CAPÍTULO I A RELAÇÃO DO SUJEITO COM SEU TRABALHO
1.1 O TRABALHO – A HERANÇA DE UMA NOÇÃO POLISSÊMICA
1.1.1 As expressões semânticas do que chamamos trabalho
Etimologicamente a palavra trabalho provém do termo em latim tripalium (instrumento utilizado para imobilizar grandes animais a serem ferrados), passando à sua associação com “instrumento de tortura” assimilado ao sofrimento e à dor (Século XI), às dores do parto (Século XII), e, mesmo que ainda pouco utilizado no Século XIII, veiculando significados de tortura e penitência (Lallement, 2007, p. 45). Cottereau (1994, citado por Lallement, 2007, p. 44), elenca pelo menos quatorze definições diferentes, as quais oscilam entre o trabalho “dever-profissão-vocação-função social” de Max Weber (1947/1999) e o trabalho penoso do animal laborans de Hannah Arend (1958/2001); entre o trabalho assalariado na indústria e o trabalho como unidade social; entre o trabalho como agir instrumental sobre a natureza externa, e o trabalho como fundamento de valor dos economistas clássicos, etc. Assinala ainda que, mesmo com tantas definições, a lista permanece incompleta, considerando que os registros históricos e econômicos não estão integralmente representados, e tampouco as abordagens psicológica e ergonômica foram consideradas.
Em relação a suas faces contraditórias, são encontradas referências ao “trabalho de criação” do mundo, como obra divina e como castigo e sofrimento, referindo-se às dores do parto para a mulher e às agruras da produção da existência para o homem. Ambos os sentidos estão presentes na sociedade contemporânea quando falamos em trabalho: a atividade que realiza e dá prazer ao seu executor (obra) e a atividade que faz sofrer.
Temos ainda, na relação do camponês com a terra, o trabalho no sentido de submissão às forças da natureza; para o operário, a submissão à cadência e ao ritmo da máquina e para outros profissionais, a submissão a normas e hierarquia das organizações de trabalho. Em todos esses casos, o trabalho se apresenta distante da ideia de liberdade e de espaço de fruição da vida humana, e sim como “constrangimento, obrigação e servidão” (Gaulejac, 2011, p. 26). Este autor chama atenção
para a visão positiva do trabalho, tomado como possibilidade de ascensão social, obtenção de uma existência reconhecida socialmente por meio de uma posição, do respeito e do reconhecimento; conquista da liberdade e da independência financeira, além do domínio da natureza colocada a serviço do homem. Também Barbosa Franco (1989, p. 33), destaca que se poderia pensar o trabalho como
uma forma de ação originária e especificamente humana através do qual o homem age sobre a natureza, transforma a ordem natural em ordem social, cria e desenvolve a estrutura e as funções de seu psiquismo, relaciona-se com outras pessoas, pensa, comunica-se, descobre, enfim, produz sua consciência e todo um conjunto de saberes que lhe possibilitarão viver em sociedade, transformar-se e transformá-la.
Para essa autora, o trabalho pode ser considerado “o exercício de uma função produtiva a favor da acumulação do capital” (Barbosa Franco, 1989, p. 33).
Em termos semânticos, encontramos vasto vocabulário para exprimir a ideia de trabalho. Michel Lallement (2007) nos apresenta um levantamento a partir de alguns idiomas: em inglês, temos work e labour, com sentidos distintos, assim como no francês, travail, labeur e labour; no idioma alemão, werk e arbeit, tendo este último a indicação de duas origens discutíveis e distintas: a condição de um indivíduo órfão, privado de herança, colocado na condição de dependência de outros para subsistir; a segunda faz referência a um termo derivado do alemão antigo, cujo significado remete à pena, estresse. No sul da Itália, conforme o autor, trabalhar é traduzido por vado fatigare, em alusão direta à fadiga. Outro termo italiano utilizado é lavorare, cujo significado trazido pelo Il Nuevo Dizionario Italiano Garzanti (1988) faz alusão a “dedicar as forças do corpo e damente a uma profissão, a um metier” (p. 487).
Na literatura hebraica, o significado do trabalho remete à implicação laboriosa e serviços litúrgicos. No Corão, livro sagrado dos muçulmanos, mais de quarenta e três termos são encontrados para designar, direta ou indiretamente a atividade laboral. Madoui (2004, p. 261, citado por Lallement, 2007, p. 46-7), aponta que no islamismo contemporâneo o trabalho é pensado como “ação, ocupação e criação”. Para os gregos também não existe palavra única para definir trabalho. Temos “ponos (atividade penosa), próxima de ergon (tarefa e também
trabalho agrícola e atividade guerreira), poiein (fabricar), pratein (agir) e ainda technei (usado para indicar um saber especializado)”.
Voltando ao idioma português, a diversidade de significados para o vocábulo “trabalho” é considerável. No campo das artes, nos referimos ao trabalho de pintores, compositores, escritores e outros; em conversas informais, não raro dizemos “no meu trabalho...” em alusão ao local onde exercemos nossa atividade profissional; ou ainda, “estou procurando trabalho”, cujo significado é a busca por um emprego, pois no senso comum não há distinção entre trabalho e emprego. Encontramos também o “trabalho de parto”, relacionado ao nascimento de um bebê; “o trabalho” referindo-se a atividades místicas ligadas a seitas religiosas; o “trabalho escolar”, no sentido do cumprimento das tarefas demandadas pelo professor. Poderíamos continuar nossa lista sem esgotar os significados encontrados em nossa sociedade para esse termo.
Observamos também o uso da palavra latina labor para designar o que conhecemos por trabalho, assim como suas correspondentes nos demais idiomas, cujo significado supõe um esforço fatigante, um teste difícil ou ainda, uma carga sob a qual o sujeito se dobra (Rey, 2012).
Também em Arendt (1958/2001, p, 15) a referência a labor como uma das três “atividades fundamentais humanas”, juntamente com o trabalho e a ação. Para essa autora, o labor está relacionado ao “processo biológico do corpo humano”, que assegura o prosseguimento da espécie humana, além da sobrevivência individual; o trabalho, por sua vez, compreende a produção de coisas, correspondendo ao “artificialismo da existência humana”, ao emprestar “certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano” (Arendt, 1958/2001, p. 16). Por “ação” a autora compreende, sobretudo, a atividade política, como a “única atividade que se exerce diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas ou da matéria”, criando a condição para a história (p. 16-7).
No Dicionário de Trabalho e Tecnologia encontramos a definição para o verbete trabalho como “atividade resultante do dispêndio de energias física e mental, direta ou indiretamente voltada à produção de bens (materiais ou imateriais), contribuindo assim para a reprodução da vida humana, individual e social” (Liedke, 2006, p. 319). Por mais que se insista na busca de definições, não obteremos sucesso na tentativa de circunscrever em palavras os inúmeros significados atribuídos aos vocábulos trabalho e labor. Na sequência trazemos alguns dentre os inúmeros conceitos de trabalho, os quais nos auxiliam a compreender, nos capítulos dedicados à análise dos
resultados desta pesquisa, a experiência objetiva e subjetiva de nossos entrevistados na relação com suas atividades laborais.