• Nenhum resultado encontrado

DESVENDANDO AS ESCOLHAS TEÓRICO METODOLÓGICAS

O PROCESSO DE TERRITORIALIZAÇÃO DO ALTO SERTÃO ALAGOANO E SUAS CONEXÕES COM AS HISTÓRIAS DAS FEIRAS

2.1 Por uma sociogênese das feiras

2.1.2 As feiras e a constituição dos povoados/cidades

Vimos que a constituição de povoamentos está diretamente relacionada às trocas comerciais, no caso dos territórios de Água Branca e Delmiro Gouveia, isso não foi diferente. Na verdade, as praças de comércio foram se constituindo de forma muito próximo a expansão desses povoados/cidades. A vila de Água Branca foi criada pela resolução nº 681 de 24 de abril de 1875, desmembrada da Mata Grande. Através da Lei nº 805, de 02 de junho de 1919, a vila foi elevada à categoria de cidade. Já o povoado Pedras, que pertencia a vila de Água Branca, foi elevado à categoria de município, com a denominação de Delmiro Gouveia, pela lei 1628, de 16 de junho de1952.

Nesses territórios, observamos que existe uma inter-relação, de uma forma ou outra, entre eles e entre o campo e a cidade, se levarmos em consideração as inúmeras concepções de urbanidades e ruralidades brasileiras. Dentre elas, a de Veiga (2002), que em suas análises apresenta a perspectiva de um Brasil menos urbano que se calcula se utilizarmos critérios mais comumente usados internacionalmente. Porém, mais do que uma preocupação meramente contábil, seu objetivo é apontar para “a necessidade de uma renovação do pensamento brasileiro sobre as tendências da urbanização e de suas implicações sobre as políticas de desenvolvimento que o Brasil deve adotar” (p. 31).

O autor procura demonstrar que o tema da urbanização e suas implicações na compreensão do processo de desenvolvimento de uma parcela do país, considerada urbana, estão permeados pelas dinâmicas econômica, social, política e cultural das ruralidades brasileiras. Para compreender seus argumentos, é preciso observar que o rural não pode ser identificado exclusivamente como aquilo que está fora do perímetro urbano dos municípios brasileiros, muito menos com as atividades exclusivamente agropecuárias.

Não iremos fazer um resgate histórico de todas as relações entre cidade e campo nos mais variados territórios. A discussão a ser apresentada está diretamente relacionada aos itens anteriores, no que diz respeito à influência rural, de uma sociedade diretamente ligada à natureza, sob as cidades do Nordeste do Brasil. Um primeiro ponto a ser destacado é que, como lembra Diégues Júnior (1964), “nem a experiência holandesa de vida urbana no Recife, nem Salvador, sendo sede do governo geral e, depois, do vice-reinado, chegaram a constituir um meio urbano devidamente caracterizado ou permanente” (p. 153). Há de se considerar, porém, que:

As idéias de vida urbana no Brasil parecem fora de dúvida terem surgido com os holandeses no Recife. O domínio flamengo foi um domínio urbano, em tremendo contraste com o mundo rural que então sustentava a capitania Duartina. Implantaram- se os holandeses numa área que eles tornaram cidade, dando-lhe vida urbana. Contudo, não se fixaram com as raízes que seria de esperar, pois o grude mesmo, o que prendia, vinha dos alicerces rurais. Foi, dentro do quadro brasileiro de então, uma experiência esporádica; não seria difícil, por isso mesmo, o fracasso da experiência urbana do Recife: experiência, alias, restrita ao Recife, e nem mesmo alongada a outras partes do Nordeste, igualmente sob domínio neerlandês (DIÉGUES JÚNIOR, 1964, p. 153).

Por este viés, do contato com a experiência rural, Forman (1979) diz que o camponês do Brasil colônia vivia em pequenas vilas, povoados e cidadezinhas, em aglomerações espalhadas pelo vasto interior do país. Ali os camponeses reconheciam a autoridade do padre, prestavam suas homenagens aos santos, e ofereciam trabalho e fidelidade a algum membro da classe proprietária, em troca de uma parcela de terra para cultivo. Historicamente, eles eram os mesmos seres dependentes. Sobre isso, nota Forman:

O camponês do Brasil colonial estava organizado em regimes familiares que produziam colheitas comerciais para o mercado exportador e gêneros alimentícios para consumo doméstico vendendo os seus excedentes em feiras locais e suplementando sua renda através de uma variedade de ocupações artesanais [...] Desde os primórdios da colonização o camponês brasileiro tem sido um vendedor de gêneros alimentícios em feiras locais [localizadas, seja] na fazenda vizinha, na cidade mais próxima, e mesmo nas cidades costeiras em crescente desenvolvimento (FORMAN, 1979, p. 44-6).

