadora pedagógica da Escola municipal Antônio Carlos Magalhães, principalmente no que se refere à Educação Quilombola e Educação das Relações Étnico-raciais. O primeiro contato com a coordenadora aconteceu a partir de um encontro casual na própria escola, quando no momento ela estava apresentando para alguns professores/as imagens registradas num evento por ela denominado “Noite cultural” realizado na comunidade. Naquele momento interessei-me em conversar com a coordenadora entendendo que a partir desse diálogo pudessem surgir informações valiosas para o meu trabalho. Como não estava previsto esse encontro não tinha roteiro de entrevista proposto para aquele contexto, então utilizei algumas questões do roteiro da roda de conversa dos/as professores/as e outras questões que emergiam no momento.
De acordo com a coordenadora, quando começou a atuar na escola há dois anos, ainda não se trabalhava de forma direcionada os aspectos referentes à realidade da comunidade. Mesmo que a comunidade tenha sido reconhecida no ano de 2004, a equipe pedagógica ainda não tinha se estruturado para desenvolver um trabalho mais focalizado nas questões sobre as temáticas étnico-racial e quilombola. A coordenadora entende que o atual Projeto Político Pedagógico da escola não está completo e que portanto não atende a temática sobre
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quilombos e questão étnico-racial. Faltam algumas partes que, segundo ela, será concluído em breve:
A escola não tinha coordenação e quando assumi recentemente vi que o PPP estava incompleto. Falta a parte de educação ambiental, música, educação afro-brasileira e indígena, educação sexual e a parte relacionada às drogas.
A coordenadora relata que existe uma boa relação escola/comunidade, onde informa que a escola realiza três eventos culturais que contam com a participação intensiva da comunidade na organização: São João, Folclore e Consciência Negra. Para ela é muito importante desenvolver esse trabalho intenso sobre as tradições da comunidade e que para isso busca a participação dos moradores nessas questões. A coordenadora foi questionada se ela trabalha os saberes ancestrais da comunidade e se convidam membros da comunidade para falar sobre esses saberes na escola.
Pra escola não convidamos ainda, mas já trabalhamos o gênero memórias literárias nas olimpíadas de língua portuguesa no oitavo ano. Realizaram entrevistas com as pessoas mais velhas da comunidade e a partir disso foi criada a memória de cada pessoa.
A respeito do trabalho realizado pela escola sobre a identificação de tradições culturais presentes na comunidade ou sobre o resgate de valores tradicionais, a coordenadora informou que existem outros três eventos culturais que são festejados em Barreiros de Itaguaçu: Reisado; Caretas e o Dia da Consciência Negra.
A coordenadora lamenta que o reisado é uma tradição que atualmente está se perdendo, segundo ela, a participação dos jovens é bastante limitada e que “os meninos hoje não sabem cantar”. Segundo consta no relatório antropológico da comunidade, dentre os mais velhos, o Samba de Reis é uma expressão bastante disseminada e as apresentações não seguem um calendário, o que causa estranhamento de algumas pessoas de fora que estão acostumadas a presenciar tais celebrações no período dos Santo Reis Magos. No início do ano, existe uma espécie de bloco carnavalesco chamado “Os Caretas”, que consiste em jovens mascarados/fantasiados provocando os transeuntes, dando especial atenção coletiva aos que demonstrarem irritação.
O Dia da Consciência Negra acontece todo mês de novembro na escola onde na oportunidade são realizados trabalhos de dança, desfile afro e peças teatrais. Além do evento realizado pela escola, a Associação de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Quilombolas João Pereira Gomes promove uma grande festa da Consciência Negra na praça central da
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comunidade. O evento consta com exposições artísticas, gincana sobre a temática étnico- cultural local e shows musicais.
A coordenadora informou ainda que o grupo de jovens da igreja católica realizou um evento, em 2018, denominado Noite Cultural que tinha como objetivo o resgate de tradições culturais locais que atualmente não são praticadas na comunidade. Além disso, a coordenadora contribuiu com o evento trazendo outros elementos culturais relacionados à temática afro-brasileira e quilombola: Nego fugido, vaqueiro, maculelê, capoeira, frevo, a música “Identidade” do cantor Jorge Aragão e “Canto das Três Raças” (Clara Nunes).
A coordenadora foi questionada sobre como ocorre o trabalho na escola quanto a valorização étnico-cultural e quilombola:
Trabalha em algumas disciplinas, um pouco, mas o ano passado fizemos uma festa grande, onde foi trabalhado dança, desfile afro e peça teatral. Ainda houve um projeto na escola denominado “A Cor da Cultura” onde teve uma formação incompleta. Mas a escola trabalha há pouco tempo, mais ou menos uns dois anos.
Ela atribui esse pouco tempo de trabalho à carência de formação dos/as diretores/as, professores/as e outros profissionais envolvidos com a educação na comunidade. Para a coordenadora, de fato não existe uma valorização étnico-cultural na escola, as ações são pontuais e ocorrem de maneira isolada. Assim como os/as professores/as, a coordenadora reconhece a necessidade de um curso de formação em diversidade étnico-cultural.
A lei tornou obrigatória, mas os professores não têm essa formação e nem material para trabalhar. Pelo entusiasmo eu consigo, mas não como eu queria trabalhar essas questões. Uma escola que tá numa comunidade quilombola e não trabalha a cultura como deveria. Nós como professores temos muito orgulho de dizer que a gente trabalha numa comunidade quilombola, principalmente quando a gente sai por aí, quando tem algum curso. Mas a gente carece de formação na área.
