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V – APRESENTANDO OS DADOS

4. As falas das professoras

Ambas professoras do Jardim de Cristo sempre souberam o objetivo da minha pesquisa e, durante todo o tempo que permaneci com elas nas aulas conversávamos sobre a relevância do seu trabalho.

Elas admitem, a importância de se começar a ensinar a religião cedo para que as crianças tenham em seu caráter e personalidade a visão da necessidade de pertencer a um grupo e os limites morais que a religião dá.

Não foi usado em momento algum a palavra moral, mas no discurso das professoras estava implícito que a escola dominical dos pequenos, dava alicerce aos conceitos de certo e de errado; primeiro no campo da igreja, e que se estenderia ao comportamento da criança no dia-a-dia.

2.2 – A Representação da criança assembleiana na escola dominical e o mundo das crianças das Assembléias de Deus

Através desta categoria, tento destacar como se deu a inter-relação das crianças que frequentavam o Jardim de Cristo, o que esperavam daquele espaço (escola/igreja) e como se viam perante os não assembleianos. Deste modo as sub categorias que se interligam são:

1- O desejo das crianças em aprender ; 2- O pequeno “crente” fora da igreja;

3- Análise da lição

4- Dados sobre a entrevista com as crianças 5- Quem quer ser crente?

1. – O desejo das crianças em aprender

Em todos os momentos da realização da pesquisa de campo, não tive nenhuma dúvida quanto à abertura das crianças para o aprendizado e a partilha de experiências com os outros.

As crianças ouviam a historinha e sabiam que era da Bíblia, que realmente tinha acontecido, portanto, mesmo sem terem ainda o conceito de tempo histórico formado, sabiam que tinha sido há muito tempo. E queriam saber mais, perguntavam sempre, entre uma brincadeira e outra, estes conhecimentos faziam mais sentido para as crianças em momento de angústia, medo e privação.

Não presenciei nenhum momento no qual a criança não tenha entendido a explicação ou a historinha e tenha ficado confusa. Como se tratava de narrativa oral, seguida de ilustrações pregadas num mural, era extremamente atrativo para as crianças.

Aliado ao desejo de aprender das crianças as professoras sempre buscava uma didática atraente para expor o conteúdo a ser ensinado naquele dia, adaptando-o a algum fato novo que pudesse acontecer.

De acordo com o psicólogo da aprendizagem David Ausubel17, o principal

no processo de ensino, é que a aprendizagem seja significativa. Isto é, o material a ser aprendido precisa fazer algum sentido para o aluno. Isto acontece quando a nova informação “ancora-se” nos conceitos relevantes já existentes na estrutura cognitiva do aprendiz. Neste

17

AUSUBEL, D., NOVAK, J., & HANESIAN, H. Educational Psychology: A Cognitive View (2nd Ed.). New York: Holt, Rinehart & Winston. 1978.

processo, a nova informação interage com uma estrutura de conhecimento específica, que Ausubel chama de conceito “subsunçor”. Esta é uma palavra que tenta traduzir a inglesa “subsumer”.

Quando o material a ser aprendido, não consegue ligar-se a algo já conhecido, ocorre o que Ausubel chamou de aprendizagem mecânica (“rote learning”). Ou seja, isto ocorre quando as novas informações são aprendidas sem interagirem com conceitos relevantes existentes na estrutura cognitiva. Assim, a pessoa decora fórmulas, leis, marretas para provas e esquece logo após a avaliação.

Para haver aprendizagem significativa é preciso haver duas condições: a) o aluno precisa ter uma disposição para aprender: se o indivíduo quiser memorizar o material arbritrariamente e literalmente, então a aprendizagem será mecânica;

b) o material a ser aprendido tem que ser potencialmente significativo, ou seja ele tem que ser logicamente e psicologicamente significativo: o significado lógico depende somente da natureza do material, e o significado psicológico é uma experiência que cada indivíduo tem. Cada aprendiz faz uma filtragem dos materiais que têm significado ou não para si próprio.

Na escola dominical, na classe “Jardim de Cristo” a aprendizagem se tornava mais concreta pois o que as crianças escutavam ali era questionado na classe e também em casa e colocado em prática nos momentos de necessidade, ou seja, em momentos de angústia material ou psicológica. Além disso, as professoras faziam a conexão do que elas contavam sobre a Bíblia e a religião com fatos do dia-a-dia, utilizando-se das experiências delas mesmas e das crianças.

2. – O pequeno “crente” 18 fora da igreja

18 Crente: segundo o Minidicionário Aurélio século XXI, crente é adjetivo e também substantivo, 1. Que ou

Considerando-se como o crente era tratado, até o final dos anos 80, podemos pensar em atitudes de sofrimento ou em guetos que se formavam nas periferias das cidades, quando o crente, principalmente o pentecostal sentia-se diminuído perante a sociedade, sobretudo pelas brincadeiras que os não crentes faziam.

Atualmente, com o franco crescimento do universo dos evangélicos, sobretudo dos pentecostais, isto já não ocorre. Os crentes não temem serem ridicularizados ou marginalizados em quaisquer esferas sociais, seja no trabalho, na família ou na vizinhança. Deste modo, as crianças nascidas em lares pentecostais ou evangélicos, e aquelas que frequentam a escola dominical, passam a crescer em um ambiente no qual não se é mais ridicularizado pela escolha religiosa.

Entrevistando algumas crianças do Jardim de Cristo e algumas mães, percebi que as crianças apresentam um comportamento diferenciado das “não crentes”, tanto por influência dos pais evangélicos (em certos casos somente um dos pais é assembleiano) e da escola dominical.

