3.3 PARA ALÉM DO EUROCENTRISMO: LIMITES E POSSIBILIDADES
3.3.2 As Filosofias Africanas e Afrodescendentes
O livro de Vasconcelos traz problematizações como: Existe uma Filosofia africana? Ela é produzida por filósofos africanos? Ela é a que trata de temas relacionados à África? Ou ainda, o que é ser africano? Para entender e tentar responder essas perguntas, o autor demonstra que o norte da África recebeu influências da Filosofia Grega. O pensamento grego, na antiguidade, também foi influenciado pela cultura egípcia antiga, inclusive no norte da África. Aparece, também, Plotino, fundador do neoplatonismo, nascido no Egito, bem como Agostinho de Hipona, que nasceu no norte da África, dentre outros pensadores também islâmicos. Assim sendo, a maior parte dos filósofos do norte da África, identificam-se mais com a Filosofia ocidental ou com a oriental islâmica do que com uma Filosofia mais propriamente africana, como demonstra Vasconcelos.
Ao contrário, a África Subsaariana teve um menor e mais tardio contato com o pensamento europeu. A partir do empreendimento colonial marítimo europeu, é que os africanos foram ocidentalmente colocados em condições de inferioridade, como é percebido na obra. Um dos filósofos africanos, Anton Wilhelm Amo, mesmo sendo um grande professor universitário, jamais poderia, por exemplo, escrever textos livres, mas somente pautados nos pensadores clássicos europeus, ou seja, pode-se analisar essa problemática a partir da categoria alienação de Dussel.
Na sequência da obra, procura-se refletir que, somente no século XX, a partir da descolonização africana, foram intensificados os estudos de uma filosofia mais propriamente africana, pelos países da África Subsaariana. Esses estudos são relacionados a movimentos: “Diáspora Negra”, “Negritude”, “Pan-Africanismo”, dentre outros movimentos, pesquisas, relatos e ações, dentro e fora do continente africano. A discussão sobre uma filosofia propriamente africana desenvolveu-se juntamente aos movimentos de independência de várias nações africanas.
Antes da colonização, os povos africanos se identificavam como pertencentes a diferentes sociedades tribais ou reinos, e não a um pertencimento continental. A colonização contribuiu para um despovoamento da África, devido ao
trabalho escravo em outros continentes, impondo aos povos africanos uma perda de identidade, tidos como primitivos ou como demonstra o livro no termo “primitivismo”
Em outro momento, com a independência dos povos africanos, surge os problemas filosóficos, como: o que seria ou não filosofia? O termo “etnofilosofia”, como busca de diálogo com a sabedoria popular e a sabedoria das sociedades tribais. No entanto, essa forma de conceber a filosofia recebeu muitas críticas, por, muitas vezes, não se pautarem na escrita, e sim na oralidade, conforme já trabalhada na categoria dusseleana definida como exterioridade, o Outro está para além da totalidade, porque é um ente que não é somente ente, portanto, a totalidade não consegue o abarcar. O Outro, possuindo valores e direitos próprios, não depende da totalidade, porque é exterior a ela. O Outro possui direitos como pessoa, como povo, funda-se e justifica-se na própria exterioridade e não em projetos de sistemas. Fica evidente, então, a necessidade da categoria que envolve todas as outras, definida como libertação. Percebe-se, então, a necessidade de trabalhar as categorias analógicas dusseleanas que poderiam também estar presentes nos livros didáticos, principalmente a de Exterioridade e a de Libertação.
O livro apresenta também outra forma de estudos por meio da escola da “sagacidade filosófica” ou “sabedoria filosófica”, que busca identificar alguns indivíduos que representam sua cultura e visão do universo africano, por meio do pensador Henry Odera Oruka. Vasconcelos demonstra a “Filosofia profissional” de filósofos como Wiredu, que, com base nos modelos europeus, é analisada e refletida sobre as realidades diversas. Essa corrente filosófica desenvolve um modelo ocidental tradicional de reflexão filosófica sobre temas africanos. Observa-se também que a obra apresenta Lewis R. Gordon, pesquisador da filosofia africana, destacando que ele também é um pesquisador da filosofia latino-americana.
