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3 HISTÓRIA DAS FACAS CARIRIENSES

3.2 As facas ―jardineiras‖ da família pereira

Em meados da década de 1910, na cidade de Jardim-CE, o mestre José Pereira iria iniciar uma tradição familiar na arte da cutelaria que se estenderia por nove décadas de produção. Localizada na “Rua da baixa”, tradicional rua de ferreiros, a tenda de “Zé Pereira” foi responsável pela disseminação das autênticas facas “jardineiras”, ou, como também eras conhecidas; “facas barra do jardim”. Estas facas eram feitas em sua grande maioria com os já citados cabos de “embuá”, que simulam esteticamente o artrópode de mesmo nome - conhecido em determinadas regiões como “piolho de cobra” -. O efeito era conseguido a partir da intercalação de anéis de metais amarelos e de lascas de chifre.

Figura 41 - Embuá, ou Piolho de cobra

Fonte: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=21279> Acesso em 26/08/2017

Suas peças eram geralmente marcadas com o monograma JP, garantindo assim a procedência de produção.

Figura 42 - Detalhe de faca com iniciais J.P - José pereira

Fonte: Coleção Denis Artur Carvalho

Fato memorável acerca das facas “jardineiras” feitas por José Pereira foi a encomenda de uma peça solicitada pessoalmente por lampião no ano de 1926, quando de sua passagem em Jardim para Juazeiro do Norte, onde iria receber a patente de capitão do “Batalhão Patriótico”. Tal episódio nos foi narrado por Simião Pereira, filho de José Pereira. Segundo

ele, apesar das várias versões e proporções narrativas que este evento alcançou, a história contada pelo seu pai era uma só:

Eu me lembro como se fosse agora, eu tinha uns 13 anos já. Pai disse que ele veio com 25 a 30 cangaceiros. Quando ele chegou aqui o povo via e trancava as portas, era mais ou menos umas 10:00 da manhã. Quando pai deu fé Lampião chegou na porta com um chapéu de couro e com um cangaceiro só por nome de Bom de Vera. Agora ele não vinha com arma nenhuma, ele vinha com chapéu de couro, óculos. O Bom de Vera com chapéu de couro e a cartucheira, só a cartucheira sem bala. Revolver, punhal, nada! A cabaça do lado de carregar água e um borná, só o que ele trazia. Aí pai se assustou e pensou" pronto, ele vai me matar agora":

LAMPIÃO: O senhor é que é o mestre Zé Pereira, que tanto já falaram pelo Pernambuco e Paraíba? Eu queria que o senhor fizesse um punhal pra mim.

Aí pai disse com medo: Faço LAMPIÃO: Mas eu quero pra hoje

aí pai com medo... ele tava com mais medo do outro cangaceiro que era mal encarado.

LAMPIÃO: Ó eu venho pegar de três e meia pra quatro horas J.P: Sim senhor eu faço, como é o punhal?

LAMPIÃO: Eu quero um punhal grande assim ó... J.P: Tá bom, eu faço...

Aí pai cortou a folha ligeiro e nesse tempo tinha muito cangaceiro pelo sertão... caba ruim... e pai já tinha os bichão feito (N.A: lâminas forjadas).

Aí caçou logo um grandão assim, aí ajeitou aqui, ajeitou, colocou um cabo bonito danado, carapuça de metal amarelo, chega ficou brilhando, aí quando Lampião chegou, pegou pai de surpresa de novo:

LAMPIÃO: Pronto seu mestre? J.P: Pronto, sim senhor

Pai trabalhando suado, foi mesmo no tempo quente, um calor danado... Lampião pegou o punhalzão grande, pai disse que era tão grande que não sabe como deu tempo dar o tempero, aí disse que ele pegou na lâmina e fez assim, entortou, aí pai viu a hora ele torar, aí quando soltou que a lâmina continuou aprumada, aí fez de novo.

LAMPIÃO: Seu mestre eu vou lhe dizer, o senhor pode dizer que é mestre mesmo... tá bem feita viu.

