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As Externalidades Aglomerativas Marshallianas

2.1 APRESENTAÇÃO DA TEORIA DA LOCALIZAÇÃO

2.1.1 As Externalidades Aglomerativas Marshallianas

No final do século XIX, Marshall apresenta em seu Princípios de Economia contribuições ao estudo da organização industrial, desenvolvendo, com base na análise, um corpo teórico sólido a respeito do tema.

A visão de distritos industriais de Marshall não era um acontecimento recente na sua época e poderia sofrer mudanças devido às condições físicas de cada localidade, à ação do Estado e a fatores sociais, produtivos e culturais.

Numa visão geral, Marshall não via a produção como simples reprodução ou combinação de capital, trabalho e recursos naturais. Considerava que as complexidades entre firmas, mercados e economias contam com organização e conhecimento que somam aos elementos tradicionais dos fatores de produção. O conhecimento e a organização são vistos como pontos centrais para o desenvolvimento público e privado. Na classificação de Marshall

O conhecimento é nossa mais potente máquina de produção: habilita-nos a submeter a Natureza e forçá-la a satisfazer nossas necessidades. A organização ajuda o conhecimento; ela apresenta muitas formas, a saber, a organização de empresas individuais, a de várias empresas num mesmo ramo, a de vários negócios uns relativamente a outros, e a organização do Estado provendo segurança para todos e ajuda para muitos (MARSHALL, 1985 p. 135).

Esses dois aspectos são elementos centrais para o entendimento da dinâmica do que Marshall classifica como distritos indu striais, no que tange à formação, desenvolvimento e constituição destes em um mercado.

O autor assume um certo “darwinismo” econômico como efeito da organização industrial, levando em conta o aspecto em que a empresa está relacionada com o ambiente. Segundo o autor, analogias são feitas por alguns economistas como a de que “a compreensão da verdadeira natureza das diferenças de organização que separam os animais superiores e inferiores” pode de certa forma aplicar-se para as indústrias mais eficientes e menos eficientes.

Os distritos industriais marshallianos são formados por três importantes fatores: i) Acúmulo de conhecimento tácito; ii) criação de vantagens em grandes mercados para habilidades especiais; e iii) conexões para trás e para frente, associadas aos grandes mercados.

O primeiro fator está ligado ao fato de pessoas estarem próximas em um aglomerado local, e por isso acabam trocando experiências e acúmulo de conhecimento. Nesse aspecto não existem segredos para a execução de um determinado processo de trabalho, pois, segundo Marshall, “os segredos da profissão deixam de ser segredos, e, por assim dizer, ficam soltos no ar”. O ajuntamento de pessoas e a “herança” da profissão para as crianças acaba gerando um processo de construção de idéias.

A geração de novas idéias é motivadora de novas técnicas e processos de produção que são assimilados e, por sua vez, acabam gerando trabalhos especializados, dando margem para o segundo fator.

Para o autor, “uma indústria localizada obtém grande vantagem pelo fato de oferecer um mercado constante para mão-de-obra especializada”. Esse aspecto gera uma vantagem de mão dupla, pois esse tipo de mercado é visado por empresários que procuram mão-de-obra especializada, assim como os trabalhadores sabem que nesse tipo de mercado poderão encontrar patrões que estão dispostos a fazer novas contratações.

Fica evidente que essa vantagem tem forte conotação social e econômica, pois o nível de facilidade para encontrar emprego e um bom empregado é relevante. Marshall cita algumas desvantagens que esse processo pode gerar, mas que estão quase superadas. Atualmente isso entraria no mérito de uma discussão racial e política, o que não é o foco deste trabalho. O grande ponto que deve ser destacado quanto à discussão do emprego e da localização industrial está no fato de o casamento de ambos gerar crescimento.

O terceiro fator está ligado ao ajuntamento de empresas correlacionadas no local, ou o que o autor denomina de “integração”, caracterizando um “aumento das relações e firmeza das conexões entre as diferentes partes de um organismo industrial”. Isso acaba criando as conexões

a montante e a jusante, ou seja, o relacionamento entre fornecedores da matéria-prima e os consumidores de um bem final. Marshall direciona parte desse exemplo para os interesses dos trabalhadores especializados:

tudo quanto aumenta a disposição das pessoas a emigrar de um para outro lado, tende a fazer com que os operários especializados se agrupem perto dos consumidores de seus produtos (MARSAHLL, 1985 p. 236)

O autor mostra a predisposição de os produtores estarem não somente perto da matéria-prima (a montante), mas também a preocupação de estarem próximos aos clientes para o rápido consumo de seus bens finais (a jusante).

