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CAPÍTULO 3 PORTAS ADENTRO: UM ESTUDO SOBRE O CONJUNTO PENAL

3.4 A S ENTREVISTAS : REPRESENTAÇÕES E AÇÕES EM FOCO

3.4.6 As filhas e os filhos no Centro Nova Semente

Atualmente, quatro mães presas têm filhas(os) no Centro Nova Semente

(CNS). Duas delas foram entrevistadas. Demonstravam-se satisfeitas por terem

filhas e/ou filhos acolhidos lá. Elas chamam de creche. O fato de a instituição está

situada ao lado do Complexo Penitenciário Lemos Brito (CPLB) dá um conforto

emocional às mães. Sentem que têm alguém da família próximo.

Semanalmente, as pequeninas e os pequeninos irão vê-las. É uma forma de

instituir um vínculo familiar. Esta relação de afeto dar a elas motivação para

quererem sair do cárcere, (re)construir a vida e cuidar dos filhos. Requer, então,

conhecer mais o Centro e avaliar como esta interação familiar, durante o

cumprimento da pena, pode ser fundamental para a (res)socialização das detentas.

O Centro Nova Semente (CNS) informou que apesar de ser chamado pelas

pessoas de creche, na realidade é uma instituição de acolhimento sem fins

lucrativos, mantida pela Igreja Católica, por meio da Pastoral Carcerária. É uma

casa-abrigo mantida por convênios do âmbito federal, estadual e municipal, além de

doações de particulares. Tem a finalidade de amparar as crianças, filhos de reclusos

do sistema prisional de Salvador, preservar ou restaurar os vínculos afetivos com os

familiares delas, em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente

(ECA).

Gráfico 21 - População do Centro Nova Semente

Fonte: Centro Nova Semente (2015).

De acordo com o Relatório das Atividades do CNS no ano de 2014, o Centro

Nova Semente atende a faixa etária entre zero e sete anos. Mas podem continuar

até serem reinseridos na família ou colocados em família substituta. A população

descrita no gráfico acima refere-se às crianças e adolescentes as quais não foram

reintegradas às respectivas famílias.

A reinserção consiste em: procurar informações sobre os familiares, avaliar se

há impedimento judicial para a reaproximação.

Se não houver, é r

ealizada a primeira

1 a 4 ANOS 5 a 8 ANOS 9 a 11 ANOS 12 a 15 ANOS

MENINAS 3 2 3 7 MENINOS 5 2 2 0 3 2 3 7 5 2 2 0 T o ta l d e 2 4

População do Centro Nova Semente Total de Crianças - 17

visita familiar ao acolhido e a visita deste à mãe no Conjunto Penal Feminino (CPF).

A Assistente Social faz a visita em domicílio da família para verificar a possibilidade

do acolhido poder visitá-la. Não apresentando risco para a criança, o Juizado da

Infância e Juventude libera as visitas à família que assinará um Termo de

Responsabilidade.

Se houver a possibilidade de reinserção familiar, o Juizado avaliará a

viabilidade do desabrigamento, que é a retirada da criança ou do adolescente do

abrigo o qual se encontra acolhida e para o encaminhamento ao convívio com a

família. No decorrer de todo este processo a mãe é visitada pela criança,

semanalmente, para a manutenção ou construção dos vínculos. Caso seja

impossível a manutenção da relação afetiva com a mãe presa ou do convívio

familiar, o magistrado poderá destituir o poder familiar e o menor ficará disponível

para a adoção (RELATÓRIO DAS ATIVIDADES DO CNS, 2014).

- CNS: Pela lei84 a criança só pode ficar na instituição de acolhimento por no máximo dois anos. O tempo é prolongado porque a família não tem condição ou estrutura.

- Perguntei: que estrutura você se refere?

