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3. PERCURSO TEÓRICO-METODOLÓGICO

3.7 AS FERRAMENTAS PARA PERCORRER O CAMINHO E OS INSTRUMENTOS DE

154 Como a técnica deve ser coerente com o debate metodológico, pois são as ferramentas para percorrer o caminho, foram utilizadas nesta pesquisa as técnicas da coleta e da análise. De acordo com André (2005), a pesquisa etnográfica exige uma descrição densa da realidade, tornando o pesquisador o principal instrumento na coleta e análise dos dados. Para tanto, é necessário que o estudo seja realizado de forma aberta e flexível, possibilitando revisão dos pontos críticos e retirada e/ou inclusão de instrumentos de coleta. A observação sistemática direta, a entrevista semi-estruturada e o grupo focal foram os instrumentos utilizados na coleta desta pesquisa.

Para analisar os dados coletados, foi utilizada a técnica da análise do conteúdo, a qual, segundo Bardin (2009), é fincada no método da hermenêutica, buscando interpretar os dados, articulando dialogicamente objetividade e subjetividade, fazendo deduções e inferências e lançando mão do rigor científico para realizar transposições seguras do não verificável. Na análise foram utilizados como instrumentos, as unidades de significação e a categorização.

A observação sistemática direta é uma das bases fundamentais da etnopesquisa e é essencial a toda pesquisa de cunho qualitativo, pois é um dos meios mais eficazes para aproximar o pesquisador do contexto estudado. Martins (2006) salienta que o pesquisador- observador deverá fazer parte do contexto investigado, modificando-o e sendo por ele modificado. Nessa vertente, acrescenta André (2005, p. 26 e 27):

A observação é chamada participante porque se admite que o pesquisador tem sempre um grau de interação com a situação estudada, afetando-a e sendo por ela afetado. Isso implica uma atitude de constante vigilância, por parte do pesquisador, para não impor seus pontos de vista, crenças e preconceitos. Antes, vai exigir um esforço deliberado para colocar-se no lugar do outro, e tentar ver e sentir, segundo a ótica, as categorias de pensamento e a lógica do outro.

É necessário, portanto, ressaltar que é preciso acordar as fontes, assim, afirma Macedo (2006, p. 97):

O envolvimento deliberado do pesquisador na situação da pesquisa é não só desejável, mas essencial, por ser esta a forma mais congruente com os pressupostos da OP. Entretanto, essa posição não pode ser unilateral; a população pesquisada tem de se envolver na pesquisa, de forma que pesquisadores e pesquisados formem um corpus interessado na busca do conhecimento: o conhecimento é gerado na prática participativa que a interação possibilita.

155 Para o sucesso deste tipo de coleta de dados é importante o pesquisador apresentar para os participantes da pesquisa os objetivos do estudo e o problema de pesquisa, visando envolver o grupo e conseguir aceitabilidade e confiança para a realização de um trabalho harmonioso e de qualidade. Martins (2006, p. 25) enriquece arguindo:

Estar consciente do que se deseja levantar é básico, pois, do contrário, não se consegue ganhar confiança, tampouco obter elementos que permitam análises e reflexões. A significância de um trabalho dessa natureza é evidenciada pela riqueza, profundidade e singularidade das descrições obtidas. Aliás, esse é o grande desafio intelectual para os pesquisadores que buscam avaliações qualitativas.

A entrevista aberta ou semi-estruturada também foi utilizada nesta pesquisa. Esta é uma forma de coleta importante, pois apresenta a visão do pesquisador e a visão de quem informa, enriquecendo, assim, a pesquisa. É necessário ao pesquisador estar atento a entrefalas, entretextos, gestos, expressões e conteúdos não-verbais. Martins (2006) contribui salientando que em um estudo de caso deve ser mantido um clima amistoso entre o entrevistador e os entrevistados para que os elementos necessários sejam discutidos, percebidos e interpretados com fidedignidade para garantir o rigor na pesquisa.

Macedo (2006, p. 104) ressalta:

De fato, a entrevista é um rico e pertinente recurso metodológico na apreensão de sentidos e significados e para compreensão das realidades humanas, na medida em que toma como premissa irremediável que o real é sempre resultante de uma conceituação; o mundo é aquilo que pode ser dito, é um conjunto ordenado de tudo que tem nome, e as coisas existem através das denominações que lhes são emprestadas.

Nesse sentido, a entrevista se apresenta como uma interação social, na qual as relações pesquisador/pesquisado têm forte influência nas informações. Portanto, este é um procedimento que envolve emoções, linguagem, reflexão, consenso, e que necessita de esclarecimentos da pesquisa e seus objetivos, intencionalidade e significados para ambas as partes. É necessário conhecer o perfil dos participantes, um pouco da sua história profissional, a fim de criar vínculos e facilitar a interação. Szymanski (2004, p. 12) enriquece estas afirmativas acrescentando:

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Partimos da constatação de que a entrevista face a face é fundamentalmente uma situação de interação humana, em que estão em jogo as percepções do outro e de si, expectativas, sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas: entrevistador e entrevistado. Quem entrevista tem informações e procura outras, assim como aquele que é entrevistado também processa um conjunto de conhecimentos e pré-conceitos sobre o entrevistador, organizando suas respostas para aquelas situações. A intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o entrevistado se abra. Deseja instaurar credibilidade e quer que o interlocutor colabore, trazendo dados relevantes para o seu trabalho.

