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3 A SAÚDE GLOBAL E AS RELAÇÕES BRASIL-MOÇAMBIQUE

3.2 COOPERAÇÃO E DIPLOMACIA ENTRE BRASIL E MOÇAMBIQUE

3.2.1 As experiências e políticas compartilhadas

Para a atuação na Saúde Global, muitos Ministérios da Saúde “criaram oficinas de relações internacionais e cooperação em saúde” (COITIÑO, KLEIMAN e TOBAR, 2017, p. 590). Essas oficinas se caracterizam como “unidades organizacionais que têm função estratégica (...), relacionando-se com uma ampla gama de atores envolvidos na governança global da saúde” (COITIÑO, KLEIMAN e TOBAR, 2017, p. 590). Essa oficina se materializa no Brasil através da Portaria n. 3.965 de 14 dez. 2010 originando a Assessoria de Assuntos Internacionais em Saúde (Aisa) que tem como fundamento atuar como interlocutor do Ministério da Saúde em todas as atividades referentes às relações internacionais, tanto no atendimento a demandas como na apresentação de propostas de seu interesse (COITIÑO, KLEIMAN e TOBAR, 2017). A Aisa também atuará através das orientações da política externa brasileira em saúde global, visando a cooperação estruturante em saúde. Uma de suas principais contribuições é o acompanhamento de diferentes projetos concentrados, principalmente, nos continentes africano e americano (FEDATTO, 2013).

78 De acordo com a AISA, dez projetos eram conduzidos pelo Brasil em Moçambique, no período entre 2003 e 2012, na área de saúde (LOPES e MILANI, 2014), como o Quadro 10.

Quadro 10 – Projetos de Cooperação em saúde entre Brasil e Moçambique (2003 – 2012).19

Título do Projeto Valores (US$) Instituição executora Instituição financiadora 1. Estudo de viabilidade técnico-

econômico para a instalação de

fábrica de medicamentos antirretrovirais e outros. 500.000,00 Fiocruz ABC 2. Capacitação em produção de medicamentos antirretrovirais. 1.009.208,00 Fiocruz ABC

3. Apoio aos programas de saúde infantil, reprodutiva e do adolescente – Banco de Leite.

519.080,00 Fiocruz e Instituto Fernandes Figueira (IFF)

ABC

4. Apoio aos programas de saúde infantil, reprodutiva e do adolescente – Núcleo de Tele- Saúde, Ensino a Distância e Bibliotecas.

317.200,00 Fiocruz e IFF ABC

5. Apoio aos programas de saúde infantil, reprodutiva e do adolescente – Atenção à saúde materna e neonatal e fortalecimento de ações de promoção da Saúde do adolescente.

- Fiocruz e IFF ABC

6. Fortalecimento institucional do órgão regulador de medicamentos de Moçambique como agente regulador do setor farmacêutico.

453,236,00 Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)

ABC

7. Fortalecimento das ações de prevenção e controle do câncer em Moçambique.

394.698,00 Instituto Nacional do Câncer (INCA)

ABC

8. Apoio ao desenvolvimento de política nacional de saúde oral em Moçambique: pesquisa em saúde bucal na capital Maputo.

329.340,00 Secretaria de Atenção à Saúde (SAS)

ABC

9. Apoio ao sistema de atendimento oral de Moçambique: capacitação de técnicos em prótese dentária.

269.050,00 SAS ABC 10. Fortalecimento da resposta à epidemia de HIV/Aids de Moçambique. 1.140.295,00 Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) ABC e USAID

Fonte: (LOPES e MILANI, 2014, p. 66).

19 Ressalta-se que não foi encontrado, na página oficial do Ministério da Saúde – Assessoria de Assuntos

Internacionais em Saúde, nenhum projeto posterior a 2012, de modo que a tabela pudesse ter sido atualizada, salvo a informação de que “em 2016, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) firmou parceria com a Agência Inglesa de Desenvolvimento Internacional (DIFID) para retomada o projeto de implantação do Centro Materno Infantil no Hospital Central de Maputo, que estava paralisado por falta de recursos financeiros”. Fonte: <http://portalms.saude.gov.br/assessoria-internacional/relacoes-bilaterais/mocambique> Acesso em: 04/06/2018.

79 Foi “por intermédio da AISA, criada no âmbito do Ministério da Saúde em 1998, que o Brasil logrou projetar para além de suas fronteiras resultados do êxito doméstico de sua política de combate contra o vírus do HIV/AIDS” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009 apud LOPES, 2014, p. 65). É importante ressaltar que o Ministério da Saúde e o Itamaraty “lograram garantir ao governo brasileiro vitórias importantes na OMC e na OMS, colocando o debate normativo sobre acesso a medicamentos na perspectiva dos direitos humanos e não apenas sob a ótica dos mercados e da proteção da propriedade intelectual” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009 apud LOPES, 2014, p. 65).

Isso adentra “a experiência brasileira de copiar medicamentos contra HIV/Aids que ilustra uma série de questões”, como o “status excepcional de medicamentos em relação à propriedade intelectual”, pois “considerados bens públicos, os medicamentos podiam ser copiados livremente no Brasil até 1996” (CASSIER e CORREA, 2007, p. 88). Observou-se que “em 1996, poucos meses depois da nova lei de propriedade intelectual ter sido sancionada, um decreto presidencial proclamou o acesso livre universal aos medicamentos para portadores de HIV/Aids” (CASSIER e CORREA, 2007, p. 88). Por conseguinte, “o governo mobilizou laboratórios farmacêuticos públicos para produzirem medicamentos genéricos e entrou-se em conflito com o status patenteável de novas gerações de medicamentos antirretrovirais” o que gerou, de fato, conflitos sobre licenças compulsórias desde 2001 (CASSIER e CORREA, 2007, p. 88). Observa-se que desde as primeiras tentativas de produção de antirretrovirais no Brasil ocorreram diversos entraves, entre eles a propriedade intelectual, a falta de licença compulsória para a produção desses medicamentos, os conflitos com o mercado externo e o governo que decreta universalidade ao acesso dos medicamentos e alguns avanços também como a produção de medicamentos pela engenharia reversa e a cópia genérica para a distribuição nacional.

