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Capítulo 3: Revisão Bibliográfica

3.1. As fontes narrativas da Cruzada Albigense

A historiografia política da repressão ao catarismo se inicia com a tradição fundada pelos autores medievais que versaram sobre o tema. Existem três fontes

contemporâneas ao conflito, que reúnem a maior quantidade de informações e riqueza documental sobre a Cruzada Albigense: a Historia Albigensis, do monge cisterciense Pedro de Vaux-de-Cernay298; a Chronica, escrita pelo notário toulousano Guilherme de Puylaurens299; uma canção de gesta, composta pelo trovador Guilherme de Tudela e um continuador anônimo300. Essas três obras apresentam diferentes visões sobre o conflito e foram escritas em diferentes contextos sócio-políticos, o que oferece ao historiador uma base diversificada de testemunhos.

A obra de Pedro de Vaux-de-Cernay, composta entre 1212 e 1218, abarca o período entre o início da pregação dos legados papais no Languedoc em 1203 e o cerco de Toulouse em 1218. Em suma, a Historia representa a visão oficial da Igreja medieval acerca da Cruzada Albigense, de que a guerra foi necessária para defender a instituição eclesiástica e combater a “depravação herética” no Languedoc, supostamente defendida pela aristocracia occitana. Pedro de Vaux-de-Cernay comenta o lançamento da Cruzada pelo papado:

Para incentivar as populações católicas a extirpar prontamente a peste da heresia, o Soberano Pontífice enviou bulas circulares a todos os prelados, barões e habitantes do reino da França: ele os instigava fortemente a ir para a província de Narbonne vingar a injúria ao Crucificado e os fazia saber que Deus e seu Vigário acertavam a remissão de todos os pecados a todos que, abrasados pelo zelo da fé católica, pegarem em armas para essa obra de piedade, com a condição que estivessem arrependidos e confessados301.

O monge cisterciense percorreu a região durante o conflito, tendo como interlocutores as lideranças militares e religiosas do exército cruzado, especialmente seu tio Guy de Vaux-de-Cernay (abade cisterciense e bispo de Carcassonne) e Simão de Montfort (líder militar cruzado). Apesar de sua escrita “partidarizada”, a Historia de Pedro de Vaux-de- Cernay permanece como a principal fonte sobre a participação da Igreja no conflito.

298 PEDRO DE VAUX-DE-CERNAY. Histoire Albigeoise. Traduzido por Pascal Guébin e Henri Maisonneuve.

Paris: Vrin, 1951.

299 GUILHERME DE PUYLAURENS. Chronica Magistri Guillelmi de Podio Laurentii. Tradução de Jean

Duvernoy. Toulouse: Le Pérégrinateur, 1996.

300 GUILHERME DE TUDELA E ANÔNIMO. La chanson de la croisade albigeoise (3v.). Traduzida por

Eugène Martin-Chabot. Paris: Les Belles Lettres, 1960-1973.

301 Tradução própria. “Pour décider les populations catholiques à extirper promptement la peste de l`hérésie, le

Souverain Pontife avait envoyé des bulles circulaires à tous les prélats, barons et à tous les habitants du royaume de France : il les pressait fortement d`aller dans la province de Narbonne venger l`injure du Crucifié et il leur faisait savoir que Dieu et son Vicaire accordaient la rémission de tous les péchés à tous ceux qui, embrasés du zèle de la foi catholique, prendraient les armes pour cette œuvre de piété, à condition qu`ils fussent repentants et confessés”. In : H.A. p. 35.

A segunda fonte, a Cronica de Guilherme de Puylaurens, é um relato mais resumido e disperso temporalmente, já que foi escrita anos após as outras duas fontes da Cruzada Albigense, entre 1250 e 1275. Por causa dessa diferença temporal, o autor pôde analisar de uma maneira mais abrangente as consequências da guerra para o Languedoc, da qual relata o período entre a missão de Bernardo de Claraval na região em 1145 e a rendição do conde de Foix ao rei francês Filipe III em 1272.

Guilherme de Puylaurens não condena o lançamento da Cruzada Albigense, vista como indispensável para reprimir o “diabólico catarismo”. A sua narrativa tem um tom melancólico, pois o autor era um funcionário da diocese de Toulouse, sendo assim uma testemunha importante dos eventos ocorridos na cidade. Diferentemente de Pedro de Vaux- de-Cernay, Guilherme de Puylaurens identifica a degeneração do propósito inicial da Cruzada Albigense – combater a heresia cátara – e critica ocasionalmente a cobiça das lideranças militares e religiosas dos cruzados que espoliaram a aristocracia occitana, estabelecendo assim uma “guerra de conquista”:

O conde Simão, de fato, homem digno de elogio em todos os quesitos, havia conquistado a terra com o auxílio do Senhor e a havia dividido entre os grandes e os cavaleiros. Eles se apoderaram dela de livre vontade, mas cobiçaram a governá-la não com o objetivo pelo qual foi originalmente conquistada, e sem se preocupar com o que pertencia a Cristo, mas para o seu próprio bem, se fazendo escravos de sua cupidez e vontade de prazer302. Por fim, a canção de gesta composta por Guilherme de Tudela e um Anônimo, entre 1210 e 1228, tem como originalidade o fato de representar a versão da aristocracia occitana sobre a Cruzada, relatando os eventos ocorridos entre a pregação dos legados papais no Midi em 1204 e a expedição do príncipe francês Luís na região em 1219. Essa fonte aprofunda a crítica de Guilherme de Puylaurens aos cruzados e descreve a resistência da população do Languedoc frente aos invasores cruzados, estabelecendo assim um contraponto à narrativa de Pedro de Vaux-de-Cernay. O primeiro autor, Guilherme de Tudela, tem uma visão intermediária: rejeita a heresia cátara, mas condena os excessos dos cruzados, ao passo que ameniza a culpa da aristocracia occitana na disseminação do catarismo. Ao comentar o

302

Tradução própria. “Le comte Simon, en effet, homme digne en tout point de louange, avait conquis la terre avec l`aide du Seigneur et l`avait partagée entre les grands et les chevaliers. Ils s`en emparèrent à leur gré, mais se mirent à la gouverner, non dans le but pour lequel elle avait été à l`origine conquise, et sans rechercher ce qui appartenait au Christ, mais leur bien propre, se faisant les esclaves de leur cupidité et de leur volonté de jouissance”. In : C.G.P. p. 101-103.

debate realizado em Carcassonne em 1204 entre prelados católicos e lideranças heréticas, o autor ataca os hereges:

É melhor que eu diga (Deus me abençoe): essas pessoas se importavam mais com uma maçã podre do que com os sermões. Durante cinco anos, ou por volta disso, eles continuaram a se comportar dessa forma. Esse povo não quis se converter, ó povo perdido! E essa foi a causa pela qual muitos homens morreram e multidões inteiras pereceram; outros ainda terão o mesmo destino antes que a guerra acabe; pois não pode ser de outra forma303.

Já o seu continuador anônimo tem posicionamento refratário ao exército cruzado, em especial a Simão de Montfort, por ele execrado. Para o autor, a Cruzada Albigense foi uma guerra injusta, conduzida por saqueadores que desejavam destruir a sua região sob o pretexto de combater a heresia, a qual o autor Anônimo não demonstrava simpatia. O continuador anônimo expõe seu pensamento citando um possível discurso do rei de Aragão, Pedro II: “Os clérigos e os franceses querem despojar de sua herança o conde, que é meu cunhado, e o expulsar de sua terra; sem erro nem falta alguma de sua parte, pois não se pode citar nenhum, mas somente porque isso os agrada, eles querem despossuí-lo”304.

Essas três fontes abarcam diferentes interpretações e discursos políticos sobre a Cruzada Albigense. Pedro de Vaux-de-Cernay representa a facção cruzada e eclesiástica do conflito, que vê a Cruzada como legítima, ao passo que o Anônimo representa a aristocracia occitana, vista como vítima da cupidez dos cruzados que estariam operando uma “guerra de conquista”. Entre essas duas posições, estão Guilherme de Puylaurens e Guilherme de Tudela, que entendiam que a Cruzada era um último recurso para combater a heresia, mas condenavam algumas atitudes de seus líderes.

Outras obras contemporâneas abordaram a Cruzada Albigense, em menor escala. O mestre da escola da catedral de Colônia, Olivier, escreveu em sua Historia Regum (1219) que o conflito foi um evento de unificação religiosa em meio a uma cristandade emergente, liderada pelo papa Inocêncio III, elogiado por Olivier305. Outra fonte de destaque foi a do

303 Tradução própria. “Il faut bien que je le dise (Dieu me bénisse) : ces gens ne font pas plus de cas des sermons

que d`une pomme gâtée. Cinq ans durant, ou environ, ils continuèrent à se comporter de la sorte. Elle n`a pas voulu se convertir, cette gens egarée ! Et elle est cause que maints hommes sont morts, que des foules entières ont péri ; d`autres encore auront le même sort, avant que la guerre ne soit finie ; car il n`en peut être autrement”. In : Chanson, Vol. 1, p. 11.

304

Tradução própria. “Les clercs et les français veulent dépouiller de son héritage le comte mon beau-frère et le chasser de sa terre ; sans tort ni faute de sa part, car on n`en saurait citer aucun, mais seulement parce qu`il leur plaît, ils veulent le déposséder”. In : Chanson, Vol. 2, p. 3.