Na verdade, podemos considerar que cada região onde se encontravam os vários núcleos de povoação possuía características diversas de inter-relação entre o campo e a cidade, o que marcava as particularidades das Capitanias. Ou seja, analisando as várias regiões coloniais enquanto partes distintas de um mesmo todo que era o Império Português, pode-se observar, pelas análises de Forman (1979), perspectivas que as diferenciavam entre si. Além disso, é importante destacar que esses processos de aglomerações ganharam maiores contornos a partir do século XVII, a saber:

[...] a mais antiga e primeira vila instalada oficialmente na “América Portuguesa” foi a de São Vicente em 1532, pelo donatário da Capitania de mesmo nome, Martim Afonso de Souza. Ainda segundo o autor, ao final do século XVI foram fundadas pelo menos quatorze vilas e três cidades espalhadas pelas Capitanias existentes na colônia portuguesa da América. Já no século XVII essa quantidade saltou para cinquenta e uma vilas e sete cidades, e até o ano de 1720, mais dezesseis vilas e uma cidade foram somadas aos números do seiscentismo (AZEVEDO, 1956, p. 11).

No caso do Alto Sertão Alagoano, com sua terra fértil, logo a família Vieira Sandes começou o plantio de lavouras e a criação de gado. Como salientamos antes, a criação do gado teve uma importância fundamental para a ocupação territorial e para a fixação da população no interior do Nordeste, assim como para criação de feiras e a origem de algumas cidades. Nas palavras de Câmara Cascudo: “os velhos „currais de gado‟ foram os alicerces pivotantes das futuras cidades. As fazendas coincidem como denominadoras das regiões povoadas.” (CASCUDO, 1970, p.84). Ao lado delas, estão também os engenhos de cana-de-açúcar como responsáveis pela expansão do território de Água Branca. Um registro desse tipo de ocupação sócio-espacial pode ser visto na figura 2.2,

Figura 2.2 – Moagem da cana-de-açúcar, Água Branca - AL

Fonte: Livro terra das Alagôas, 1922.

É importante salientar que até a cana-de-açúcar, que era típica do litoral, foi cultivada no alto sertão, gerando a implantação de engenhos de rapadura, que duraram vários anos, restabelecendo-se no século XX. Segundo Oliveira (2006), já existiram em Água Branca até 147 engenhos de produção artesanal.

Segundo depoimentos de agregados de fazendeiros, “os senhores dessas áreas” costumavam compartilhar o leite, algumas carnes e animais com os agregados, e algumas “proteções sociais” sem obrigação de pagamento, em moeda, mas por meio da prestação de serviços e obediência. Nessas mesmas fazendas, produziam-se pequenas roças, ou outras formas de produção, utilizando para isso a característica de reciprocidade assimilada por relações de poder entre patrões (proprietários) e camponeses.

Zezinho, por exemplo, agricultor feirante de Água Branca, 76 anos, contou-nos que seu avô era um “homem livre” que tangia o gado até a feira da Várzea do Pico. Nessas andanças começou a trabalhar para o Barão de Água Branca, Joaquim Antonio de Siqueira Torres, exercendo, além da posição de boiadeiro do gado, também a atividade do corte da cana-de- açúcar e cultivo de outros alimentos, como o feijão e macaxeira. Vale destacar que essa última servia tanto para manutenção familiar quanto para, de vez em quando, comercializar na feira local, que seu avô conhecia muito bem, desde as andanças com o gado até ela.