Percebeu-se que “essa dinâmica de transferência de políticas públicas tem integrado a agenda da política externa brasileira, haja visto que as atividades de cooperação técnica coordenadas pela ABC fundamentam-se em experiências públicas domésticas nos mais diversos setores” (LOPES e MILANI, 2014, p. 61). O aprendizado pode ter ocorrido mediante à implantação de políticas internas ou pela inspiração de experiências internacionais (LOPES e MILANI, 2014, p. 62). Consideram-se envolvidos nesse processo “os funcionários eleitos, os burocratas e os servidores civis, as instituições, as ideologias, as atitudes e os valores culturais, os consultores, os think tanks, as corporações transnacionais e as instituições internacionais” (LOPES e MILANI, 2014, p. 63). Tudo isso relaciona-se com a transferência de políticas

80 públicas brasileiras no campo da saúde, particularmente em Moçambique entre 2003 e 2012 (LOPES e MILANI, 2014).

Um dos projetos de cooperação que mais chama a atenção, devido a sua pretensão por parte do governo brasileiro, é o Projeto 1 sobre a viabilidade da fábrica de medicamentos, que foi considerado o maior vulto e importância por causa da progressão da epidemia do HIV/Aids em Moçambique, levado em consideração as drásticas consequências para o país (LOPES e MILANI, 2014). Por se tratar de um projeto que visa criar infraestrutura no país, em prol do fortalecimento do sistema de saúde moçambicano, um rol de outros projetos estiveram associados a ele, como o Projeto 2 sobre a capacitação do pessoal para a fábrica e do Projeto 6 acerca do fortalecimento de um órgão regulador de medicamentos em Moçambique, sem contar o Projeto 10, visto como mais abrangente, com o objetivo criar uma cooperação triangular, entre Brasil e Moçambique, além dos Estados Unidos como país do Norte (LOPES e MILANI, 2014).

A articulação de um Projeto de cooperação, embora esteja relacionado principalmente à fábrica de medicamentos, que vise à captação de pessoas para a atuação na fábrica colabora, em menor escala, para o fortalecimento da força de trabalho em saúde, que “caracteriza-se por uma crise persistente e se expressa pela escassez crônica e desigualdade na distribuição de profissionais da saúde” (POZ, PORTELA e FEHN, 2017, p. 259). Não só o Projeto 2 é visto como capaz de colaborar para a inversão desse quadro como também outros projetos da Fiocruz são vistos como importantes para atuar na formação da força de trabalho em saúde local, em Moçambique, sobretudo, exemplificando os Programas para a Consolidação do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique com os cursos de Mestrado em Ciências da Saúde e em Sistemas de Saúde. A criação de instituições que pensem desde Moçambique sobre os problemas de Saúde Global, não só exclusivamente sobre HIV/Aids, proporciona esse fortalecimento em recursos humanos em Saúde que vive uma crie global, como apontado por Poz, Portela e Fehn (2017).

Acerca da cooperação triangular, complementar à cooperação executada pelo governo brasileiro, “pretende unir esforços dos três países, da sociedade civil, de parceiros bilaterais e multilaterais, ONGs nacionais e internacionais e o setor privado em prol do combate ao HIV” (LOPES e MILANI, 2014, p. 68). Foram definidas quatro áreas prioritárias para intervir-se: “(a) logística de medicamentos, insumos e artigos médicos; (b) monitoria e avaliação; (c) reforço da resposta da sociedade civil à epidemia; (d) reforço da área de comunicação” (LOPES e MILANI, 2014, p. 68).

81 Por fim, ressalta-se que a Diplomacia em Saúde Global executada pelo Brasil, através de uma cooperação que se intitula “estruturante”, não se distancia de um dos velhos objetivos da Diplomacia per se que é o prestígio e a afirmação no cenário internacional. Não se descarta, em nenhum momento, que os projetos de cooperação instituídos com a República de Moçambique afastam-se do propósito de projeção internacional e projeção brasileira com a África, em especial com os países da CPLP. Ademais, percebeu-se ainda que os diversos projetos de cooperação estão ligados com a Saúde Global e que alguns, como o de capacitação profissional, tentam reverter suas deficiências.

Nem todos os projetos aqui expostos relacionam-se diretamente com a questão do HIV/Aids, mas estabeleceu-se necessário mostrar o panorama dos projetos de cooperação implementados pela Diplomacia Brasileira em Saúde Global, expondo, sem dúvida, seus atores mais engajados, como a Fiocruz, a ABC e a AISA. A análise dos projetos de cooperação coordenados pelo Brasil não exclui a relevância que os outros atores em Saúde Global, brevemente ilustrados no Capítulo 2, exercem sobre Moçambique. A luta pelo combate ao HIV/Aids é conjunta e não isolada. É importante ressaltar que as diretrizes implementadas pelo Brasil que se vinculam com o HIV/Aids estão sendo influenciadas por diretrizes globais de combate ao HIV/Aids, através da UNAIDS, além dos ODS que orientam os países em suas políticas. Menciona-se ainda que a experiência interna, sobretudo políticas de combate ao HIV/Aids, mostrou-se relevante para o engajamento nesses projetos de cooperação.