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Dentre os pricipais slogans produzidos pelas feministas em sua luta para pautar o sexismo nos debates públicos, a máxima “meu corpo me pertence” alcançou popularidade entre fim dos anos 1960 e começo dos anos 1970, quando as primeiras reivindicações pela inclusão dos direitos reprodutivos e direitos sexuais das mulheres emergiram no cenário internacional. O período despontou como a era em que as brasileiras iriam se esforçar, ainda mais, para conquistar espaços na cena pública, ao elaborar códigos sociais, como Nancy Fraser advoga:

As esferas públicas não são só arenas para a formação da opinião discursiva, além disso, elas são arenas para a formação e o desempenho de identidades sociais [...]. Participar significa ser capaz de falar "em sua própria voz", assim, simultaneamente, construindo e expressando a própria identidade cultural através do idioma e do estilo. (FRASER

apud MOREIRAS, 2001, p. 89)

O momento exigiu uma intervenção mais intensa em contraposição à apropriação dos corpos femininos pelas políticas de controle da natalidade (uso de pílulas anticoncepcionais e as cirurgias de laqueadura) impostas pelos países ditos desenvolvidos como forma de impedir o crescimento da população de nações de uma

América Latina sob o controle das ditaduras civil-militares.A atmosfera contribui para perpetuação das desigualdades de gênero, classe, raça/etnia, geração, credo e orientação sexual, aprofundadas pela forte presença de fundamentalistas religiosos que têm como expressão maior as igrejas cristãs. O fenômeno, que, no passado, era representado pela aliança da igreja católica com os senhores da terra, passou a ser reproduzido, no Brasil, por meio da proliferação do discurso de várias matizes evangélicas pelos meios de comunicação, principalmente a partir dos anos de 1990, quando elas passaram a adquirir cada vez mais espaços na radiodifusão.

Foto 1 – Mulheres picham muro para defender autonomia sobre o corpo (foto: Mariana Pessah).

Foto 2 - Chilenas vão às ruas, nos anos de 1980, para exigir a legalização do aborto.

Com base nos lemas apontados pelas imagens, percebemos que os atos de fala do feminismo contestam as profundas contradições presentes nas relações econômicas, políticas, sociais e culturais em jogo durante esse período, uma vez que, “(...) si queremos saber qué aparência tienen las ideologías, cómo funcionan y cómo se crean,

cambian y reproducem, necessitamos observar detalladamente sus manifestaciones discursivas28” (VAN DIJK, 1999, p. 190). O texto interage com o que Eni Orlandi propõe, ao argumentar sobre a importância do estudo dessas manifestações por meio da análise do discurso, significativa ferramenta na tentativa de apreender a realidade onde os fatos sociais ocorrem:

Na análise de discurso, procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e sua história (...) a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural social. Essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. (ORLANDI, 2001, p.15)

Todavia, não podemos pensar na livre circulação de um pensamento feminista, pela via da linguagem, sem problematizar as relações de poder presentes na sociedade, ignorando o que Michel Foucault denomina de “procedimentos de exclusão”.

Sabe-se que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual de circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo de três tipos de interditos que se cruzam, que reforçam ou se compensam, formando uma grelha complexa que não cessa de se modificar. Notaria apenas que, em nossos dias, as regiões onde a grade é cerrada, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e da política: como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas, de modo privilegiado, alguns de seus mais temíveis poderes. (FOUCAULT, 2009, p. 9-10)

Esse embargo pode ocorrer, ainda, pela imposição de normas, inclusive determinadas pelas instituições que ocupam a centralidade do poder em determinado momento da história. Há o que se convencionou como discurso “autorizado” do Estado sobre a política, e o das religiões sobre a sexualidade, dois territórios que, junto com o campo da mídia, são transversalizados pela supremacia do poder masculino. Dessa forma, tendemos a compartilhar do pensamento de Terry Eagleton, quando o pesquisador chama atenção para o cuidado em refletir sobre o contexto discursivo:

A ideologia é mais uma questão de “discurso” do que de linguagem. Isso diz respeito aos usos efetivos da linguagem

28 Tradução nossa: Se queremos saber qual é a aparência das ideologias, como funcionam e como se

entre determinados sujeitos humanos para a produção de efeitos específicos. Não se pode decidir se um enunciado é ideológico ou não examinando-o isoladamente de seu contexto discursivo, assim como não se pode decidir, da mesma maneira, se um fragmento de escrita é uma obra de arte literária.(EAGLETON, 1997, p. 22).