- CNS: um lar ou onde ficar. O resultado é que por conta do amadurecimento sexual dos que vão se tornando adolescentes, fica difícil a convivência com os pequeninos. [...] Outro caso também é o de uma adolescente de 15 anos a qual não quer ficar com a mãe porque ela troca constantemente de parceiro, sendo todos ligados ao crime. [...] O rapaz85 de dezenove anos e seu irmão de dezessete, quando vão para o Abrigo, dormem em uma das casas construídas pela Irmã Adele para abrigar estes adolescentes que não têm para onde ir. Terminará a faculdade este ano. Foram reinseridos ao convívio familiar em dezembro de 2014. Mas ainda não foram desabrigados pelo Judiciário. Hoje, ficam mais tempo na casa da irmã deles. O motivo da reinserção foi a carência afetiva apresentada pelo seu irmão que quer saber quem é seu genitor. Eles não têm o mesmo pai. A mãe já morreu. Eles não deixam o abrigo, pois é sua maior referência familiar.

- Perguntei: Qual o conceito de família para essas crianças?

- CNS: Algumas declaram não ter família e para outras são todos os integrantes da instituição e os que querem bem a eles (CENTRO NOVA SEMENTE, 2015).

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Referiu-se a Lei Nacional de Adoção (LEI 12.010/09) que determina a permanência máxima de uma criança em abrigo seja de dois anos, salvo haja uma razão especial para a continuidade (art.2º, §2º).

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Este rapaz é o mesmo referido pela Irmã Adele, o qual está para completar a graduação em Designer.

Os dados levantados merecem atenção porque se a criança ficar por até dois

anos e for (re)integrada à família, ou adotada, ou for para outra instituição, os laços

de afeto desenvolvido com a mãe presa certamente romper-se-ão. Os depoimentos

das presas mostram que são rejeitadas pelas famílias e/ou estas não têm condições

financeiras para as visitas semanais. Encontrar com sua filha e/ou filho é a única via

de escape da rejeição sentida.

A forma que o sistema legal brasileiro conduz o convívio dessas famílias

parece passar bem longe das questões emocionais e psicológicas. Falta avaliar

através da Psicologia, por exemplo, a eficiência prática da Lei de Adoção que prevê

o prazo máximo de dois anos para a permanência da criança e adolescente em

abrigos.

Se o objetivo é preservar vínculos, a legis promove uma contradição. Ocorre

uma quebra no apego e carinho entre mãe e filha(o) e mais uma vez elege-se a

prática de violência sobreposta nas entrelinhas legais. Acompanhar a realização

deste processo de fato permite observar a tamanha agressão.

Quanto a lidar com a sexualidade aflorada na adolescência é outro obstáculo

dentro das instituições que precisa ser analisado em outros estudos. Separar

crianças e adolescentes que já convivem juntas, como uma família, também acarreta

em dor emocional (violência sobreposta).

Só para aumentar a dose do problema: se irmãos com idades diferentes

forem distanciados, o trauma psicológico é ainda maior. O trabalho de construir

casas, próximas ao Centro, onde os adolescentes possam ficar e manter o contato

com as crianças do Centro é muito significativo uma vez que a Irmã Adele tem

procurado encontrar a melhor forma para não afastá-los e tampouco abandoná-los.

- CNS: Aos sábados contam também com a presença de uma psicóloga voluntária e os padrinhos.

- Perguntei: Quem são os padrinhos e quais os pré-requisitos para sê-los? - CNS: são pessoas ligadas a Pastoral Carcerária. Se houver um apego ou uma relação de afeto com uma das crianças, a instituição abre espaço para a vivência em família com os padrinhos como: ir ao cinema, passar feriados e finais de semana na casa deles. Tem que ser católico, mais precisamente da Igreja de Santo Inácio, onde a Irmã Adele congrega-se, em razão de ter um referencial das pessoas interessadas em apadrinhar. É uma responsabilidade muito grande liberar crianças para sair. Por isso, tem que se conhecer bem a família que vai apadrinhar. Não há oposição para padrinhos de outras denominações ou quem não tenha religião. Se os interessados tiverem referências que possam trazer confiança para a instituição liberar uma criança... Há um cuidado de deixar bem claro a indisponibilidade da menina ou menino serem adotados. Ser padrinho é querer assumir a responsabilidade como tal, ou seja, não pode romper laços por ter enjoado da criança ou não gostar mais dela[...] Uma certa vez, um casal da Pastoral queria adotar um menino que morava no abrigo com sua irmã. A mãe, presa, de forma alguma permitiu. Tempos depois, já fora do presídio, foi buscar o menino e a menina para passar o São João. Depois devolveu o menino alegando não ter condições e ficou apenas com a menina.

