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1. Capítulo introdutório

1.3. As fontes estudadas

1.3.1. Os relatórios anuais SPAMOI

Como referido atrás, os relatórios utilizados nesse estudo encontram-se disponíveis no acervo digital da Diamang, diamangdigital.net, e possui à disposição uma imensa quantidade de material documental. Os relatórios foram escritos por funcionários e eram publicados anualmente, no intuito de informar o engenheiro responsável e a administração (concretamente o administrador-delegado da Companhia) das ações tomadas no quadro dos objetivos da respectiva seção e dos seus projetos futuro, no contexto mais lato das obrigações contratuais da empresa junto ao Estado português, questão que expomos adiante.

Há uma padronização na construção dos relatórios anuais SPAMOI, todos seguem um modelo de categorização das atividades pautadas e com os objetivos atingidos, mesmo tendo suas analogias há também suas particularidades, que se acentua com alteração de relator, ou com eventos excepcionais ocorridos no ano. Essa identidade documental faz com que haja uma proximidade uniforme desde a sua primeira edição, em 1937, até o último ano estudado, referente ao ano de 1950.

Acentuo que pós-1940 pode-se observar com mais nitidez essa semelhança linear na construção dos relatórios. As modificações ocorrem ano após ano na instituição, com o crescimento das ações que envolvem a SPAMOI, isso reflete na organização adquirindo mais funcionários para o setor e nos relatórios com um maior detalhamento e descrição das atividades. A partir do relatório referente a 1940 há a presença de tabelas, tornando mais precisa e cientifica a informação quantitativa apresentada.

A investigação não contempla o Relatório anual SPAMOI de 1938, pois infelizmente não foi encontrado em arquivos. Particularmente, creio que o documento faz uma grande falta, ainda mais sendo relativo aos primeiros anos da seção, porém não inviabiliza o estudo. As informações referentes a 1938, foram obtidas em relatórios dos anos seguintes, quando mencionavam dados ou ações do ano em causa.

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De forma crítica, observo que os relatórios anuais anteriores a 1940 evidenciam uma baixa autonomia dos responsáveis administrativos pela seção. Fundamento o meu comentário na análise dos textos nos próprios relatórios referentes aos anos iniciais, nomeadamente os referentes a 1937 e 1939,Com efeito, a construção destes relatórios é realizada numa perspectiva dominantemente justificativa, contendo inúmeros elementos qualitativos. Esses documentos são moldados, em larga medida, segundo o propósito de relatar procedimentos para a fidelização dos funcionários voluntários e para convencer os funcionários contratados – em regime de trabalho forçado – a trocar para o regime de trabalho voluntário.

Pode-se encontrar nos relatórios anuais do SPAMOI, nos anos seguintes a 1939 uma grande preocupação com o cultivo e distribuição alimentar para os moradores da região administrada pela Diamang. Os motivos que levaram a dar uma maior atenção a fome na região encontra-se mais detalhados no capítulo 3 desse estudo. Além da produção e distribuição alimentícia, os relatórios abordam outros temas, como por exemplo a higienização e construção de aldeias para trabalhadores; o desenvolvimento de escolas para ensino técnico para crianças, jovens e adultos; assistência a mulheres grávidas e o repovoamento florestal.

É fundamental enfatizar que os relatórios são realizados por funcionários europeus da Diamang para informar a equipes diretivas e a administração. E em nenhum momento nos relatórios estudados encontrei alguma citação, ou menção de como estava a população negra, quais eram seus sentimentos, desejos, anseios e como se sentiam de acordo com as medidas impositivas por eles sofridas.

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1.3.2. As fotografias

As fotografias analisadas nesse estudo foram selecionadas de dois dos 153 arquivadores fotográficos da Diamang que se encontram no Museu Nogueira da Silva, onde foram catalogados e desconstruídos, no projeto de investigação já citado. Os arquivadores selecionados possuem o título original “Arquivo fotográfico 16 – SPAMOI, granjas, aclimação de plantas” e “15-C Assistência ao indígena”, perante a nomenclatura arquivística criada foi atribuído “PT_MNS_AFD_094” e “PT_MNS_AFD_104”. Esses dois objetos foram escolhidos de acordo com o tema e a problemática proposta para essa dissertação, tendo em vista que ambos colaboravam e possuíam fotografias das atividades SPAMOI e do cotidiano das mulheres negras de origem africana que habitavam na Companhia.

“Este acervo foi transferido para a unidade cultural da Universidade do Minho onde se encontra quando a SPE-Sociedade Portuguesa de Empreendimentos, sucedânea da Diamang, alienou algum do seu património1. É composto pelo arquivo fotográfico da “Secção de

Fotografia” da empresa. Esta divisão constituía-se como um serviço autónomo, criado com o propósito exclusivo de registar em fotografia todas as atividades desenvolvidas na região por esta sociedade.” (Oliveira M. F., 2019, pp. 92, 93)

Durante todo o processo de construção da narrativa desse trabalho foram consultados e problematizados os arquivadores que servem a essa pesquisa como fonte documental. Também foram utilizados os outros arquivadores presentes no inventário que são pertinentes ao mesmo tema, com o intuito de verificar os hiatos contidos e analisar o processo de construção e crescimento do SPAMOI, porém por não foram agregados por não corresponderem as balizas cronológicas atribuídas.

1 Conforme no texto original, segue nota: “De acordo com a informação recolhida junto do antigo

Diretor-geral da Companhia – Doutor Bernardo Reis, que acompanhou todo este processo, a Diamang foi nacionalizada após o período revolucionário e os seus bens, onde se incluíram os arquivos, foram transferidos para a Sociedade Portuguesa de Empreendimentos entretanto formada. Esta sociedade terá, nos primeiros anos de 2000, procedido à venda de algumas propriedades em Lisboa, incluindo a quinta onde os seus arquivos estavam alojados. Em face da venda dessas propriedades foi necessário deslocalizar o arquivo e decidir o que fazer com os seus fundos. Nesse processo foram transferidos fundos para diferentes instituições, nomeadamente para a Universidade de Coimbra, tendo o arquivo fotográfico sido transferido para a Universidade do Minho- Museu Nogueira da Silva.” (Oliveira M. F., 2019, p. 93)

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Diante das somadas 534 provas fotográficas encontradas nos arquivadores já previamente selecionados, foi necessário um novo processo de escolha para eleger apenas as imagens indispensáveis. Foram colhidas as fotografias que atraiam pertinência a esse estudo consoante a problemática e temática proposta. Os elementos que contidos nesse texto foram preferidos, pois traziam um enriquecimento a pesquisa devido as suas singularidades e como argumento engrandecedor portador de ricas informações que possibilitam novas críticas e debate acadêmico.

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