Sobre o trabalho com a Lei 10.639/03, a coordenadora lamenta: “15 anos e a gente não consegue trabalhar da maneira que a lei obriga”
Desde a implementação da lei 10.639/03 tem se produzido materiais específicos e enviados às escolas, porém esse processo se esbarra em algumas questões delicadas quanto à forma como esses materiais são encaminhados à escola. Conforme já discutido em outro momento, muitas vezes a própria Secretaria de Educação desconhece a presença de escolas quilombolas na sua zona de atuação, outras vezes, se omitem de exercer seu dever público por conta de interpretações pessoais e/ou político-ideológica. Em outras situações, quando o
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material é encaminhado pelo MEC/SECADI às escolas quilombolas, o processo é feito sem o devido cuidado e sem o acompanhamento de uma sistemática formação para o uso adequado desse material.
No caso específico de Barreiros de Itaguaçu, acontece essa última situação já que a coordenadora me apresentou alguns livros didáticos disponibilizados pelo MEC/SECADI e que se encontravam no almoxarifado da escola tais como: Estórias quilombolas da coleção Caminhos das Pedras, Vol. III, Yoté: o jogo da nossa história e Minas de Quilombo. Essas constatações nos indicam que os livros sobre a educação das relações étnico-raciais são pouco utilizados, o que sinaliza essa carência de formação e acompanhamento dos/as professores/as para o uso adequado do material.
É sabido da necessidade de formação de quadros qualificados para o trato com a temática racial, para isso as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica quilombola/2012 recomendam que a articulação com universidades, ONGs, movimentos sociais, por meio de assessoria, projetos de extensão universitária, cursos modulares, seminários, palestras, poderá ser estratégias de formação de gestores/as de escola, coordenadores/as pedagógicos e professores/as que atuam em escolas quilombolas (GOMES, 2012).
Ao ser questionada se a escola contempla os saberes tradicionais da comunidade, a coordenadora foi enfática a dizer que ainda não, mas que está elaborando a temática de educação afro-brasileira que será incluída na nova versão do PPP que está em processo de atualização. Nesse sentido a coordenadora deseja uma escola que valorize a cultura local, que traga as pessoas da comunidade para dentro do espaço escolar e use os saberes que os quilombolas possuem, mas que para avançar nesse sentido é preciso uma maior formação dos/as professores/as.
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Há mais de 100 anos, famílias quilombolas vivem na região do Rio dos Macacos, no município de Simões Filhos- Bahia. Elas são alvo constante de ameaças por parte da Marinha do Brasil, que possui um condomínio na área e querem expandi-lo, expulsando os quilombolas de lá. A Marinha já promoveu perseguições, destruição de casas no Quilombo, e impede a entrada e saída de pessoas no local. Até mesmo agentes do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), responsável pela titulação de áreas quilombolas, foram impedido de entrar no Rio dos Macacos.
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CAPÍTULO VII
“Se acabar o Rio, a comunidade acabou”: a dimensão pedagógica do racismo ambiental
7.1 Introdução
O interesse em desenvolver um capítulo que versasse sobre justiça e racismo ambiental foi despertado durante o trabalho etnográfico descrito nos capítulo três e quatro. A partir de relatos dos moradores sobre as condições do Rio Verde onde quase toda sua extensão que banha a comunidade atravessa por propriedades particulares, essa condição tem provocado umas das principais problemáticas vivenciadas pelos moradores: a falta de acesso ao rio. Segundo os moradores de Barreiros de Itaguaçu, a construção de diversas barragens em diferentes pontos à montante do rio faz com que ele mal consiga escorrer até os pontos mais baixos do seu curso. Seus efeitos são percebidos drasticamente pela comunidade, uma vez que nos poucos locais de acesso ao rio que ainda possuem, o seu leito está muito abaixo do normal. A situação exposta fere o direito ao território utilizado tradicionalmente para as atividades de subsistência das famílias que vivem em Barreiros. Assim, era bastante comum a preocupação sobre o cerceamento do acesso em diferentes trechos do rio e tal situação é problematizada na comunidade, sendo constante a preocupação com o futuro deste recurso (Figura 21).
As bases do racismo, na perspectiva da modernidade, da colonialidade e do capitalismo convergem com as origens da degradação ambiental e das desigualdades sociais que recaem sobre as populações indígenas, camponesas e de matriz africana no Brasil (BARROZO; SANCHEZ, 2015). O agronegócio, a construção de barragens e a especulação imobiliária, dentre outros fatores, têm contribuído com a perpetuação do racismo ambiental e a concentração destas populações em zonas de sacrifício.
173 Figura 21- O leito do Rio Verde transpassado por arame farpado.
O racismo ambiental é entendido como:
O conjunto de ideias e práticas das sociedades e seus governos, que aceitam a degradação ambiental e humana, com a justificativa da busca do desenvolvimento e com a naturalização implícita da inferioridade de determinados segmentos da popu- lação afetados – negros, índios, migrantes, extrativistas, pescadores, trabalhadores pobres, que sofrem os impactos negativos do crescimento econômico e a quem é imputado o sacrifício em prol de um benefício para os demais (HERCULANO, 2006, p. 11).
O presente capítulo tem por intenção estabelecer um diálogo entre os campos da Educação Ambiental e da Ecologia Política, no sentido de construir uma reflexão que ajude a compreender as dimensões pedagógicas dos conflitos ambientais. Nesse sentido, pretende-se analisar as práticas educativas que emergem das situações de conflito, sobretudo, a partir das estratégias de enfrentamento e resistência nascidos das lutas sociais. A partir dessa análise será possível identificar um movimento educativo que busca valorizar a sua ancestralidade e o direito ao território quilombola.
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