Contributos da utilização das ferramentas Web no acompanhamento escolar dos alunos em contexto fora da sala de aula
A integração das ferramentas Web no ensino constitui um verdadeiro desafio. Não basta utilizar ferramentas Web, é importante adequar e repensar as metodologias no sentido de as colocar “ao serviço de práticas renovadas e inacessíveis de outro modo, tornando a aprendizagem mais significativa e em concordância com as experiências diárias dos estudantes em sociedade” [Monteiro e Pereira, 2011].
Os trabalhos individuais ou de grupo constituem importantes instrumentos de avaliação, sendo muitas vezes desenvolvidos total ou parcialmente fora da sala de aula. A dificuldade, frequentemente verificada, de integração dos vários elementos no trabalho de grupo e, o de fazer despertar cada grupo para as temáticas dos restantes grupos é uma limitação apontada por Silva e Gomes [Silva e Gomes, 2003].
Este é um exemplo de limitação onde a utilização das ferramentas Web poderá representar um enorme contributo para a sua minimização, uma vez que, de acordo com Patrício [Patrício, 2009], a integração das ferramentas Web pode despertar nos alunos “maior motivação, interesse, participação e interação com os conteúdos e com os participantes”.
A Web permite inovar e evoluir para modelos de aprendizagem mais ricos “em ferramentas, espaços de intercâmbio e pedagogicamente mais prolíficos, onde estudantes e professores podem partilhar os seus conhecimentos” [Patrício, 2009].
Neste sentido, Cobo e Pardo [Cobo e Pardo, 2007] apresentam quatro propostas de aprendizagem, baseadas em Johnson [Johnson, 1992] e Lundvall [Lundvall, 2002]:
• Aprender fazendo: para este tipo de aprendizagem são úteis as ferramentas que permitem ao aluno e/ou ao professor escrever e ler na Web, segundo o princípio de “ensaio-erro”. Este processo de criação individual e coletivo promove a aprendizagem construtivista.
• Aprender interactivamente: promovida pelas plataformas de gestão de conteúdos que possibilitam a troca de ideias com outros utilizadores, a comunicação e interação. São exemplos a utilização de blogues, wikis, email e chats.
• Aprender pesquisando: é o processo de investigação, seleção e adaptação que amplia e enriquece o conhecimento de quem o realiza. Num local de grande quantidade de informação disponível é fundamental aprender como e onde procurar conteúdos educativos.
• Aprender partilhando: o processo de intercâmbio de conhecimentos e experiências permite aos alunos participar ativamente de uma aprendizagem colaborativa. No entanto, ter acesso à informação não significa aprender, assim a criação de instrumentos que promovam a partilha de objetos de aprendizagem contribui para enriquecer o processo educativo. Por exemplo, plataformas para a troca de apresentações, ferramentas de partilha de documentos, podcasts e vídeos.
As quatro propostas anteriores podem contribuir para o desenvolvimento das aprendizagens dos alunos no domínio das atitudes, competências e conhecimentos. Ressalva-se neste contexto, os possíveis contributos para o desenvolvimento de competências de criar nos alunos “uma cultura de aprendizagem em permanência ao longo da vida” [Costa e Silva, 2013]. Esta competência é evidenciada por Meirinhos e Osório [Meirinhos e Osório, 2011] ao defenderem que:
“o sucesso dos alunos reside mais no desenvolvimento de competências para o indivíduo ser capaz de aprender por si, ao longo da vida e de forma contínua, do que na necessidade de adquirir determinados conhecimentos, considerados essenciais para a alfabetização”. [Meirinhos e Osório, 2011]
Os contributos das ferramentas Web no ensino podem ser aumentados quando utilizadas, também, em contexto fora da sala de aula, por permitirem usufruir das vantagens da complementaridade dos dois contextos. Entre outros aspetos, porque possibilitam o acompanhamento escolar dos alunos por parte dos professores, colegas e encarregados de educação.
As modalidades educativas para a utilização da Web apresentados por Harasim et al. [Harasim et al., 1996], citados por Silva e Gomes [Silva e Gomes, 2003] são alguns dos aspetos metodológicos a considerar pelos professores no apoio escolar dos alunos em contexto fora da sala de aula:
• o professor deve estar disponível para apoio tutorial via Internet;
• os alunos devem utilizar ferramentas Web, as quais devem ser encaradas como um espaço público de partilha e debate de ideias entre os diversos grupos de trabalhos, através da apresentação de sugestões e comentários a respeito dos vários temas;
• os alunos podem/devem utilizar ferramentas Web para comunicar com os elementos do seu próprio grupo e com os restantes colegas da turma;
• os alunos podem/devem utilizar ferramentas Web para comunicar com o professor; • os alunos podem/devem utilizar ferramentas Web para comunicar com individualidades
e entidades exteriores à turma, que possam contribuir para a realização dos trabalhos; • os alunos devem considerar a possibilidade de proceder à pesquisa da informação via
Internet.