305 BRUNN, Uwe. Des contestaires aux “cathares”. Discours de réforme et propagande antihérétique dans le

cisterciense Cesário de Heisterbach. Esse autor deixou sua marca na historiografia do catarismo, ao relatar a famosa e apócrifa frase dita pelo legado papal Arnaldo Amauri durante o cerco de Béziers em 1209: “Matem todos, Deus reconhecerá os seus!”. A Cruzada Albigense foi citada em seu Dialogus Miraculorum, e em algumas homilias escritas entre 1219 e 1225, nas quais o monge cisterciense detalha a perseguição aos hereges, denunciados como “ministros do diabo”, contra a Igreja no Midi.306

. Nessa mesma linha, o monge Reinier de Liège, em uma série de textos escritos entre 1210 e 1226, culpa a disseminação da heresia cátara pela deflagração da guerra. Tendo como aporte bibliográfico as fontes eclesiásticas do conflito, especialmente a Historia Albigensis, além do contato com lideranças do conflito (como o legado Conrado do Porto), o autor opina que a Cruzada Albigense abandonou seu propósito espiritual e se transformou em um conflito político307.

Podemos citar também a obra Llibre dels Fets (1230-1276)308 escrita em catalão pelo rei de Aragão Jaime I, na qual narra a participação aragonesa na Cruzada Albigense e a disputa por sua guarda durante o período de sua minoridade. Esse livro, além da riqueza histórica de ter sido escrito por um rei, tem como grande atrativo a exposição das relações de poder entre o papa Inocêncio III, o legado papal Pedro Benevento, o rei de Aragão Pedro II, a aristocracia occitana e o rei francês Filipe Augusto. Outro aspecto importante é que o Llibre

dels Fets apresenta a explicação da derrota aragonesa na batalha de Muret em 1213 sob a

ótica militar e religiosa, respondendo no momento da composição à crise política instalada no reino de Aragão, processo que encerrou a expansão aragonesa sobre o Midi.

Pedro II, pai do autor, não é retratado de maneira positiva na obra: para seu filho, ele era adúltero, ostentador, ingênuo e um líder militar ruim, o que teria causado o avanço da monarquia capetíngea sobre os interesses aragoneses no Languedoc. Ao contrário, Jaime I trata o papa Inocêncio III com deferência, demonstrando gratidão pela intervenção do pontífice em prol da sua manutenção no trono de Aragão309.

Por fim, é importante mencionar os relatos produzidos pelos cronistas da abadia de Saint-Denis e da corte parisiense acerca do conflito, em especial Rigoredo, Guilherme o

306 BERLIOZ, Jacques. Exemplum et Histoire: Césaire de Heisterbach (v.1180-v.1240) et la Croisade

Albigeoise. Bibliothèque de l`école des chartes. T. 147, p. 49-86, 1989.

307

BRUNN, Uwe. Des contestaires aux “cathares”. Discours de réforme et propagande antihérétique dans le pays du Rhin et de la Meuse avant l`Inquisition. Paris: Institut d`Études Augustiniennes, 2006, p. 450

308 JAIME I. The Book of Deeds of James I of Aragon. A translation of the medieval catalan Llibre dels Fets.

Traduzido por Damian Smith e Helena Buffery. Aldershot: Ashgate, 2003.

309

Ibid. p. 25. A obra foi escrita tendo como principais destinatários os descendentes do rei Jaime e também os membros da corte aragonesa. Convém ressaltar que o monarca possuía apenas cinco anos na batalha de Muret em 1213. Assim, ele recolheu grande parte do relato junto a pessoas influentes na corte do rei Pedro II. Cf. CABRER, Martín Alvira. El Jueves de Muret. Barcelona: Editora da Universidade de Barcelona, 2002, p. 126- 127.

Bretão e Guilherme de Nangis. Oriundos de um meio de transmissão da memória e cultura da corte francesa, esses cronistas narraram de maneira episódica a participação da monarquia capetíngea na Cruzada Albigense, inserindo a guerra em um relato geral da história dos reinos de Filipe Augusto e Luís VIII, em graus variados. Podemos perceber claramente que tiveram contato com a obra de Pedro de Vaux-de-Cernay, que também foi um monge de uma abadia ligada à corte parisiense. Rigoredo menciona o lançamento da Cruzada Albigense em 1208 pelo papa Inocêncio III justamente no último parágrafo de sua obra, afirmando que as indulgências foram oferecidas a quem se dispusesse a destruir todos os hereges da região. O autor não teceu nenhum comentário com profundidade a respeito do trecho em questão310. Apesar de o relato da obra findar antes da deflagração da guerra no Languedoc, Rigoredo silencia sobre a atividade diplomática epistolar do papa Inocêncio III direcionado ao rei Filipe Augusto.

Guilherme, o Bretão, aborda mais extensamente o conflito, reproduzindo o discurso de Pedro de Vaux-de-Cernay em duas obras: a continuação da obra de Rigoredo e a Filípida. Além de mencionar importantes batalhas da guerra (Béziers, Carcassonne e Muret), o cronista destaca as participações de senhores franceses laicos e eclesiásticos no conflito, com especial atenção às expedições militares do príncipe Luís da França311 e também da atividade política do rei Filipe Augusto na Cruzada Albigense312. Por fim, Guilherme de Nangis também aborda os cercos militares, mas, além disso, descreve a repressão aos hereges no Languedoc durante a Cruzada313.