3.4 VEGETAÇÃO
3.4.2 Formação Pioneira com Influência Fluvial (várzeas)
3.4.3.4 As florestas e os campos do Sul do Brasil
Uma questão que é bastante controversa na literatura e que atualmente vem sendo mais bem esclarecida, principalmente através de estudos palinológicos, refere-se à distribuição e ocorrência atual e pretérita das formações florestais e campestres do Sul do país, formações aparentemente indiferentes ao clima atual.
Uma das primeiras hipóteses levantadas para tentar interpretar a distribuição dessas formações relacionava-as com as sucessivas mudanças climáticas que ocorreram no passado. Admitia-se que a vegetação primitiva da região, num período mais seco, teria sido do tipo xerófito, representada pelos campos, com ocorrência de florestas apenas nas margens de rios e lagoas. Com as mudanças climáticas para uma fase mais úmida, houve então invasão do campo por elementos das florestas ciliares, que avançavam sobre as áreas campestres até coalescerem com outras florestas. Os capões teriam sido formados nesta ocasião, provavelmente de sementes transportadas por animais ou pelo vento (PAUWELS, 1941).
Maack (1948b), discorrendo sobre pesquisas relacionadas à ocorrência de solos lateríticos e lateritos no Brasil, sob florestas e campos no Sul do Brasil, particularmente no Paraná, afirmou que esses solos e os lateritos não
correspondiam às formações florestais recentes, mas àquelas com idade Quaternária, do período em que dominavam as formações campestres na paisagem, corroborando com a hipótese anterior. Segundo o autor, esses solos e lateritos deveriam ter sido formados em períodos secos, com chuvas intensas e calor uniforme, após os quais se iniciou o processo de modificação do clima, passando para um período pluvial pronunciado que favoreceu o avanço das florestas em direção ao campo.
Em termos de clima, atualmente não existem diferenças significativas nas áreas de ocorrência das formações florestais e campestres que justifiquem a expansão ou contração de um desses tipos de vegetação, tanto que podem ser observados ocorrendo na forma de mosaicos numa mesma área. Considerando a precipitação, por exemplo, principal elemento climático na distribuição das principais tipologias vegetais, observa-se que nas regiões florestais e campestres do Planalto Meridional as diferenças são mínimas ou inexistentes (KUHLMANN, 1952). Quanto à geologia, não parece influenciar na estrutura dos campos e das florestas, uma vez que, sobre uma mesma litologia, por exemplo, os arenitos do Permiano, do Devoniano e do Triássico, são encontrados indistintamente campos e florestas. Quanto à profundidade dos solos, um mesmo tipo de campo pode ser observado sobre solos profundos ou rasos, sem aparente mudança de estrutura e composição florística. Embora as florestas estejam preferencialmente sobre solos mais profundos, não é raro, da mesma forma, encontrá-las ocorrendo sobre solos rasos (KUHLMANN, 1952; ROMARIZ, 1953).
Contrariamente a essas hipóteses e explicações, alguns outros autores admitiam que os campos e cerrados tivessem surgido a partir da intervenção do homem (RAWITSCHER10 citado por MAACK, 1981). Outros afirmavam ainda que os campos, especialmente os sul-rio-grandenses, eram formações edáficas, não faltando onde ocorriam fertilidade para a floresta, mas sim a profundidade suficiente. Por esses motivos, justificavam que em áreas com requisitos climáticos para formações florestais ocorriam os campos (RAMBO11 citado por FERRI, 1980).
Ferri (1980) discordava dessa última justificativa, mencionando, em contraposição, que as formações florestais podiam ocorrer sobre solos pobres ou
10 RAWITSCHER, F. Problemas de fitoecologia com considerações especiais sobre o Brasil meridional. Boletim
da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, v. 28, n. 3, p. 1-111, 1942.
rasos, como é o caso da Floresta Amazônica e de florestas do Rio Grande do Sul, respectivamente. Para esse autor, a condição de encharcamento é a que poderia determinar a pouca capacidade das raízes das espécies arbóreas em alcançar maior profundidade e assim poder se estabelecer.