As mães brigam pela visita da(s) filha(s) e/ou do(s) filho(s). Ao saírem do presídio, desejam os filhos e raramente dizem que não os querem. No entanto, poucas vêm visitá-los. Alegam não terem condições para sustentá-los. As crianças acabam revoltando-se pelo fato de não receberem nem uma visita da maioria delas. Sentem-se abandonadas (CENTRO NOVA SEMENTE, 2015).

O apadrinhamento é fundamental, pois promove uma interação com o mundo

exterior, além da escola, do presídio e do abrigo em si. Dar a oportunidade de essas

crianças e adolescentes encontrarem a possibilidade de, fora do Centro, existir

pessoas que as defendam, as protejam e gostem delas.

Quanto à mãe, acima citada, não permitir a realização de uma adoção e em

outro momento devolver a criança por não ter meios financeiros é triste saber deste

fato, principalmente, entender como ficou o psicológico daquele menino

“descartado”. Mas, neste caso, fica evidente que as dificuldades para refazer a vida

fora da cadeia é o principal fator do desligamento dessas mães. Dentro do cárcere,

elas falam de sonhos de (re)construção de vida juntos às filhas e/ou filhos, mas, fora

a realidade é outra. A pesquisa feita por Carvalho Filho (2013), em presídios

masculinos, identificou a lentidão na condução da vida após cumprimento de pena

era marcante em homens com mais de quarenta anos de idade e mais de dez anos

de privação de liberdade. Nos mais jovens, era comum a ansiedade em realizar

planos rapidamente e o fracasso destes torna-se um forte atrativo à recaída ao

crime. Da mesma maneira acontece com as mulheres.

“[...] Há também o caso de três irmãos, hoje adolescentes de doze, onze e

nove anos que a mãe não tem como acolhê-los, mas fica com eles todos os finais de

semana [...]” (CNS, 2015). Este caso da mãe que, depois do cumprimento da pena,

visita seus filhos no Centro por não ter condições de ficar com eles traz um caminho

a ser verificado: se é possível estender esta viabilidade de manutenção de afeto a

outras mães e suas filhas e/ou filhos.

A produção da mulher ideal: mãe perfeita e socialmente irrepreensível torna

inaceitável a conduta delituosa delas. Segundo Torres (2012) os abrigados no

Centro não admitem suas as mães como criminosas ou são encaradas como

vítimas, acusadas por um crime a qual não cometeram. Daí as acolhidas e acolhidos

do Centro Nova Semente (CNS) sofrem um conflito mental entre a realidade e os

moldes resultantes do estereótipo da mulher e dos papéis de gênero

preestabelecidos.

Ao chegarem ainda bebês, não sofrem com o rompimento do contato diário com a mãe. Mas, a partir dos cinco anos apresentam uma agressividade comportamental devido a buscarem respostas para a realidade na qual encontram-se como: Por que a mãe não veio me buscar? Por que morreu? Por que ela não tem condições de me criar? Por que meus pais continuam no crime? Por que na minha família? Este processo intensifica-se ainda mais na fase da adolescência. Quando se toca no assunto sobre a mãe e/ou o pai terem cometido algum delito, normalmente, respondem que seus pais pagam por um crime praticado por outra pessoa (CENTRO NOVA SEMENTE, 2015).