Mas o que dizer da construção social que relega, às mulheres, um lugar marginal na história, também sendo responsável pela permanência delas na invisibilidade do privado e, por muitos séculos, com pouca possibilidade de expressão e protagonismo político na esfera pública? Essa questão ganhou maior relevância no mundo quando o movimento feminista passou a reivindicar políticas sociais de reconhecimento da contribuição das mulheres para o progresso da humanidade. As diversas ações sociais realizadas pela sociedade são historicizadas por Maria da Glória Gohn.

Chegamos, portanto, aos anos 1980 com um panorama mundial de formas de manifestações dos movimentos sociais bastante alterado. Progressivamente, as lutas na Ásia, na América Latina e na África e o próprio movimento operário, todos fortemente estruturados segundo a problemática dos antagonismos entre classes sociais, deram lugar a outras problemáticas, enquanto eixos centralizadores das lutas sociais. Passou-se pelas revoltas dos negros nos Estados Unidos e o movimento pelos direitos civis; pelas rebeliões estudantis nos anos de 1960, juntamente com a emergência de uma série de movimentos étnicos; pela estruturação dos movimentos feministas conjuntamente com a construção da problemática do gênero; pelas revoltas contra as guerras e armas nucleares; assim como pela constituição do movimento dos probladores ou moradores, ou simples cidadãos, na cena política da América Latina e Espanha. (GOHN, 2009, p. 32-33)

Foi também a partir da articulação das feministas, nessa arena, que surgiu o mote “o pessoal é político”. O slogan sintetizou a reação do movimento à violência doméstica e sexual praticada contra o gênero feminino entre os anos de 1970 e 1980. Um tema que, para além de expressar a revolta com uma situação de opressão, credenciou o movimento feminista a trazer questões completamente interditadas para o debate social. Nesse momento, uma importante aliança estratégica das feministas brasileiras com profissionais de comunicação que atuavam tanto nas redações dos grupos privados de mídia, quanto em produções independentes e revistas tidas como “femininas”, revelou uma estratégia de visibilidade que resultou na grande notoriedade que propostas do movimento ganharam na esfera pública.

O período foi marcado pela definitiva retirada da violência sexista do terreno privado. Pela primeira vez, as feministas desnudaram, publicamente, uma realidade

vivida pelas mulheres no silêncio e no anonimato dos lares. Para Heleieth Saffioti, a questão era pautar a diferença na ordem do dia das lutas sociais, quando as mulheres estavam discutindo junto com uma multiplicidade de sujeitos políticos e ansiavam pelo reconhecimento das suas reivindicações.

A diferença foi estabelecida em termos de agregar a metade feminina da humanidade à sua parte masculina [...] compreendemos as diferenças de raça/etnia e classe social na categoria abstrata Mulher (com M maiúsculo). Por suposto as diferenças diluíam-se no interior dessa categoria genérica. [...] Dessa perspectiva, da qual só se enxergava patriarcado, caminhamos para uma ótica centrada na mulher. (SAFFIOTI 2004, p. 37)

A partir de então, o tema foi tratado como um fenômeno social que exige a desconstrução de valores que oprimem as mulheres, e as feministas passaram a cobrar políticas efetivas ao governo brasileiro e aos órgãos de justiça. No Brasil, as contestações originaram os Conselhos Estaduais de Direitos das Mulheres (1982/1983), as Delegacias de Polícia de Defesa da Mulher (1985) e a primeira casa de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica (1986), em São Paulo. Os órgãos se consolidaram como locais de denúncia e de visibilidade das agressões ocorridas nas relações conjugais. Em seguida, foram instalados centros de referência e de atendimento jurídico, social e psicológico em várias cidades brasileiras e realizadas campanhas informando serviços disponíveis para o acolhimento das vítimas. As iniciativas colaboraram para que a violência fosse reconhecida como um grave atentado aos direitos humanos das mulheres e uma questão de saúde pública.

