• Nenhum resultado encontrado

3 NOS BASTIDORES DA CENA: SEXUALIDADE, GÊNERO E PODER . 78

3.6 As falas de outras vozes: primeiro ensaio

“A miséria sexual, finalmente, não é a falta de sexo, a reclusão, a proibição; a miséria sexual é a obrigação do sexo como medida do ser, como essência identitária, padrão de

comportamento, verdade na qual desenho meu perfil, meus contornos, minha inserção no mundo”. (SWAIN, 2002, p. 334)

Aqui se poderia recomeçar de várias maneiras. A vontade é que siga pensante como num teatro real da vida cotidiana. Mas preferiu-se começar pelos menores das minorias.

Pelos abjetos do processo de normatização. Aqueles que, além das posições, desafiam a norma. Ciente de que as minorias, em certos casos, não se traduzem numa inferioridade numérica, mas sim em maiorias silenciosas que, como foi o caso das mulheres que ao se politizarem, com a problematização gênero, deixaram de ser vozes silenciosas em territórios domésticos e privados, para se colocarem em territórios públicos, pelos vários cantos do mundo. De outra forma, assim também o estigma tem-se tornado, em certos casos, orgulho homossexual. Estas visibilidades, inicialmente, têm efeitos diversos e contraditórios: enquanto alguns setores sociais passam a demonstrar uma crescente aceitação da pluralidade sexual, outros setores tradicionais renovam (e recrudescem) seus ataques, dando indicações à retomada dos valores das ordens e das hierarquias sociais e tradicionais da família, e até manifestações de extrema agressão e violência física.

Se antes, pelo menos até o final do sec. XVIII, as relações entre as pessoas do mesmo sexo eram consideradas indesejáveis, mas qualquer um estava sujeito ao pecado da sodomia, já no sec. XIX, foi definido um tipo especial de sujeito; o sujeito desviante da norma, marcado, reconhecido e reconhecível, que da segregação passou ao segredo. E ali permaneceu para escapar da violência e da rejeição impostas pela ordem da sexualidade legítima.

Entretanto, mais recentemente, diante das diferentes formas de violência, homens e mulheres contestaram e se arriscaram a sair fora desse limite categorizado como desvio, dando assim visibilidade a uma luta que varia de corpo e de tom em diferentes contextos.

Deve-se sublinhar que, há bem pouco tempo, a diversidade sexual não era questão corrente no quadro institucional em Cabo Verde. Permaneceu em surdina do corpo social.

Entretanto, há muitos casos de sofrimento e perseguição e de morte (uns mais antigos e outros recentíssimos). E enquanto permanecendo assim, alguns conseguem de forma artística escapar dessa quadratura, em muitos casos, deixando rastro de enigma. Nesse sentido, são trazidos para análise aqui alguns que passam entre boatos e histórias de vida. É possível que, a partir desta discussão, entretanto, mesmo que não seja possível levá-la adiante como conviria, se possa abrir caminhos para outras investigações. Talvez este trabalho possa servir para abrir

algumas portas. Talvez sua utilidade seja menos a de se amarrar estritamente a uma questão do que a de elucidar um campo problemático em que muito há ainda por fazer.

Nesta primeira cena, Dona Josefa, professora dos tempos, como achei precioso no momento chamar, paciente como ninguém, me dispensa todo o seu tempo - o prazer de contar se encontra com a vontade de escuta. Não me fiz de rogado. Olha, essas coisas também têm seus mistérios, fazendo ecoar memórias datadas: Porto - Ribeira da Barca, entre 1985 e 1990.

Zinha levantava sempre cedo para seus afazeres de Rabidante (feirante), tomava o carro e seguia com as colegas pelo interior de Santiago, comprando e vendendo, tudo o que se tinha de melhor em hortaliças e legumes. As companheiras gostavam dela porque se sentiam seguras; os homens a respeitavam porque falava pouco e fazia muito. Zinha era mulher na força da idade: - mais força do que idade, diziam. Ninguém sabia direito porque ela nunca tinha se casado. Uns diziam que ela espantava os homens com a sua grandura, outros que era por causa da sua voz grossa, outros diziam outras coisas que ninguém ouvia ou sabia repetir.

