5 O mercado de trabalho dos recém-diplomados em Direito
6.4. As experiências de emprego fora do Direito
No Brasil, muitos estudantes universitários conciliam estudos e trabalhos e ingressam no ensino superior alguns anos depois da conclusão do ensino médio (por exemplo, PICANÇO, 2015; COMIN; BARBOSA, 2011). Essa experiência do estudante universitário brasileiro como um todo também é observada entre os recém-diplomados em Direito desta pesquisa. Esta seção discute o papel das experiências de trabalho fora do Direito na construção dos esquemas de avaliação ocupacional.
A experiência de emprego fora do Direito pode ser classificada em duas categorias principais: 1) Bacharéis em Direito que trabalharam fora do Direito antes da conclusão do curso, mas não estão fora do campo do Direito depois de formados; 2) Bacharéis em Direito que não trabalham no campo do Direito depois de formados. Tipicamente, a experiência de emprego fora do Direito foi abandonada no início da graduação, para estagiar em órgãos públicos ou em escritórios de advocacia. Aqueles que optaram por permanecer no emprego fora do Direito têm empregos bem remunerados e com benefícios desejáveis, em comparação à média dos empregos fora do Direito.
6.4.1. Experiências de emprego antes da conclusão da graduação em Direito
A experiência de emprego fora do Direito é mais heterogênea do que a experiência no campo do Direito. Alguns entrevistados inseriram-se em ocupações de baixo prestígio e baixa renda, tais como Rui, que trabalhava como operador de telemarketing; Demétrio, operador de caixa em cafeteria; Ágata, babá; Alzira, vendedora em loja. Outros entrevistados tiveram inserções mais qualificadas, tais como Cícero, assessor parlamentar; Pascoal, policial militar; Ícaro, técnico em mecânica; Felícia, técnica em eletrotécnica; Francisco, motorista de ônibus. O salário e os benefícios do segundo grupo são maiores do que o dos advogados contratados. Excepcionalmente, Valentina estava ocupada em um cargo de elite, como diretora de grande empresa.
Além disso, as ocupações fora do Direito diferem-se em termos de tarefas laborais. Alguns entrevistados realizavam atividades de rotina que envolvem documentos escritos, tais como formulários, cartas e arquivos. Esse grupo exercia atividades semelhantes às atividades de escritório presentes no campo do Direito. Por exemplo, Virgínio trabalhava no setor administrativo de uma escola privada; Fátima trabalha em cargo comissionado como auxiliar administrativo num órgão do sistema de justiça; Teófico trabalhava no setor de rastreamento de uma empresa de
logística. Outros entrevistados não realizavam tarefas de escritório, executando tarefas de cuidado (babá), de interação (operador de telemarketing e vendedor em loja) e manuais (motorista de ônibus e técnicos).
Um esquema de avaliação que transcende a diversidade de experiências laborais fora do Direito é a de que o campo do Direito oferece experiências laborais mais desejáveis do que o mercado de trabalho dos não graduados. Por exemplo, Pascoal, ex-policial militar, saiu do emprego no último semestre da graduação. Segundo a sua narrativa, a insatisfação com o emprego de policial refere-se principalmente a conflitos éticos e ideológicos. Termos como “capitalismo”, “luta de classes”, “Estado controlador e opressor” são centrais em suas falas. A saída da Polícia Militar é explicada pelo conflito entre valores e comportamento: “Aos poucos, eu fui entendendo cada vez
mais o local onde eu ocupava, e fui percebendo que eu tinha que mudar a minha ação em relação à estrutura (social)”. Depois da graduação, Pascoal cursou o mestrado. Afirma ter tido uma
experiência mais enriquecedora, pois lhe possibilitou estar na posição de analisar e criticar a sociedade. “Ah, (a experiência de fazer o mestrado) foi maravilhosa. Não foi perfeito. Não é nada
disso. No mestrado, eu comecei a ter contato com o que eu sempre quis com o direito, que é a crítica do direito”. Pascoal concluiu o mestrado sete meses antes da entrevista, estava
desempregado e tinha poucas expectativas de conseguir um emprego como professor universitário. Rui, diferentemente de Pascoal, teve uma inserção mais precária no mercado de trabalho. Trabalhou por mais de dois anos como operador de telemarketing. Na maior parte do tempo, teve dois empregos de seis horas diárias, seis vezes por semana, recebendo um salário mínimo em cada emprego. A rotina de trabalho causava-lhe estresse. “(Me sentia) extremamente
estressado, cansado. Porque não era uma área na qual eu não queria seguir. Eu tava ali de passagem pra conseguir o meu dinheiro pra faculdade, né?”. Para ele, o emprego como advogado
contratado é mais satisfatório do que o de operador de telemarketing. Porém, Gerson aspira ingressar no setor público em cargos com remuneração em torno de dez mil reais. Sonha em tornar- se juiz.