Salienta ainda, seu Zezinho, que sempre ouvia histórias do seu avô engrandecendo sua condição de vida e de sua família depois de ter ido morar “nas terras do Barão”. “Dizia que

se sentia mais protegido ali, porque passou a cultivar mais produtos e as coisas ficaram mais perto, inclusive para levar a família à missa”. Este aspecto é importante para dizer que a fé

católica ganhou representatividade nos grupos que estavam ganhando forma na região da A figura 2.2 faz parte do livro “Terra das Alagôas”, publicado pela Roma Editori Maglione & Strini, succ; de E. Loescher, 1922. Ela representa a moagem de cana-de- açúcar em Água Branca, nos anos 1910.

Várzea do Pico, isso aconteceu com o apoio da família do Barão.

As missas representavam maneiras de interagir localmente com os grupos de vizinhos, parentes e amigos. Com a ampliação dessas interações, de tempos em tempos, os agentes de diferentes categorias sociais se organizavam, cada um a sua maneira, junto aos representantes da religião, para reformar as capelas, restaurar os salões ou capitéis. As diferentes capelas no interior das comunidades foram ampliadas ao longo dos anos, quando as comunidades cresciam em população.

Para se ter uma idéia, em 1770, foi contruída a primeira Igreja (Nossa Senhora do Rosário) a mando do Major Francisco Casado de Mello, no centro de um triângulo de três comunidades: Olaria, Várzea do Pico (onde na época já funcionava um pequeno comércio em bancas de madeira, conhecido pela população como mercadão e a feira de gado) e Boqueirão. Aos demais sujeitos, cumpriu-se o dever (religioso e de mando do patrão) de erguer a construção. É importante dizer que essas construções perduram no espaço do município de Água Branca de forma significada pelos sujeitos contemporâneos, como podemos obervar na preservação de suas estruturas, pela figura 2.3,

Fonte: acervo do pesquisador, 2010.

Os detalhes na figura 2.3 foram fotografadas em abril de 2010. Como dissemos acima, esta capela de Nossa Senhora do Rosário foi construída antes de 1770, para satisifação da familia Sandes e de seus compadrios e subordinados, como resgatado na fala de Zezinho.

Figura 2.3 – Painel com detalhes da igreja Nossa Senhora do Rosário, Água Branca - AL

Construções semelhantes, muitas vezes bem mais ornamentadas (igrejas setecentistas), podem ser encontradas em vários lugares do Brasil, principalmente em Minas Gerais.

Destarte é válido dizer que o Barão de Água Branca, Joaquim Antonio de Siqueira Torres, com sua segunda esposa, Joana Sandes, tiveram um filho que tornou-se padre (Cícero Joaquim de Ciqueira Torres) e vigário de Água Branca. Isso pode ter, inclusive, relação com uma carta enviada pelo Barão ao irmão, também padre, Alexandre de Siqueira Torres. Nela, o Barão de Água Branca relata que na sua sesmaria deve ser feito um trabalho de catequização, pois ali existiam muitos gentis que precisavam se catequizar.

Em 1º de julho de 1864, foi criada a freguesia Nossa Senhora da Conceição, nesta foi construída uma igreja com o mesmo nome. Em abril de 1875, o povoado foi instituído à vila de Água Branca. E de acordo com a resolução nº. 805, desmembrou-se do município de Mata Grande. Somente em 02 de junho de 1919, a vila passa a categoria de cidade de Água Branca. A participação desses sujeitos como fiéis dessa religião é observada na preservação de suas estruturas e inserção nos rituais festivos, como podemos notar nas imagens desses espaços, pela figura 2.4:

No detalhe 1 da figura 2.4, cedida pela prefeitura da cidade de Água Branca, foi tirada em 1910; o detalhe 2 e 4 deste painel faz parte do acervo particular do autor e traz o estado de

Figura 2.4 – Painel com detalhes de dois momentos da igreja Nossa Senhora da Conceição, Água Branca - AL

Fonte: acervo da PMAB, 1910/acervo de entrevistado 1980.

1 2

conservação da igreja, bem como o trânsito de pessoas no dia de feira; no detalhe 3, cedida por uma feirante agricultora durante a pesquisa de campo, em julho de 2010 representa o batizado de uma filha de feirante, realizado na década de 1980. Essa igreja foi construída em 1871, a mando do Barão de Água Branca e entregue aos fiéis em 1876. A sua arquitetura foi influenciada pelas igrejas de Salvador da Bahia, a primeira capela do povoado era, naquela época, subordinada a diocese de Penedo.