A criança assembleiana, buscará solucionar seus problemas (medos, angústias, frustrações, etc.) através da esfera religiosa, enquanto que outras tentaram outros caminhos, pensando na religião somente quando alternativas anteriores falharem.

3. – Análise da Lição

As Assembléias de Deus possuem uma Casa Publicadora, a CPAD, e está produz e edita publicações (lições/revistas) que servem como manual de estudo para os membros que frequentam a escola dominical, além de livros, revistas mensais e jornais voltados ao público das Assembléias de Deus e também como material de apoio à evangelização.

Até meados dos anos 90, a palavra crente tinha significado extremamente pejorativo, tratava-se em geral, dos não-católicos, aqueles com ‘costumes’ estranhos, portanto eram como algo marginal à sociedade. (N.A)

Estas lições são divididas por faixa etária, da seguinte maneira: • Maternal – 2 e 3 anos;

• Jardim de Infância – 4 e 5 anos; • Primários – 6 a 8 anos;

• Juniores – 9 a 11 anos; • Juvenis – 12 a 14 anos; • Adolescentes – 15 a 17 anos;

• Discipulado 1: novos convertidos – aluno. • Discipulado 2 – aluno.

Todas as revistas têm a versão para o aluno e para o professor. São 4 revistas anuais para serem usadas em 4 trimestres. O aluno lê uma parte por dia e discute com os outros com a ajuda do professor na escola dominical. No caso das crianças pequenas, na Sede da Assembléia de Deus Ministério do Belém de Presidente Prudente não há a classe Maternal, ficando Maternal e Jardim juntos. Nas lições de ambos, há somente no início, um

plano de frequência19 (que as professoras optaram por não usar) título de cada lição e um

desenho para colorir referente ao título seguido no rodapé da página do texto áureo20.

Há um currículo sucinto da versão da lição do Jardim de Infância para ser realizado em 2 anos:

Ano 1: Deus criou todas as coisas.

19 As professoras controlavam o total de crianças presentes, revistas e Bíblias, fazendo a chamada dos alunos

matriculados de maneira discreta, conferindo com os olhos quem estava presente, a professora L. encarregava-se sempre de passar o relatório para o secretário da igreja.

20 Texto áureo se trata de um versículo da Bíblia ou parte de um versículo que, nas lições da escola dominical são

o resumo do assunto estudado durante a semana, este verso é repetido várias vezes durante a escola dominical e apresentado no final dela e ainda quando todas as classes se encontram no encerramento da escola aos domingos, cada classe fica em pé e repete o verso áureo. É mais do que tudo uma metodologia para o aprendizado de versos da Bíblia sem que seja necessário saber ler.

Deus criou todas as coisas; Jesus, a promessa de Deus; O cuidado de Deus e Jesus, praticando o bem.

Ano 2: Jesus, a promessa de Deus.

Deus, o maior amigo; Jesus unindo o homem a Deus; Deus, o

pai amoroso e O dom maravilhoso de Deus.

O conteúdo estudado pelas crianças do Jardim não segue ordem bíblica cronológica, mas foi organizado de modo que elas aprendam (segundo o credo da denominação) que tudo no mundo é obra de Deus, que Deus tem um filho chamado Jesus, que viveu entre os homens e que deve-se fazer o bem. Atrelado ao conteúdo do currículo da escola dominical está latente um conjunto de comportamentos ideais para a criança pentecostal.

Desde pequeno, o assembleiano é preparado para: aceitar as pessoas e as tristezas e que há alguém, acima do bem e do mal, preocupado com seu bem estar.

4. – Dados sobre a entrevista com as crianças

Ao realizar a entrevista na qual tinha o objetivo de que as crianças, que tinham entre 4 a 6 anos e podiam dar respostas mais coerentes, me contassem por que iam à escola dominical obtive dados interessantes:

Muitas delas viam realmente a escola dominical como espaço de aprender, e não como espaço de lazer e socialização, onde encontravam com outras crianças da mesma faixa etária.

Mesmo com brinquedos e doces na sala onde se realizava a escolinha, as crianças se interessavam pelas mensagens que as professoras traziam e as respeitavam muito.

T (menina de 4 anos): “eu gosto de vir na escolinha por que eu escuto a historinha e pinto”.

I (menina de 4 anos): “meus irmãos são grandes e vão na escola, eu vou nesta escola e eu tenho prova aqui, eu gosto muito, eu gosto de cantar.”

As crianças menores também se sentiam bem na classe, mas necessitavam mais da companhia de um dos pais, em geral da mãe. Todas acompanhavam a oração, cânticos e historinha, além de colorirem as figuras referentes à historinha do dia.

5. – Quem quer ser crente?

Como já mencionei anteriormente, o esteriótipo do ‘crente’ mudou muito da última década para cá. Atualmente o pentecostal não é mais alvo de zombaria ou exclusão como nos primeiros tempos, onde o Brasil colonial, estava mais apegado ao catolicismo adotado e engolido vindo de Portugal.

Durante a pesquisa de campo, conversei com as professoras do Jardim de Cristo, pastores, líderes e membros de longa conversão ou récem convertidos, com filhos que estão ou que passaram pela escola dominical, quando pequenos.

O que constatei, foi que a aceitação atualmente é muito maior e que as crianças tem sido estimuladas a falar mais sobre a escolha religiosa da família sem se sentirem diminuídas por isto. Os assembleianos se sentem aceitos socialmente, parte de um grupo com seus valores próprios que lhes dá perspectivas e seus medos são abrandados.

Os assembleianos educam suas crianças para que tenham um diferenciado no sentido visão de mundo, onde a fé, faz a diferença na solução de problemas cotidianos de toda ordem.