Por que fazia pouco dos homens - bonita, trabalhadeira e educada, eram perguntas silenciosas das colegas, dos rapazes para si mesmos. Os mais velhos já andavam preocupados porque parir era ter socorro para a velhice. “Não preciso de homem. Me deixem em paz.

Tenho dois braços, duas pernas, dois olhos na cara.” Quando não respondia igual a uma pedra.

Nas tagarelices, durante as viagens, ela ficava sempre calada… Mas na hora de negociar, e quando os proprietários vinham com muita conversa a fazer cálculos de máquina e a pesar os produtos na balança decimal, Zinha passava para a frente e fazia de contas cor, por ela e pelas colegas: Mana, o teu dá x, Lita o teu dá y, Fina, deixa que eu te ajudo – deixa que eu ponho este balaio no carro porque é muito pesado. Deixa que resolvo aqui depois tu me dás o dinheiro. Enquanto os homens manejam as máquinas, ela estendia a mão com o dinheiro. Estes olhavam, continuavam seus cálculos. Depois, para tirarem vergonha, metiam conversa e ofereciam um produto; e convidavam que viesse para a semana. Mas os homens morriam de raiva. As mulheres engoliam o riso no fundo da garganta. Olhavam para os sacos e balaios como quem queria dizer algo. As mulheres ora invejavam Zinha, ora achavam que ela era muito burra em não aceitar as ofertas. Quase sempre pensavam que Zinha trambicava os homens nas contas. Mas quando chegavam em casa e pesavam os legumes quilo por quilo, Zinha não tinha roubado nada. Era o preço justo. Zinha fazia muitas contas de cabeça. Que seria das rabidantes sem Zinha?

Tóti filho de Fica, rengo (baixinho), runho cima cardissanto (malvado) andava sempre querendo puxar conversa com Zinha quando os rapazes chegavam perto. Mas ela não o reparava. Matutava ele, então, em como dar uma lição na Zinha.

Mulher que não fala é kampresta (sem préstimo). Mulher que não se deixa tocar e olha os homens nos olhos “é ka pursi” (não é coisa boa) . E Zinha era daquelas mulheres armada em bom que parecem desafiar os homens com suas frases curtas e silêncios compridos. E Tóti não se deixava amedrontar nem por homens, quanto mais mulher. Tinha que dar uma lição nela. Ela Tinha que o respeitar. Como todos os homens, como todos os rapazes e como todos os grandes daquela ribeira.

Era ainda escuro e Zinha descia à fonte para apanhar água. No Matinho havia uma nascente de água limpa onde ela sempre ia de madrugada. Contava preparar cedo para viajar no primeiro carro e chegar. Hoje tinham de ir à horta de Tóti e queria fazer tudo direito. Sabia bem do rapaz, e ela não queria complicações. Com ele é pão pão queijo queijo; mas as amigas temiam o marreco.

Na nascente do Matinho, depois de apanhar a água, aproveitou para lavar os pés, antes de pôr a lata na cabeça. Abaixou-se e alguém a empurrou. Tentou se levantar sem entender nada e viu Toti, com uma catana na mão direita. Assustou-se, mas conteve o grito.

- É hoje que eu te mostro! Toti sabia que a melhor maneira de domar uma mulher e fazer com que ela respeite um homem para o resto da vida era servir-se dela. Não mediu esforços, tinha passado muito tempo no sereno a aguardar. Mas tinha valido a pena. Ela ali estava dobrada, assustada, com medo.

Colocou-lhe a espada perto do pescoço: - Se levantares, corto-te.

Parece que Zinha terá dado um pontapé nos colhões (nos ovos) do Toti. Parece que a dor fez Toti soltar a espada, porque depois a polícia encontrou a espada a metros de distância, na pia. Ninguém soube contar como foi que alguém sentiu e gritou chamando a polícia com posto ali perto. Mas parece que a luta demorou uma meia hora. Muitos dizem que Tóti não conseguiu. O próprio Toti disse ao polícia que não tinha conseguido porque não quis. Mas a polícia não estava tão certa assim e até soltou Toti, uma semana depois, porque ele estava bem pisado, com hematomas por todo o lado.