A hipótese das flutuações climáticas relacionadas com a evolução das tipologias de vegetação na região Sul do Brasil atualmente está sendo a mais bem considerada. Os campos, juntamente com os cerrados, provavelmente constituíram a vegetação de um período anterior com condições climáticas áridas, associado à última glaciação, representando atualmente formas relictuais (MAACK, 1981). Alguns indicadores fundamentam essa hipótese, entre esses os de laterização das rochas e/ou dos solos na região, também citada por Maack (1948b); a ocorrência de plantas com xilopódios, cascas corticosas, e folhas coriáceas e/ou com pilosidade abundante, que permitem resistir a períodos climáticos desfavoráveis; e a ocorrência de encraves de vegetação de uma determinada região em outra, caracteristicamente diferente, como o cerrado na Floresta Ombrófila Mista (LEITE & KLEIN, 1990).
Além desses indicadores, estudos palinológicos e de carvão fóssil de áreas no Sul do Brasil também permitiram a reconstrução da história climática e de sua relação com a vegetação no período Quaternário. Os resultados obtidos indicam que no último período glacial, os campos dominavam na paisagem e as florestas ocorriam apenas no fundo de vales protegidos ou ao longo de cursos de água (BEHLING, 1997; BEHLING et al., 2004; BEHLING et al., 2005). Os campos representavam o maior bioma na ocasião e expandiram-se em direção ao sudeste (de 28/27oSaté 20oS), ao longo de mais de 750 km de extensão. As extensas áreas ocupadas por essa tipologia sugeriam que nesse período o clima era mais frio e seco do que o presente, com fortes geadas. A baixa abundância de pólen de espécies da floresta e de samambaias arborescentes, que precisavam de umidade, também são indicadores dessas condições climáticas (BEHLING & LICHTE, 1997; BEHLING, 1998; BEHLING, 2002).
Outros dados, do início do Holoceno, indicam que a partir desse período ocorreu efetivamente a expansão das florestas a partir dos vales e das florestas ciliares por sobre as áreas campestres, predominando os campos apenas nas terras mais altas. Essa modificação da fisionomia indica ocorrência de um clima mais quente e um aumento da precipitação anual, comparados ao da última glaciação (BEHLING, 1997; BEHLING et al., 2004; BEHLING et al., 2005).
Além disso, conforme registros fósseis de carvão, no Holoceno o fogo foi mais freqüente no Paraná, provavelmente devido aos ameríndios que o utilizavam principalmente para caçar (CARDOSO & WESTPHALEN, 1981; BEHLING, 1997; BEHLING et al., 2004). Inversamente, outros registros evidenciaram que no Rio Grande do Sul, no mesmo período, ocorreu redução do uso do fogo (BEHLING et
al., 2004). A alta freqüência da ocorrência do fogo na região pode ter influenciado a
migração da araucária para as áreas campestres (BEHLING, 1997) e, juntamente com as modificações do próprio clima para uma condição mais quente e seca, deve ter contribuído, inclusive, para a mudança da composição florística dos campos a partir do período citado (BEHLING et al., 2004; BEHLING et al., 2005).
Com relação à expansão da Floresta Ombrófila Mista, foi bastante lenta, pois do contrário toda a região do planalto meridional estaria completamente coberta por essa formação. Sob que condições esse processo foi possível e como se relacionou com o solo, os regimes de fogo e uso pelo gado, ainda são questões não respondidas (PILLAR, 2003). Uma das suposições está relacionada com a germinação e o estabelecimento das espécies arbóreas nas áreas campestres, que parece ser difícil de ser alcançado pelo fato das áreas ocupadas pelos campos geralmente serem planas e revestidas por um tapete de gramíneas e outras ervas. O denso sistema radicial funcionaria como uma eficiente barreira para as raízes de árvores e arbustos, impedindo ao mesmo tempo, o suprimento de água em curtos períodos de seca, diferente de campos pedregosos onde, na interface solo/pedra, as raízes encontrariam maior facilidade de penetração, assegurando lentamente o seu estabelecimento (MARCHIORI, 2004).