Os fatos nos levam a concordar com o pensamento de Maria da Glória Gohn acerca da obra do pesquisador Tarow (1994), ao mostrar que o autor identifica múltiplas determinações que favorecem a emergência dos sujeitos coletivos no século XIX. “Para Tarrow, os movimentos sociais ocorrem quando as oportunidades políticas se ampliam, quando há aliados e quando as vulnerabilidades dos oponentes se revelam” (GOHN, 2009, p. 33). No caso, a pressão das feministas, estampada nos meios de comunicação, acabou por convencer o Estado a tomar uma atitude diante dos crimes praticados contra as mulheres. Ao mesmo tempo, mudanças na legislação e uma maior visibilidade pública enfraqueceram os oponentes à atuação feminista nos anos de 1990, como avalia Maria da Glória Gohn, ao postular:

Em resumo, nos anos de 1990, grupos de mulheres foram organizados em inúmeros campos da vida cotidiana, com atuação na política, em redes de conscientização dos seus

direitos, em frentes de lutas contra as discriminações no mercado de trabalho e no cotidiano em geral, em SOSs de defesa contra as agressões físicas que sofriam de homens machistas e violentos. Como sabemos, as mulheres foram também, no plano internacional, o centro temático de uma das grandes conferências da ONU dos anos de 1990, em Beijing (China), em 1995. (GOHN, 2009, p. 143)

No bojo dessas manifestações, o movimento produziu mais um lema para sintetizar a dor das mulheres com a perda das inúmeras companheiras assassinadas. Para além de expor a indignação, o slogan “quem ama não mata!” explicitou o horror das feministas diante da alegação de que os acusados dos homicídios viviam sob forte pressão emocional. O argumento que muitos homens usaram para se defender era reforçado ainda pela noção de que o ato criminoso foi perpetrado em “legítima defesa da honra”, nos casos em que havia suspeita de infidelidade feminina. A resposta feminista, ao que parece, pressupõe o interdiscurso masculino e questiona a opinião pública na tentativa de levar a sociedade brasileira a rechaçar qualquer tentativa de incutir, no senso comum, que os acusados poderiam ter cometido os delitos porque nutriam algum tipo de amor pelas suas vítimas.

Foto 3 – Mulheres reforçam o slogan, ao exigir o fim da violência, durante caminhada, em São Paulo, em 200529.

O eco dessas proposições e diversas marchas, vigílias e passeatas trouxeram o problema novamente à tona no século XXI, quando uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2002) apontou que uma mulher sofria violência a cada 15 segundos no Brasil,

29 Foto retirada do site da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB). Disponível em:

no início da década. As mobilizações de rua estamparam: “a impunidade é cúmplice da violência” e “quem ama não mata, não humilha e não maltrata” e possibilitaram a criação e a aprovação da Lei Maria da Penha, pelo governo Brasileiro, em 2006, um poderoso instrumento que leva a justiça do País a considerar a violência de gênero como um crime de grave teor ofensivo. A partir de então, qualquer denúncia é válida e a mulher não pode retirar a queixa de agressão. Entretanto, a existência de uma legislação especifica, por si só, apesar de ser um avanço, não garante a segurança das mulheres.

Em Pernambuco, por exemplo, os dados do Observatório da Violência, um projeto do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia –, revelaram que uma mulher era assassinada por dia no estado em 2006. As informações levaram o Fórum de Mulheres de Pernambuco a realizar, entre 2006 e 2009, uma série de vigílias pelo fim dos crimes contra a população feminina. Novamente, notamos a exigência do enfrentamento aos atentados contra a vida das mulheres associada a uma maior agilidade do Estado em punir os agressores. Um dos slogans mais massificados durante esses atos políticos, realizado todas as últimas terças-feiras de cada mês pela articulação, foi “basta de impunidade”.

Foto 4 – Mulheres protestam em vigília pelo fim da violência, em 2007, em Pernambuco. Foto:Val Lima.

1.4 - O feminismo, o protagonismo das mulheres, as conferências e a