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4. A PSICOLOGIA DO TRABALHO E A FORMAÇÃO

4.5 A constituição da Psicologia do Trabalho no Brasil: De que trabalho estamos

4.5.2 As faces da Psicologia do Trabalho no Brasil

A Psicologia assumiu sua primeira face, ao surgir como um elo entre os interesses das indústrias e ao utilizar alguns pressupostos do Taylorismo. Nessa fase se colocou em prática a chamada Psicologia Industrial, a qual se resumia à seleção e colocação de empregados nas indústrias com o objetivo principal de desenvolver testes psicológicos e realizar serviços de consultoria às organizações (SAMPAIO, 1998).

Brown (1976) e Sampaio (2002) informaram que, a prática da Psicologia Industrial nos anos 20, limitou-se a atividades de orientação vocacional, baseada em testes, e estudos das condições de trabalho, com a visão exclusiva do aumento da produtividade. Durante a segunda guerra mundial, desenvolveram-se as técnicas de colocação de pessoal e avaliação de desempenho.

A Psicologia Organizacional surgiu como nova subárea, na medida em que os psicólogos deixaram de estudar somente o ambiente do trabalho, para contribuir nas discussões das estruturas da organização. Apesar de não romper radicalmente com a Psicologia da Indústria, a Psicologia Organizacional foi uma ampliação do objeto de estudo; entretanto continuou ligada a problemas de produtividade das empresas.

A Psicologia Organizacional seria uma segunda face da Psicologia do trabalho. Ela se desenvolveu dentro dos modelos estruturalistas e sistêmicos da administração das empresas, percorreu as empresas em toda sua estrutura organizacional, de processos e de execução. Seria proposta a construção de uma arquitetura social na organização, em que os significados de normas e valores visavam à obtenção de uma interpretação coletiva dos mesmos. Seriam desenvolvidos trabalhos para que houvesse um comprometimento dos trabalhadores pela institucionalização dos valores desenvolvidos (Sampaio, 1998).

No início dos anos 70, surgiu a terceira face da Psicologia do Trabalho, como uma convergência entre a Sociologia do Trabalho, a Administração e a Psicologia. As teorias administrativas se tornariam menos prescritivas, assumiriam um caráter mais explicativo e crítico, visavam compreender os fenômenos da produção a partir de um cenário de fatores externos que influenciavam os ambientes de trabalho.

Nesse contexto, o que antes era visto como funções ou sistemas para a análise da Psicologia do Trabalho, agora seria concebido como políticas internacionais. Em outras palavras, o que era concebido como algo estático e indispensável, foi concebido como resultado de ações de grupos de atores sociais das organizações, e considerou as questões de poder, conflito e comando. Ao conceber as mudanças das concepções da Psicologia do Trabalho, Sampaio (1998, p.27) afirmou:

Com esse reposicionamento da psicologia do trabalho, a obsessão pela produtividade cede lugar para uma compreensão mais próxima do homem que trabalha. Isso implica num aumento do campo de visão do pesquisador em psicologia do trabalho, que, fazendo pesquisas menos instrumentais, consegue discutir temas que até então eram proibidos, esquecidos ou negligenciados.

Zanelli (2002) argumentaria que, a denominação Psicologia Organizacional e do Trabalho pareceu apropriada, pois trouxe a ideia tanto de fatores contextuais imediatos do trabalho quanto das características organizacionais que exerceriam influência sobre o comportamento no trabalho.

Para o entendimento da relação do indivíduo no contexto do trabalho seria necessário analisar os construtos ou dimensões relacionadas. De acordo com Borges e Yamamoto (2004), existiam cinco dimensões que comporiam o mundo do trabalho, quais sejam: a dimensão concreta, que se referia à tecnologia e às condições materiais e ou ambiente que se realizaria o trabalho; a dimensão gerencial, que abrangeria o exercício das funções de planejar, organizar, dirigir e controlar; a dimensão sócio-econômica, que se remeteria à articulação entre o modo de realização do trabalho e às estruturas econômicas e políticas da sociedade; a dimensão ideológica, que consistiria no discurso elaborado sobre o trabalho e as relações de poder; e a dimensão simbólica, que se referia aos aspectos subjetivos da relação indivíduo-trabalho, esta última bastante pesquisada pelos psicólogos sociais nos últimos anos. Tais dimensões serão retomadas em um capítulo específico na dissertação.

A Psicologia do Trabalho e as diversas vertentes atualmente utilizadas para a análise do homem no ambiente laboral forneceram instrumentos para todo profissional de Psicologia; cuja prática fora pautada pelo desejo de

ultrapassar a perspectiva tradicional de adaptação do indivíduo às exigências da produção. Assim como de assumir um compromisso com a transformação dos contextos de trabalho, de modo a torná-los mais compatíveis com as necessidades humanas.

Ao tratar da identidade profissional e formação do psicólogo, há alguns trabalhos, com especial interesse, como em Contini (2000, p.53) que referendou em sua pesquisa a atuação do psicólogo que atuaria na educação. Tal estudo identificaria que “a formação, hoje, via de regra, está calcada em um modelo conservador de promoção a saúde. [...] sustentado por teorias que tem o seu foco voltado para a descrição dos comportamentos patológicos [...]”. Essa situação teria contribuído para uma consolidação da identidade do psicólogo, como exclusivamente de caráter terapêutico, o que levaria a entender sobre a problemática da ausência da dimensão social /trabalho das práticas em Psicologia.

Diante dessa explanação teórica, a proposta dessa investigação pretendeu levantar as produções de sentido dos estudantes sobre a Psicologia do Trabalho a partir de suas vivências na atuação em estágio. Com ênfase nas relações educacionais referentes aos diversos papéis institucionais, ou seja, do papel da universidade, do professor e do aluno, como um processo dinâmico em que forças atuariam e se projetariam na formação de representações. A análise de tais representações geraria a possibilidade de compreensão da atuação dos atores e seus papéis.

4.6 A área de atuação em Psicologia Organizacional e do Trabalho.