Observamos, nesse sentido, que a família Vieira e Sandes continuou explorando a região, agora com os Barões Joaquim Antônio de Siqueira Torres e suas esposas Gertrudes Vieira Sandes (primeira esposa) e Joaquina Vieira Sandes (segunda esposa e irmã da primeira). Por muito tempo a família dos Torres comandou econômico-politicamente a região, dentre elas, Delmiro Gouveia, antigo povoado Pedra (nome motivado pelas grandes rochas existentes no lugar). A forma de controle dessa família pode ser observada, inclusive, em suas imagens por eles projetadas, a citar a figura 2.5,

Fonte: acervo da família da Baronesa de Água Branca, 1917.

A fotografia da figura 2.5 pertence ao acervo da família do Barão de Água Branca. Nela estão presentes 22 pessoas, filhos e netos do Barão, bem como uma “criada” que cuidava das crianças e tem como pano de fundo o Casarão da família. Podemos observar uma relação de hierarquia entre homens e mulheres, pois os filhos estão em um degrau mais elevado do terraço da casa, exceto a “criada” que está segurando as crianças (demonstrando sua posição no interior da família) e representando a subserviência, trabalhando até mesmo no momento da fotografia. Além disso, notamos entre as crianças, uma negra, ela representa as relações de

proximidade que foi se estabelecendo entre Senhores e escravos, analisado por Gilberto Freyre, no livro “Casa-Grande e Senzala” (1995).

A família Vieira Sandes também esteve envolvida com a instalação de um tipo de feira no povoado. Como dito, em 1770, já existia um espécie de feira de gado e um mercadão. Ao longo do tempo, a praça de comércio e o mercadão passaram a se chamar feira e ficavam localizados no povoado Várzea do Pico; as pessoas que moravam em outros povoados e sítios caminhavam horas e horas para chegar a esse local. Lá comercializavam e compravam gados e outros produtos, além de fortalecer os laços e conflitos sociais. Essa feira se ampliou com os encontros entre viajantes, mercadores, agricultores, missionários, comboieiros, aventureiros, e todos que habitaram e que, de alguma forma, contribuíram para a construção e transformação do lugar.

Embora tenha se ampliado a participação de grupos sociais na feira, essa ainda se prendeu aos interesses dos senhores de engenho e fazendeiros de gado da região. Pois como lembra Garcia-Parpet (1977), em seu estudo em Pernambuco, as relações de dependência personalizada estruturaram o espaço social rural e isolaram os trabalhadores que lá residiam dentro das grandes propriedades, limitando-os às atividades da cidade, inclusive nas feiras semanais.

Apesar de uma certa auto-suficiência dos latifundiários e da limitação da participação dos seus agregados na comercialização de suas plantações e criações, observamos a mediação desses senhores no fluxo de produtos entre regiões, especialmente: a massa de mandioca, couro de gado, rapadura e mel de engenho, e as frutas tropicais; principalmente para Pernambuco e Bahia, através do rio São Francisco. Esse rio escoava a produção local e desembarcava sal, peixe seco e outras tantas mercadorias, vindas de várias regiões. Comboieiros e mercadores utilizavam muares para o transporte desses produtos para o litoral e demais regiões do sertão.

O fluxo maior de pessoas transitando e se estabelecendo no Alto Sertão Alagoano possibilitou a transferência da feira da Várzea do Pico para a freguesia de Água Branca e também para a criação de uma feira no povoado Pedra, localizada próxima à estação da estrada de ferro da então Great-Western, no centro do povoado. Um pequeno grupo de feirantes começou a se instalar nesse espaço, iniciando a vida corrida de muitos que se faziam em duas ou mais feiras daquela região.

A frequência de pessoas na feira do povoado Pedra ganha intensidade com o processo de industrialização trazido pelo empreendedor Delmiro Gouveia. Esse chega à Água Branca em novembro de 1902, instalando-se em uma fazenda ligada ao povoado Pedra, em 1903.

Esse visionário decidiu se instalar no povoado por sua posição geográfica, em plena zona criadora dos sertões, e na confluência de quatro estados – Alagoas, Bahia, Sergipe e Pernambuco, o que favorecia o desenvolvimento do seu negócio (comercialização do couro de gado); e pela facilidade do transporte dos produtos a adquirir e adquiridos pela estrada de ferro Piranhas-Jatobá (MARTINS, 1979).

