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4. CONFIGURAÇÕES DA PESQUISA: PERCURSOS METODOLÓGICOS

4.2 Caminhos percorridos

4.2.1 As fontes documentais registrando o passado

Encontramos no terreno das investigações em cultura escolar e em HDE, a possibilidade de existência de uma diversidade de fontes que podem fornecer indícios à

escrita destas histórias. Podem ser utilizados, como já referido, tanto fontes escritas, tais como impressos, relatórios, manuais, cadernos escolares, livros didáticos; fotografias, e fontes orais. A cultura escrita tem propiciado o conhecimento da cultura escolar. Vidal (2005) ressaltou o lugar central da escrita na produção do fazer ordinário da escola,

(...) seja como produto das relações pedagógicas (o exercício e o diário de classe, por exemplo); como efeito de construção de saberes sobre o aluno, o professor e o pedagógico (fichas antropométricas, relatórios e exames), ou, ainda, como derivação de uma prática escritural escolar (o jornalzinho de alunos e os boletins de professores). (p.4)

A citada materialidade dá suporte a práticas e saberes que fazem parte da cultura da escola, que buscam retratar parte dela. Para a autora, os objetos escolares permitem a percepção dos conteúdos ensinados e o entendimento do “conjunto de fazeres ativados no interior da escola” (p.16). Estes materiais trazem marcas da modelação das práticas e de suas diferenças.

Le Goff (1990) em sua obra História e Memória ilustrou, historicamente, o triunfo do

documento sobre o monumento, mas também apresentou os usos históricos de documentos como monumentos, remetidos muitas vezes a grandes coleções de documentos. O autor atribuiu ao século XX o período de revolução documental em que o documento é tratado como elemento indispensável ao historiador e que, em princípio, se tratava apenas de textos, mas que posteriormente foi ampliado ao âmbito do som, imagem ou de qualquer outra maneira de registro. Assim, as fotografias, assim como as materialidades poderiam ser consideradas documentos.

O autor destacou, como já citado, que o documento é um monumento a partir do esforço das sociedades em criar imagens de si mesmas. Assim, não há documento verdadeiro, logo cabe a necessidade de interpretação. O processo de produção de um documento envolve a atribuição de sentidos, de intencionalidades por aquele que o constrói.

Dentro da perspectiva de Le Goff (idem) além de documentos escritos, podem ser utilizadas fotografias, para buscar indícios de materiais, objetos, utilizados nas escolas no passado, além do conhecimento de espaços utilizados para as aulas e posturas dos sujeitos escolares.

A investigação de como se dá o processo de aculturação dos alunos, por exemplo, que é considerado complexo, que têm a participação do professor e para o qual os trabalhos dos primeiros seriam as fontes primárias, que muitas vezes não são encontradas. Essa lacuna dá

lugar ao trabalho com os manuais, relatórios de inspeção ou de bancas de exame e artigos de imprensa como fontes secundárias.

Geralmente, como fontes de investigação da história das disciplinas são propostos: textos oficiais, que apresentem os objetivos fixados para a escola - programas, discursos, leis, ordens, acordos, decretos, circulares, entre outros – e textos não oficiais, mas que expressam a “realidade da escola” – relatórios de inspeção, artigos, manuais de didática, debates parlamentares, etc. Além disso, há a necessidade de o historiador considerar depoimentos de professores, alunos e outros participantes do cotidiano escolar.

Vidal (2009) enfatizou o uso das fotografias, em meio às histórias de vida, autobiografias e histórias orais. Segundo a autora, o recurso da fonte fotográfica, como de resto à documentação escrita, também “permite apreciar como os sujeitos lidaram com as imposições e construíram seus percursos individuais e coletivos no interior da escola” (p.36).

Estas fotografias podem identificar as materialidades presentes na escola. De acordo com Souza (2007), a preocupação com materiais escolares remonta ao século XVI, mas a proliferação do uso de espaços e materiais escolares se deu no século XIX relacionado à expansão industrial e assim com a escolarização em massa.

Do surgimento da lousa no século XVIII ao uso do computador no final do século XX, dos bancos às carteiras individuais, da instalação dos primeiros museus e laboratórios nas escolas primárias no século XIX às diferentes proposições de salas ambientes no decorrer do século XX, a composição material da educação escolar evidencia a incessante busca pela racionalização da escola como organização e as tentativas de tornar o ensino mais produtivo e eficiente, às aulas mais motivadas e atrativas, a educação mais moderna. (SOUZA, 2007, p. 165)

Assim esta mesma autora apontou que desde o século XVI a cultura material escolar tem sido utilizada como meio de organização da escola, de suas práticas e de suas finalidades. Para Vidal (2005, p. 24) “não há prática escolar desligada das condições materiais de sua efetivação”. A materialidade escolar e seus espaços evidenciam intencionalidades e perspectivas de seus atores que utilizam estes elementos como instrumentos de suas ações didáticas.

Esta mesma autora (2005, p.4) aponta que a materialidade escrita, “convive com um conjunto também significante de objetos e móveis, que se não se apresentam imediatamente como registros documentais do passado, portam vestígios das práticas escolares instituídas historicamente”.

Em nosso trabalho, espaços e materialidades são utilizados para indicar como se dava a operacionalização da disciplina Ciências no período estudado, quais recursos podem ter sido utilizados nas aulas, como os alunos eram organizados espacialmente para estas, em quais espaços essas aulas eram desenvolvidas.

O estudo dos objetos como componentes de interpretação histórica tem sido voltado para a investigação das representações e práticas escolares: “o recurso analítico que interpela a materialidade das práticas faz emergir necessariamente os artefatos tomados como vestígios do passado e como documentos submetidos à crítica do historiador” (SOUZA, 2007, p.170). E, dessa maneira, a história da educação passou a estudar os aspectos internos da escola - espaço, arquitetura, currículo e práticas - aspectos como os que foram estudados nesta pesquisa.