Esta modalidade reforça os contributos da utilização das ferramentas Web na medida em que o aluno sente necessidade de as utilizar, com mais autonomia, para ultrapassar as dificuldades (experimentando, comunicando, partilhando e colaborando com os outros), com maior liberdade e responsabilidade (nomeadamente nas publicações). Como consequência, o aluno adquire um conhecimento mais profundo das ferramentas Web ao mesmo tempo que desenvolve atitudes, competências e conhecimentos nas áreas disciplinares sobre as quais as atividades incidem.
Ao longo da revisão da literatura foram apresentadas várias ferramentas Web e feita uma pequena abordagem às suas potencialidades e contributos para o desenvolvimento dos alunos, nos vários domínios da aprendizagem.
São conhecidos vários relatos acerca dos contributos da utilização de ferramentas Web para o desenvolvimento de atitudes, competências e conhecimentos dos alunos. Lopes e Coutinho [Lopes e Coutinho, 2013, p. 822] em relação à utilização de ambientes de programação Scratch16, numa experiência com alunos do ensino básico, refere que este contribuiu para “a aprendizagem dos alunos, bem como para o desenvolvimento de várias competências nos alunos”, como “o pensamento lógico e abstrato, a resolução de problemas, a aprendizagem cooperativa, entre outras”. Para Amante [Amante, 2013, p. 1943] o Facebook “poderá contribuir para motivar e envolver os estudantes tornando-os mais críticos e menos passivos”. Os jogos de estratégia, para Silvestre [Silvestre, 2013, p. 1188] “contribuem para o desenvolvimento do pensamento estratégico das crianças, capacidade cada vez mais necessária hoje em dia”. No que respeita aos wikis, Proença [Proença, 2013] salienta que podem contribuir para a autonomia do aluno e para a resolução de problemas.
Numa perspetiva integradora e transversal das TIC, Pereira e Silva [Pereira e Silva, 2009] salientam que o desenvolvimento de competências dos alunos estão associadas às “aptidões
16 Scratch: é uma linguagem de programação criada no Media Lab do MIT. A sua utilização não exige o
conhecimento de outras linguagens de programação.
críticas de acesso, pesquisa, seleção, avaliação e reconfiguração da informação e do desenvolvimento dessa literacia digital, permitindo uma movimentação ágil e fluente num mundo baseado na informação”.
Segundo Castro citado por Cancela [Castro, 2006 cit. por Cancela, 2012] trabalhar com as TIC “potencia o desenvolvimento de capacidades, competências e saberes tendo como meta a formação de cidadãos capazes de dar resposta aos desafios que enfrentam na sociedade moderna”. Para Peralta e Costa [Peralta e Costa, 2007, p. 83] “os professores inovadores consideram que as TIC contribuem tanto para a melhoria da aprendizagem como para o processo de ensino, ao ajudar os alunos a desenvolver o pensamento crítico, a responsabilidade e estratégias de autonomia”.
Tendo em conta as perceções dos professores do ensino secundário inquiridos neste estudo e os resultados apresentados em outras investigações, verifica-se que a utilização das ferramentas Web apresenta contributos significativos no desenvolvimento de atitudes, competências e conhecimentos dos alunos.
Segundo o artigo apresentado por Silva e Gomes [Silva e Gomes, 2003] para os alunos, a flexibilização da comunicação com os colegas, com o professor e com outras entidades “a qualquer hora” e “de qualquer lugar”, “em qualquer fase do trabalho” e “com várias pessoas ao mesmo tempo” tornam o apoio escolar “melhor”.
A este propósito, Carvalho et al. [Carvalho et al., 2013, p. 546] referem que os alunos “aceitam com naturalidade o uso pedagógico dessas ferramentas (…) principalmente por tornarem as aulas mais atraentes e motivadoras”.
Em suma, a utilização das ferramentas Web facilita e motiva a aprendizagem dos alunos pertencentes à era digital. A sua utilização em todo o processo de ensino e aprendizagem, incluindo o contexto fora da sala de aula, pode favorecer as aprendizagens de “aprender a conhecer”; “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser” [UNESCO, 1996].
Capítulo 3
3 Metodologia
Neste capítulo apresentamos a caracterização da metodologia utilizada, a população e amostra, os instrumentos e os procedimentos de recolha de dados.