Em meio às transformações ocorridas no Sertão, de um lado pelo seu povoamento e do outro, pela concentração de terras e as formas como eram conduzidas as relações econômicas e políticas, inclusive a seca e suas representações, toma forma na região o movimento cangaceiro. Para Queiroz (1986), “o cangaço independente começou, principalmente devido a um período de marasmo econômico para as populações do Nordeste que estava ligado às circunstâncias específicas de seu próprio meio”. Quer dizer, a maior parte da população via-se confinada aos seus próprios recursos (quase inexistente), pois o meio exterior nada lhes oferecia, mesmo recorrendo a complementações ocupacionais e financeiras fora dele (Nordeste).

Em 1897, surge o primeiro cangaceiro importante na região, Antônio Silvino. Ele ficou conhecido como bandido cavalheiresco, que respeitava e ajudava muitos, atuando durante 17 anos nos Sertões de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Em meio a essa turbulência, surge o mais importante de todos os cangaceiros e quem mais tempo resistiu (cerca de 20 anos) ao cerco policial: Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também chamado rei do cangaço e governador do Sertão. Salientamos ainda que este movimento tomou uma forma complexa, inclusive com a inserção da mulher, a partir de 1930. Especificamente com a companheira de Lampião, Maria Bonita, e depois vêm outras que se aliam ao bando (VAINSENCHER, 2009).

A representação social deste movimento se (re) atualiza de acordo com o momento histórico. Para se ter uma idéia, remetemo-nos a Sara, feirante agricultora que mora na cidade de Água Branca, ela guarda com muito cuidado o livro infantil de Prieto “Terra - Lampião e a Baronesa” (2002), dizendo que nele está a história de sua parente “Dadá” e de “sua gente”. Em um trecho do conto, intitulado “Corisco e Dadá”, Maria Bonita e Dadá defendem uma moça que apanhava do marido. O bando está numa feira e a moça aparece pedindo socorro às cangaceiras. Maria Bonita olha compadecida para a moça e a protege do marido que vem chegando. Como o peão não levou a sério a afronta de Maria por ela ser mulher, e ainda a desrespeitou querendo beijá-la, ela o esfaqueia no meio da feira, o faz dançar “na marra”, atirando perto de seus pés e leva a moça para juntar-se ao bando. Maria e Dadá mostram que

[...] Moço não vou lhe contar a maravilha que é minha família, não. Vou é mostrar uma coisa muito importante sobre quem foi mesmo minha família. Veja, consegui comprar aqui na feira um livro muito importante que traz essa história [...] minha mãe sempre contava quem era Dadá e que estava no nosso sangue ser guerreira, porque mulher que é mulher merece respeito, sempre aprendi isso e vou continuar mostrando para os outros. Isso é muito importante moço, é a nossa gente que está registrada no papel, agora imagina quantas pessoas já leram esse livro? (Sara, feirante de Água Branca, 48 anos)

Questionada se teria lido as demais estórias do livro, Sara diz que sim, e outra que tinha lhe chamado atenção era o conto intitulado “Lampião e a Baronesa”. Nele, a autora procura mostrar uma história do Lampião generoso, que salva uma família de comerciantes da falência, protegendo-a da maldade da baronesa, que vivia insatisfeita por não ter casado com o filho do comerciante. Apresenta-nos o “defensor dos pobres”, “o melhor vaqueiro do sertão”, o “Robin Hood” do sertão.

Nesse sentido, observamos que esse movimento tem uma significação que ultrapassa seu contexto sócio-histórico, pois os sujeitos fazem seu resgate, de uma maneira a mostrar a identificação que têm para com aquele movimento, no sentimento de constituição identitária. Para Queiroz (1986), em “História do Cangaço”, é necessária uma posição relativa ao imobilismo dos sertões, pois a área do sertão “não pode ser considerada simplesmente como um lugar adormecido”. Ao contrário, tanto os grupos de cangaceiros como os movimentos religiosos que passavam por aquelas terras eram a prova de que houvera um incessante processo de mudança, na demografia, na geografia, na sociabilidade, ainda que lá se mantivesse uma estrutura familiar e política conservadora, estas não excluíam a existência de mudanças.