Fica, a mãe do Toti sofreu muito com as dores do filho. Toti levou muitas feridas espalhadas pelo corpo. Uma mãe de coração partido, quando decide, toma as providências pelo filho. Sabe-se que Toti viajou para Paris no dia em que foi solto.

Sabe-se que Zinha demorou uma lua sem ser vista. Ficou trancada na sua casa, sem trabalhar e sem falar com ninguém. Mas todos garantiam que ela estava bem, sem nenhum arranhão.

Passaram-se meses. Zinha passou a fazer só vida noturna.

Um dia apareceu de dia, no dia das Cinzas, toda vestida de homem. - Olha Zinha vestida de Carnaval! Vamos jogá-la na água, vamos. - Não estou para brincadeiras, e afastou-se.

Depois desapareceu ...

Anos depois se ficou a saber que Zinha vivia em Tarrafal. Só não mudara de nome. Era homem de respeito, trabalhava de guarda noturno. Tinha família e até filhos. Vai entender isso! E isso não é mais segredo aqui- arrematou Dona Josefa.

Zinha, nas palavras de Dona Josefa, era um mistério. Com Tânia Swain (2002, p. 331), lembrando Butlher (1994), pode-se perceber que “uma das razões pelas quais a heterossexualidade tem que se reelaborar, reproduzir-se ritualmente em toda parte, é para suplantar o sentido constitutivo de sua própria fragilidade”. A pequena estatura do Toti era desafiada pela grandura de Zinha, pela voz grossa e pelo olhar firme; a representação social o obriga a repor a norma. Afinal, tudo o que não se mostrasse macho e viril era fêmea e, conseqüentemente, menor e de mulher. Havia um contraste entre as duas aparências. Diante de uma realidade em que o homem não pode bater numa mulher, sob pena de se ver como um palerma, o único caminho era possuí-la. Deste modo, a sua pequenez – feminina era compensada pela dominação daquela que desafia o homem - o metro padrão. Pois, conhecendo os hábitos de Santiago nessa época, somente uma intimidade ou a suspeita dela já ditava a submissão da fêmea. Porque ao homem bastava dizer - que sim, para que a mulher ficasse maculada. Não tendo mais segredos ficaria impura e pública. A não ser que o homem a assumisse.

Diante de um sexo que não era verdadeiro, Toti terá ficado abismado, estarrecido. Não lhe valeram as espadas. Amofinou, aceitou ter apanhado daquela que até onde se conhecia era mulher; confessou nem mesmo ter conseguido o intento. Mas viajou no dia que saiu da prisão.

Foi afastado pela mãe Fica. Estava maculado também na sua essência de homem, por ter tido

contato com a ausência e com o engano da natureza. Entre o sexo e a verdade, como lembra Foucault (1984), existem relações complexas, obscuras e essenciais.

Somos, é verdade, mais tolerantes em relação às práticas que transgridem as leis. Mas continuamos a pensar que algumas dentre elas insultam „a verdade‟: um homem passivo, uma mulher viril, pessoas do mesmo sexo que se amam... Nós dispomos talvez a admitir que talvez essas práticas não sejam uma grave ameaça á ordem estabelecida; mas estamos sempre prontos a acreditar que há nelas algum erro. (p. 4)

Em moldes politicamente corretos, Zinha deixou de existir; não tinha mais a identidade, um sexo que a guardasse em segredo. Fechou-se em casa durante uma lua. As palavras de Foucault (1984, p. 4), assim, ironizam que “é no sexo que devemos procurar as verdades mais secretas e profundas do indivíduo, que é nele que se pode melhor descobrir o que ele é aquilo que melhor o determina.”

Porém eis que Zinha resolve o problema e se resolve diferente de muitas histórias conhecidas, na literatura, na história e na ciência. Tomou seu tempo, construiu em si uma nova verdade, determinado, insuspeito, material e socialmente aceite, em outro lugar.