(FIGUEIREDO, 2015)

Conta-nos Simião Pereira (FIGUEIREDO, 2015) que houve ainda mais dois momentos tensos para José Pereira neste episódio: O primeiro é que logo após testar a lâmina, o cangaceiro que acompanhava Lampião, chamado Bom de Vera teria passado a lâmina próximo às costas do mestre, brandindo jocosamente: “punhal bom capitão, pro caba tirar suor do lombo de caba ruim”. Tal atitude foi então veemente repreendida por Lampião que ameaçara o cangaceiro colocando a faca em seu pescoço e respondendo: “Ó Bom de Vera, presta atenção, respeitar pra poder ser respeitado, pra depois não acontecer o que aconteceu com fulano de tal...”. O segundo momento foi quando Lampião indagou o preço da faca, ao que foi recusada a cobrança pelo mestre, afirmando que seria um presente para Lampião lembrar-se do ferreiro de Jardim. Em retribuição ao presente, Lampião então teria perguntado se José Pereira teria alguma “intriga” com alguém naquela região que o cangaceiro pudesse resolver, ao que foi negado pelo velho mestre.

O relato de Simião Pereira sobre o pai tem grande plausibilidade histórica; Apesar de a data correta em que Lampião esteve em Jardim de passagem a Juazeiro ser 1926, e não 1927, todos os outros eventos são factíveis; o cangaceiro “Bom de Vera” realmente se encontrava como integrante do grupo de Lampião quando de sua passagem pelo Cariri, tendo inclusive participado do histórico “assalto a Mossoró”, evento em que o grupo de cangaceiros invadiram esta cidade potiguar no ano de 1927 (JÚNIOR, 2009). Em outro momento do relato, Simião cita ainda o nome de Zuza, o qual seria o “coiteiro” de Lampião naquela ocasião em Jardim. Esta informação também tem procedência histórica, uma vez que consta que Lampião e seu grupo se arrancharam no sítio “Engenho d‟água”, propriedade de Zuza Livino (GORGÔNIO, 2007). A fotografia feita em Juazeiro do Norte em 1926 no entanto, parece ser a maior evidência do fato narrado por José Pereira a partir de Simião; nela é possível ver Lampião portando uma grande faca “jardineira”:

Figura 43 - Lampião em Juazeiro do Norte, 1926. Detalhe da “jardineira” em sua posse

Curiosamente, em contradição à afirmação de José Pereira de só ter recebido uma única encomenda de Lampião, há relatos de pessoas que foram presenteadas por ele com facas “jardineiras” nos arredores do Cariri. O senhor Elias de Menezes, residente na cidade de Aurora-CE por exemplo, possui uma faca “jardineira” que teria sido dada ao seu pai por Lampião, quando de passagem por esta cidade ao sair do Cariri6:

Figura 44 - Faca Jardineira doada por Lampião ao seu guia da cidade de Aurora, o sr. Davi Silva. Hoje se encontra em posse de seu filho, o Sr. Elias Menezes

Fonte: <http://blogdaaurorajc.blogspot.com.br/2013/08/tipi-e-ipueiras-receberam-visitas-de.html.> Acesso em 08/03/2013

O colecionador Lourinaldo Teles, residente em Calumbi-PE, possui também uma punhal que teria sido presenteado por Lampião a um parente seu também no ano de 1926. Vale ressaltar que este é o único punhal de provável produção de José Pereira de que temos notícia até o momento, todos as outras imagens de peças coletadas durante a pesquisa dizem respeito a facas.

6 Informação dada pelo pesquisador José Cícero da cidade de Aurora-CE. Disponível em:

<http://blogdaaurorajc.blogspot.com.br/2013/08/tipi-e-ipueiras-receberam-visitas-de.html> Acesso em

Figura 45 - Punhal de provável produção de José Pereira presenteado por Lampião

Fonte: Coleção Lourinaldo Teles

Uma explicação provável para a existência dessas facas seria a de que, apesar de pessoalmente lampião só ter encomendado um único exemplar ao mestre José Pereira, poderia tê-lo feito por intermédio de “coiteiros”, prática comum em especial no Cariri, região onde o rei do cangaço se provia convenientemente de munições (NEVES, 2009).