Essa predisposição é acompanhada de forma uniforme pelas empresas, que possuem também uma tendência de estarem próximas, como visto anteriormente, dos lugares onde estiverem os trabalhadores especializados.

Isso, conforme Marshall, se manifestará com a quebra de barreiras de transportes, maior acesso a crédito e desenvolvimento dos meios de comunicação, quando esses elementos fazem parte de um aglomerado industrial transformam-se em facilitadores dessas conexões, permitindo um maior fluxo de investimentos para a localidade.

No entanto, essas conexões só funcionam se existirem retornos crescentes para a empresa, constituindo-se um processo em que os que estão na ponta ganham cada vez mais vantagem e os que não estão a perdem.

Os retornos crescentes podem ser vistos como mecanismos de feedback positivo que operam - nos mercados, negócios e indústrias - para reforçar aquilo que obtém sucesso ou para agravar o que não é bem-sucedido. Os retornos crescentes, portanto, podem gerar instabilidade, pois, se uma empresa torna -se eficiente ou obtém uma tecnologia inovadora, ela acaba amplificando as vantagens ante as demais empresas, causando uma alteração no modo e perfil do comportamento dos negócios.

Marshall demonstra que existe uma certa tensão para que ocorram em uma Indústria tanto rendimentos crescentes como decrescentes. O autor afirma que as tendências

para o rendimento crescente e para o decrescente estão constantemente fazendo pressão uma contra a outra. Na produção de trigo e lã, por exemplo, a última tendência domina quase que exclusivame nte num velho país que não pode importar livremente. O rendimento crescente é uma

relação entre a quantidade e o sacrifício, de um lado, e, de outro, a quantidade de produto

(MARSHALL, 1985 p. 268).

Essa característica demonstra que os rendimentos decrescentes ocorrem na parte tradicional da economia, como no caso acima as indústrias de processamento. Os retornos crescentes dominam a parte mais nova, implicando principalmente as indústrias baseadas no conhecimento.

Assim, fica fácil entender de que forma os distritos industriais marshallianos podem gerar retornos crescentes, pois, como visto anteriormente, as relações existentes nesse contexto criam elementos necessários para o desenvolvimento industrial. Nesse nível, aperfeiçoamentos acabam gerando, para as indústrias que compõem parte do aglomerado, uma série de externalidades, tanto de caráter pecuniário como tecnológico, conforme assinalado por Krugman (1995):

• A possibilidade oferecida por um grande mercado local de viabilizar a existência de fornecedores de insumos com eficiência de escala;

• As vantagens decorrentes de uma oferta abundante de mão-de-obra; e

• A troca de informações quando empresas do mesmo setor aglomeram-se.

Fica evidente que Marshall se opõe à conclusão padrão, na qual o sistema fabril, com a concentração de todas as operações produtivas em um mesmo lugar e um elevado grau de interação vertical, seria superior aos métodos de produção menos integrados e mais dispersos territorialmente. Dessa forma, alguns ganhos de eficiência poderiam ser resultantes de um elevado volume de produção do mesmo ramo de atividades no entorno da empresa ou até mesmo do resultado final da produção de todos os mercados do produto.

Tendo como base esse critério, Marshall define os aumentos da escala produtiva como sendo externos e internos. Os primeiros surgiriam do crescimento como um todo do setor industrial, não estando somente ligadas ao tamanho da empresa, assumindo que a concentração de pequenas empresas similares, em determinado espaço geográfico, surge como importante fonte de economias externas, desempenho econômico positivo das empresas e efetivação de uma indústria em uma localidade, deixando claro que:

Muitas das economias na utilização da mão-de-obra e maquinaria especializada não dependem do tamanho das fábricas individuais. Algumas dependem do mesmo gênero de fábricas na vizinhança, enquanto outras, especialmente relacionadas com o adiantamento da ciência e o progresso das artes, dependem principalmente do volume global de produção em todo o mundo civilizado (MARSHALL, 1985 p. 229).

No entanto, por estarem limitadas pelo paradigma da concorrência perfeita, as idéias marshallianas sobre organização industrial acabam ficando deslocadas do real quando a unidade de tempo é o longo prazo.