Constroem a subjetividade baseada em valores morais e religiosos sobre a

prisão, o crime, a punição e a exclusão experenciada por serem filhas e filhos de

presidiárias. Estes mesmos temas constituem questionamentos, no entanto, não

significa a entrada ao mundo do crime (TORRES, 2012). Esta é a situação das

crianças e adolescentes abrigadas as quais se descobrem diferentes das outras.

Elas têm de adequar-se ao contexto a qual foram inseridas para sobreviverem. No

depoimento, acima citado, recomenda-se cautela afirmar que um bebê, ao ser tirado

do contato direito com a mãe, não sofrerá algum dano emocional. Sugere-se um

estudo psicológico sobre o assunto.

As idas ao Centro Nova Semente (CNS) permitiram observar o ambiente

acolhedor proporcionado, pela instituição, às crianças que moram lá. A cozinha é

limpa, os quartos acomodações suficientes para as meninas e meninos. Tem um

carro à disposição das necessidades das crianças.

ESTRUTURA FÍSICA DO CNS:

a) Jardim e parque infantil, uma garagem, varanda em volta da casa, sala de estar, duas cozinhas, escritório da administração, escritório da equipe técnica, cinco banheiros, uma suíte, uma sala de estudos, um quarto para os meninos maiores, um quarto para educador, um refeitório e sala de televisor, uma lavanderia, outro refeitório externo, um depósito de alimentos, um depósito de material de limpeza e de higiene pessoal e uma sala de costura.

b) No primeiro piso temos dois grandes quartos subdivididos, dois grandes banheiros subdivididos, uma área de lazer (terraço), dois quartos, um berçário e uma suíte (RELATÓRIO DE ATIVIDADES DO CNS DO ANO DE 2014).

Figura 13 - Fotos da fachada e da área externa do Centro Nova Semente

Fonte: Relatório de Atividades do CNS do Ano de 2014

Figura 14 - Crianças no Centro Nova Semente

Figura 15 - Crianças no Centro Nova Semente

(Fonte: Relatório de Atividades do CNS do Ano de 2014)

Figura 16 - Cozinha no Centro Nova Semente

(Fonte: Relatório de Atividades do CNS do Ano de 2014)

Figura 17 - Sala de estar e de jantar

(Fonte: Relatório de Atividades do CNS do Ano de 2014)

Como se pode ver nas fotos, o Centro Nova Semente procura aproximar-se

da estrutura de um lar, ou convivência familiar. Além disto, as crianças vão à praia,

parques, clubes, lanchonete, restaurante, cinema e teatro. Mas, mantém a estrutura

de controle, pois, conforme o Relatório das Atividades do CNS no ano de 2014, a

Instituição estabelece um regimento interno com direitos e deveres para todos os

moradores no Centro.

Os acolhidos estudam em escolas do bairro da Mata Escura, onde o Centro

Nova Semente (CNS) é localizado. De acordo a idade e a escolaridade, eles são

inseridos em cursos profissionalizantes ou em programas como o Adolescente

Aprendiz. Em 2014, realizou-se oficina de teatro, oficina de Balé, oficina de iniciação

musical.

Para suprir as necessidades emocionais, o Centro utiliza uma equipe composta por uma pedagoga, uma assistente social, uma psicóloga todos os dias da semana. O trabalho é feito para desenvolver a autonomia das crianças para sejam independentes e tenham opção escolher a melhor forma de viver. É livre a escolha religiosa. Por exemplo: uma adolescente frequenta o espiritismo e um adolescente uma igreja evangélica (CENTRO NOVA SEMENTE, 2015).

Destaca o Relatório das Atividades do CNS de 2014 que nenhuma decisão

sobre futuro de alguma acolhida ou acolhido é tomada sem que haja o prévio

conhecimento e consentimento desta ou deste. Se não houver sucesso na

promoção e reinserção familiar ou tampouco o ingresso em família substituta,

busca-se ensiná-las ou ensiná-los construírem uma vida independente a fim de terem uma

emancipação segura na maioridade.