O aprendizado é outro motivo pelo qual os entrevistados avaliam mais positivamente as ocupações jurídicas do que as ocupações fora do Direito. No entanto, não é claro se a valorização do aprendizado já estava presente no momento em que eles trabalhavam fora do Direito, ou se esse valor surgiu com a experiência universitária. Teófilo, por exemplo, afirma que, quando trabalhava no setor de rastreamento, estava “desatento à importância disso (do aprendizado)”. Por outro lado,
há vários entrevistados que justificam o trabalho fora do Direito como parte de uma estratégia para o ingresso no ensino superior. Daí, infere-se que o valor ao aprendizado já estava presente em certa medida.
Longa jornada de trabalho, tratamento desrespeitoso do patrão ou dos clientes, periculosidade e atividades rotineiras e repetitivas são outros atributos indesejáveis das ocupações dos não graduados, mas referem-se a ocupações específicas.
6.4.2. Experiências fora do Direito depois da conclusão do ensino superior
Alguns entrevistados permanecem no emprego que conseguiram fora do Direito, mesmo depois de concluir o ensino superior. Geralmente, isso se deve a vantagens de renda e de benefícios. Acreditam que estão numa situação melhor do que a dos advogados contratados, mas gostariam de inserir-se no campo do Direito, como servidores públicos ou como advogados por conta própria. Em termos de tarefas e de valor social, esses entrevistados avaliam negativamente a suas ocupações.
Um primeiro tipo de experiência fora do Direito acontece quando o bacharel ingressa numa ocupação não relacionada à sua experiência universitária. Francisco, 32 anos, começou a trabalhar como motorista de ônibus antes de ingressar no curso de Direito. Durante os seis anos e meio de graduação, ele conciliou uma rotina de quatro a seis horas de trabalho, quatro a seis horas de estágio e aulas. Depois da graduação, ele continua no emprego de motorista de ônibus em uma jornada matutina de quatro horas. À tarde, ele investe na carreira de advogado, preparando-se para o Exame de Ordem e trabalhando na captação de clientes.
Assim, como, o meu salário é proporcional, eu recebo metade do que o meu colega de oito horas recebe, porque eu sou de quatro horas. Mas, eu tenho alguns benefícios bem interessantes: plano de saúde, cesta básica, vale-refeição, vale-refeição de 600 reais - eu tenho passe livre nos ônibus. Eu tenho bastante benefícios, né? Tu perguntou como eu me sinto. Eu gosto de fazer o que eu faço. E agora depois que eu me formei, tem vários amigos meus da empresa me perguntando quando eu vou sair. Eu digo, assim, não, a minha ideia não é sair agora. Minha ideia, pode ser sair, mas só depois que eu tenho uma renda compatível com a renda que eu recebo hoje, seja certo.
Francisco, 32 anos, motorista de ônibus Embora esteja satisfeito com a renda e com os benefícios da ocupação de motorista de ônibus, Francisco avalia negativamente a estrutura de trabalho e as tarefas de emprego. Apresentar- se à empresa às cinco horas da manhã, passar longas horas no trânsito, realizar uma tarefa rotineira e interagir litigiosamente com passageiros são os principais motivos para sua insatisfação com a
ocupação atual. O entrevistado trabalha em duas linhas de inserção no campo do Direito: aprovação em concurso público e advocacia por conta própria.