Existem ainda outras facas “jardineiras” com procedência de posse de Lampião, dentre as quais um exemplar exposto no museu da Policia Militar em Recife PE:

Figura 46 - Detalhe de faca Jardineira presente no museu da Policia Militar em Recife-PE

Fonte: < http://blogdabriosa.blogspot.com.br/2012/04/museu-da-pmpe-recebe-seu-milesimo.html> Acesso em 20/03/2013

E uma peça da coleção de coleção particular, a qual, segundo o proprietário lhe foi doada pela neta de Lampião:

Figura 47 - Faca Jardineira que pertenceu à Lampião. Coleção particular

Fonte: Acervo de imagens de Denis Artur Carvalho

É provável que um destes exemplares seja a faca observada em sua posse na fotografia feita em Juazeiro (Fig. 43). Apesar de todas as facas supracitadas não conterem a marca da punção com as iniciais JP, é perceptível sua proveniência a partir de uma série de características estéticas que serão debatidas em capítulos posteriores. Por ora apresentaremos os dois filhos que continuaram a produção do pai; Geraldo e Paulo Pereira:

Geraldo Pereira era o filho mais velho de José Pereira e o primeiro a trabalhar com o pai, adentrando o universo laborioso da tenda de ferreiro ainda na infância. Chegou a firmar oficina na cidade de Crato na década de 50, no entanto se dedicou mais a outras tarefas de ferreiro, tais quais a manufatura de portas, portões e grades. Em meados da década de 70 ou 80 mudou-se para São Paulo, onde faleceu nos anos 20007. Suas facas eram assinadas com a sigla GP.

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Figura 48 - Detalhe de faca produzida por Geraldo Pereira

Fonte: Acervo de Denis Artur Carvalho

As facas GP são as mais raras, uma vez que o artífice dedicou menos tempo ao ofício. Segundo Simião Pereira, a perfeição e o esmero no acabamento dos cabos chegava a superar o talento do seu pai.

Foi no entanto o seu irmão Paulo Pereira quem perpetuou a tradição familiar, começando na oficina do seu pai em Jardim e se estabelecendo na cidade de Crato nos anos 50, onde firmou tenda que funcionou até próximo de seu falecimento na primeira metade dos anos 2000. As facas de sua produção eram timbradas com a sigla PP.

Figura 49 - Detalhe de faca produzida por Paulo Pereira

O mestre Paulo foi o único da família a presenciar sua produção entrar em outro contexto mercantil: Durante o fim dos anos 90, ao invés de agricultores e vaqueiros, suas facas passaram a serem procuradas também por colecionadores e pesquisadores, seguindo assim o mesmo desvio de rota das demais “facas nordestinas”.

Em 1996 por exemplo, recebeu uma proposta de encomenda do pesquisador Frederico Pernambucano de Mello para a confecção de 60 facas com 50cm de comprimento, as quais seriam utilizadas no figurino do filme “Baile Perfumado”, lançado em 1997. Tal proposta foi recusada pelo mestre Paulo, o qual já não possuía condições de saúde para trabalhar em tal demanda (VICELMO, 1999; NEVES, 1997).

Nos anos 2000 foi matéria do quadro Me leva Brasil, exibido no programa televisivo

Fantástico, no qual além de contar um pouco da tradição familiar, demonstra o passo a passo

na confecção de uma legítima faca “jardineira”, desde a forja de uma barra de aço ao acabamento e polimento8. Em junho do mesmo ano, o ferreiro fechou as portas de sua oficina em detrimento das condições de saúde, retornando no entanto no mês seguinte, por motivos emocionais e pela grande demanda:

O refúgio do velho ferreiro ao seu tugúrio foi marcado por outro acontecimento que mexeu com o seu coração: a morte da esposa amada. Mestre Paulo não suportou a dor da saudade. O retorno ao trabalho foi a maneira encontrada de superar a solidão. Estimulado por uma série de reportagens publicadas na imprensa nacional, o ferreiro reabriu a oficina. (VICELMO, 2000b)

Em outubro de 2005 faleceu o mestre Paulo Pereira, findando assim a tradição produtiva familiar, como o próprio lamentava ainda em vida: „„Infelizmente, nenhum dos meus filhos quis seguir a profissão. E nem podia, a profissão de ferreiro está em extinção. Ficaram somente os fabricantes de foice e roçadeira que, aos poucos, estão sendo consumidos pelas grandes fábricas que despejam seus produtos no mercado‟‟(VICELMO, 2000a)

Apesar de se encerrarem em produção, as facas “jardineiras” sobreviveram na memória coletiva caririense, sendo também hoje itens de grande valia no mercado de artigos colecionáveis. A seguir, centraremos nossa análise em aspectos pontuais deste artefato, buscando assim compreender os fatores da sua sobrevivência produtiva e memorialística.

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