Outra corrente que o livro trabalha é a “Filosofia ideológica nacionalista”, representada por pensadores, como Amilcar Lopes Cabral, que buscam construir uma ideologia de emancipação política africana em uma perspectiva marxista. Salientando que a obra de Vasconcelos tenta demonstrar que os temas da Filosofia africana não são propriamente africanos, porque representam a africanidade em si mesma, como a palavra ubuntu, por exemplo, termo usado em algumas línguas banto, designando a relação entre o indivíduo e a comunidade: “conceito de força vital”. Ubuntu está relacionado ao “nós”, o ser humano é um “ser-com-os-outros” e, concomitantemente, um “ser-para-os-outros”. Aqui, percebe-se com clareza
possíveis diálogos com a filosofia da libertação na perspectiva da superação da totalidade de endeusamentos do eu, que deve ser superado a partir do “Outro”, ou seja, o “Nós”, tendo claro que ubuntu remete a uma visão de mundo especificamente africana, levando-nos ao conceito de “ancestralidade”. Este parágrafo percorrido remete a algumas formas de se dar as alteridades, as resistências, os diálogos e as vivências no processo da libertação.
O termo ancestralidade tem como fundamentalidade chave a compreensão da Filosofia afro-brasileira, tendo como interlocutor para essa reflexão Eduardo David Oliveira55, que cita, por meio do próprio livro:
A ancestralidade, inicialmente, é o princípio que organiza o candomblé e arregimenta todos os princípios e valores caros ao povo de santo na dinâmica civilizatória africana. Ela não é, como no início do século XX, uma relação de parentesco consanguíneo [...]. Posteriormente, a ancestralidade torna-se o signo da resistência afrodescendente. Protagoniza a construção histórico-cultural do negro no Brasil e gesta, ademais, um novo projeto sociopolítico fundamentado nos princípios da inclusão social, no respeito às diferenças, na convivência sustentável do Homem com o Meio Ambiente, no respeito à experiência dos mais velhos, na contemplação dos gêneros, na diversidade, na resolução dos conflitos, na vida comunitária entre outros56 (VASCONCELOS, 2016, p. 370).
Ubuntu também possui conotações metafísicas que remete a concepções
sobre a natureza da realidade, definida como “força vital”. Além disso, é apresentado outras reflexões sobre o enfoque de pensadores importantes, como Placide Tempels, Alexis Kagame, o filósofo brasileiro Henrique Antunes Cunha Júnior, dentre outros, bem como algumas obras nacionais: África e Brasil africano, de Marina de Mello e Souza; Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araújo; e os filmes:
Jardim das folhas sagradas, direção de Pola Ribeiro; Teza, direção de Haile Gerina.
É importante frisar que o Instituto de Filosofia da Libertação (IFIL) e o (G-FILO) procuram trabalhar essas temáticas por meio de palestras e estudos, realizados com
55 Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, pesquisador das culturas africanas e das relações interétnicas em intersecção com o campo educacional. A partir da ideia de “ancestralidade africana”, tema ao qual se dedicou ao longo de sua pós-graduação, busca compreender e intervir na educação com ênfase nas relações étnico-raciais do cenário educacional brasileiro em profunda conexão com o pensamento complexo e o paradigma da multirreferencialidade.
56 OLIVEIRA, Eduardo. Epistemologia da ancestralidade. Disponível em: <http://www. entrelugares.ufc.br/phocadownload/eduardo-artigo.pdf>. Acesso em: 11 maio 2016.
pensadores como o Dr. Ivo Pereira Queiroz57, dentre outros filósofos, sobre
Filosofias Outras, caminhando para o próximo subtema, Filosofias Feministas, que terá início por meio de um ensaio da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie sobre estudos africanos numa perspectiva feminista.