No segundo tipo, a inserção em ocupações fora do Direito é resultado de experiências em estágio. Nesses casos, a distância entre as tarefas da ocupação fora do Direito e das ocupações jurídicas são menores do que no caso evidenciado por Francisco (e que também é vivenciado por outros entrevistados). Teresa é atendente em uma universidade privada. Basicamente, suas atividades de emprego são responder às dúvidas de alunos sobre o funcionamento da universidade e comunicar-se com potenciais estudantes. Ela obteve o emprego por indicação de um promotor durante um estágio. Esse promotor tinha uma posição de liderança nessa instituição de ensino superior. Ela ingressou na instituição, primeiramente, como secretária dele. Depois de um ano e meio, mudou de atividade. Teresa sente-se satisfeita com as tarefas de emprego. Para ela, o seu trabalho condiz com a sua personalidade. Considera-se uma pessoa comunicativa e sociável. Sua renda é semelhante ao dos advogados contratados, mas possui mais benefícios, como plano de saúde e desconto em cursos e em atividades físicas. Diferentemente de muitos advogados contratados, seu contrato é formal. A entrevistada sente-se satisfeita com o seu emprego. Ressente- se apenas de não estar inserida em uma ocupação jurídica.
Fátima também obteve o emprego devido ao estágio. Ela é agente administrativo em cargo comissionado em um órgão do sistema penal. Ela é uma bacharela em Direito atípica. De todos os entrevistados, tem a menor aspiração de renda. Sente-se satisfeita com os mil e quinhentos reais que recebe. Não tem o objetivo de inserir-se no campo do Direito. Seu trabalho é rotineiro em tempos normais - “é só alimentar planilha”-, mas acontecem imprevistos devido a eventos inesperados nos presídios. Gosta de seu emprego, principalmente, porque tem uma relação amistosa com os seus colegas.
Um terceiro tipo de inserção no mercado fora do Direito ocorre pelo ingresso em uma ocupação de ensino superior fora do Direito. Por exemplo, Dionísio é analista de políticas públicas, em cargo comissionado, em uma secretaria estadual. O requisito para a contratação do seu emprego é o ensino superior completo, em qualquer curso. O entrevistado obteve o emprego devido às suas relações com políticos. A remuneração de Dionísio está entre as mais altas dentre os entrevistados. Como cargos de indicação política são temporários - pois a troca de partido provoca a demissão desse pessoal -, Dionísio afirma que a não inserção em ocupações do Direito afeta negativamente
a sua carreira no longo prazo. Para ele, na sua posição atual, desenvolver uma carreira é mais difícil do que no campo do Direito.
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As pesquisas brasileiras sobre a avaliação de emprego dos recém-diplomados das classes populares mostram que os participantes avançaram em termos socioeconômicos, em comparação ao momento de ingresso no ensino superior, e preferem as ocupações atuais às ocupações anteriores à conclusão do ensino superior (CASALI; MATTOS, 2015). Os dados desta tese concordam parcialmente com essas observações. O grau de heterogeidade das ocupações anteriores ao ensino superior é elevado. Em termos de renda, somente o grupo que trabalhava em ocupações de baixo status socioeconômico (babá, operador de caixa, vendedor em loja, operador de telemarketing, etc) avançou. Os entrevistados que trabalharam em ocupações técnicas ou em ocupações de escritório estão em posições econômicas semelhantes. Posto que o emprego de advogado contratado ou o de advogado por conta própria, geralmente, não é formal e que o salário é semelhante ao dos empregos formais do mercado dos não graduados de Porto Alegre, a distância socioeconômica entre as ocupações inferiores do mercado jurídico e as superiores do mercado dos não graduados é ínfima.
Contudo, os bacharéis em Direito preferem as ocupações da sua área de formação. Como o mercado de trabalho do Direito não se resume às ocupações inferiores, existe o desejo de atuar no campo do Direito, desde que em uma ocupação que ofereça melhores condições de emprego do que a ocupação atual. Esse esquema assenta-se na percepção de que “é preciso fazer valer o diploma” e de que o campo do Direito oferece uma carreira mais gratificante do ponto de vista das tarefas e do reconhecimento.
Estar inserido fora do Direito não significa experimentar condições de emprego inferiores aos recém-diplomados que atuam na área de formação. Nesse sentido, quem está fora do Direito não pretende ingressar em qualquer posição do campo jurídico. De todas as formas de desigualdade manifestas entre os bacharéis em Direito, a diferença entre quem está fora do Direito e quem está nas posições inferiores é uma das menos significativas.