Nessa pesquisa foram realizadas entrevistas com as Assessoras Técnico-pedagógicas do município de Itabuna, com a Presidente do Conselho Municipal de Educação do referido município e com as professoras, diretoras e coordenadoras das duas instituições de educação infantil selecionadas para a realização do estudo. Saliento que o Secretário de Educação foi convidado, mas não participou da entrevista. No primeiro momento, foi feita a apresentação do pesquisador e da pesquisa a ser realizada: tema, objeto de estudo, objetivos, problema de pesquisa etc. e foi solicitada a permissão para a participação na pesquisa através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo). Procurou-se manter a garantia do anonimato. Foi aberto espaço para uma participação ativa dos entrevistados através de perguntas e informações, estas consideradas de suma importância para o desenvolvimento da pesquisa. Portanto, foi fundamental semear um clima de confiança, credibilidade e respeito para que fosse construído um trabalho ético e envolvente. A entrevista teve como ponto de partida os objetivos da pesquisa para que se pudesse atingir a questão em estudo através de um direcionamento organizado e reflexivo, promovendo a compreensão dos fatos.

Foi também utilizado como recurso metodológico o grupo focal, também chamado de nominal. Este se configurou numa entrevista coletiva aberta e centrada, mediada pelo pesquisador. Trabalhei com dois grupos focais, o primeiro para discutir as políticas públicas e a gestão da educação infantil, composto de oito profissionais: diretoras e coordenadoras pedagógicas das instituições pesquisadas, assessoras técnico-pedagógicas de educação infantil do município e uma auxiliar e a assessora técnico-pedagógica da educação do campo. Vale ressaltar que o secretário de educação do município não compareceu ao grupo focal e a presidente do CME justificou a sua ausência. O segundo grupo focal foi composto pelas professoras de educação infantil das referidas instituições visando ampliar o olhar sobre a prática pedagógica. Para os dois grupos focais, foram escolhidas duas temáticas diferentes,

157 uma para cada grupo. Para o primeiro grupo o tema foi As políticas públicas e a gestão democrática da educação infantil no município de Itabuna – Bahia, e para o segundo grupo A interferência das políticas públicas e da gestão na prática pedagógica. Foram observadas as condições de tempo e o lugar do encontro. Foi utilizado, também, o gravador para registrar a entrevista e estive atenta a todos os gestos e silêncios, pois eles representaram dados importantes.

Fez-se necessário o domínio de técnicas não-diretivas de entrevista e uma atitude que consiste em demonstrar tolerância às ambiguidades, paradoxos, contradições, insuficiências, impaciências, compulsões e, até mesmo, sentimento de rejeição ao tema tratado ou à metodologia. Neste sentido, saber ouvir, interromper, fazer sínteses, reformulações, apelos à participação, apelos a complementos, à distensão e a objetividade, foram habilidades utilizadas para que o trabalho pudesse acontecer da melhor forma possível. Para narrar tudo que estava sendo percebido durante os estudos foi utilizado o diário de campo. Este possibilitou a condição de registrar, sem perder fatos importantes durante o percurso.

Como a sociedade contemporânea é imagética foi utilizado na pesquisa fotografias e vídeos. As imagens desvelam sentidos novos, ampliando as reflexões e os horizontes da pesquisa. Elas fazem parte dos intertextos e enriquecem o trabalho, possibilitando a interface com os dados coletados e novas leituras da realidade. Assim, afirma Macedo (2006, p. 122):

O não-verbal não substitui o verbal, é bom que se diga, mas convive com ele, ou seja, as palavras ou frases que nele podem aglomerar-se perdem sua hegemonia logocêntrica para apoiar-se ou compor-se com o visual, sonoro, numa nivelação e transformação de todos os códigos.

Após a conclusão da pesquisa foi organizado um seminário para ser realizado no município de Itabuna com o objetivo de discutir a educação infantil do referido município em termos de políticas públicas, gestão democrática e prática pedagógica, visando à qualidade da educação das crianças pequenas. Acreditamos que este é um dos caminhos para assegurar o retorno a todos àqueles que colaboraram com este estudo, participando de todo o processo da pesquisa de campo.

Vale ressaltar que na primeira etapa da pesquisa, trabalhamos com as unidades de significação, ou seja, foram construídos conceitos e concepções que fizeram parte da fundamentação teórica. Na segunda etapa, esses conceitos foram organizados em categorias,

158 transformando-se em macroconceitos, dando maior visibilidade e consistência ao fenômeno estudado. E para finalizar, foi realizada uma análise densa, reflexiva, crítica e fundamentada por teóricos, estudiosos da temática, trazendo as evidências das afirmações e conclusões. Este foi o percurso teórico-metodológico que esta pesquisa trilhou para assegurar a qualidade dos achados.

159 4 DIALOGANDO COM O CONTEXTO REAL

Nós somos culpados de muitos erros e muitas faltas, mas nosso pior crime é o abandono das crianças, negando a elas a fonte da vida. Muitas das coisas de que necessitamos podem esperar, as crianças não podem, agora é o momento, seus ossos estão em formação, seu sangue também está e seus sentidos estão se desenvolvendo, a elas não podemos responder amanhã, seu nome é hoje.

Gabriela Mistral

4.1 A EDUCAÇÃO INFANTIL NA ZONA URBANA DE ITABUNA: AVANÇOS E