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2. DO INDIVIDUAL COADJUVANTE AO COLETIVO PROTAGONISTA: AS

2.2 As formas coletivizadas de torcer no Brasil

Os primeiros agrupamentos de torcedores surgiram nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, nos primórdios da década de 1940. Na capital paulista, Toledo (1996, p. 22), aponta que essa incipiente forma de acompanhar o clube de predileção era conhecida como Torcidas Uniformizadas. O autor destaca como precursora dessa nova manifestação torcedora na cidade de São Paulo, a fundação da Torcida Uniformizada do São Paulo, em 1940, por intermédio de Manoel Porfirio da Paz e Laudo Natel. De acordo com Hollanda (2016), a ideia de formação dessas torcidas nasce a partir das viagens dos estudantes das Faculdades de Direito para os Estados Unidos. [...] nos EUA eles conhecem a força dos esportes universitários e importam para São Paulo o tipo de apoio e animação das plateias norte-americanas (HOLLANDA, 2016, p. 374).

Esses agrupamentos eram formados basicamente por jovens da classe média paulistana, em sua maioria, sócios e membros pertencentes ao corpo administrativo dos clubes, no qual seus interesses somavam-se aos interesses e necessidades dessas agremiações clubísticas (TOLEDO, 2000; CANALE, 2012). Igualmente, como o próprio nome já diz, os membros dessas torcidas uniformizadas apresentavam-se em dias de jogos com uma padronização em relação às suas vestimentas. Esse padrão se constituía em calçados, bermudas e camisetas com as cores alusivas as suas agremiações clubísticas, sendo naquele período uma característica não muito usual nas arquibancadas em dia de jogos (CANALE, 2012; TEIXEIRA; HOLLANDA, 2016).

FIGURA 5 - Torcida Uniformizada do São Paulo

Fonte: Disponível em: http://spfcpedia.blogspot.com/2008/10/tusp-primeira-torcida-organizada-do.html . Acesso em: 12 fev. 2018.

Na capital carioca, esses agrupamentos eram chamados de Charangas e/ou torcidas organizadas8. Em 1942, no Rio de Janeiro, Jaime Rodrigues de Carvalho, torcedor do Flamengo, fundou a Charanga - banda musical que passou a incentivar o time sem contar, com qualquer apoio financeiro do clube (TEIXEIRA, 1998, p. 45).

8 Tanto a Charanga Rubro-Negra como as várias Torcidas Organizadas cariocas que foram criadas entre o final dos anos 1930 até a década de 1950 contaram com métodos organizativos diferentes das torcidas organizadas que foram criadas a partir do final dos anos de 1960 em diante, predominantemente em São Paulo (CANALE, 2012, p. 49).

Depois desta, seria fundada em 1944 a Torcida Organizada do Vasco (TOV), por Aida de Almeida e um grupo de amigas que nos anos de 1950 passariam o comando a Dulce Rosalina; em 1946, surgiria a Torcida Organizada do Fluminense (TOF), por Paulista, que chefiava os tricolores desde 1939; em 1952, foi criada a Torcida Organizada do Bangu, liderada por Juarez; e, em 1957, a Torcida Organizada do Botafogo (TOB) era assumida por Tarzan, que substituía Salvador Peixoto, veterano torcedor alvinegro da década de 1940 (HOLLANDA, 2008, p. 107).

Essas torcidas criadas no Rio de Janeiro, apresentavam um caráter mais carnavalizado, marcando sua atuação através de cânticos e ritmos entoados por pequenas orquestras musicais animadoras das partidas, ocupando as arquibancadas sob a orientação de um líder, possuidor de vínculos estreitos com o clube e também com os meios de comunicação (TEIXEIRA, 1998; HOLLANDA, 2008). Esse caráter popular e festivo apresentado pelas torcidas cariocas durante o seu surgimento advém da década de 1930, influenciado pelo jornalista Mário Filho. De acordo com Silva (2006), através do Jornal “O Globo” seria criado em 1936, o “Campeonato de Torcidas”, que premiava os torcedores mais criativos, festivos e organizados.

Sejam as torcidas uniformizadas em São Paulo ou as charangas e/ou as organizadas no Rio de Janeiro, elas apresentavam características que, notadamente, se configuravam como marcas distintivas desses grupos. A imprensa esportiva atribuía ao líder de cada um desses grupos de torcedores o “título” de chefe de torcida, sendo este torcedor conhecido como uma figura mais carismática – até certo ponto folclórica – pelos torcedores em geral, em razão da assiduidade e a paixão clubistica exacerbada (HOLLANDA, 2016; TEIXEIRA; HOLLANDA, 2016). Os chefes dessas torcidas eram popularmente reconhecidos como “torcedores símbolos”.

O perfil desses torcedores símbolos de certo modo representava as características desses grupos em cada uma das cidades mencionadas. De acordo com Hollanda (2016, p. 373), no Rio de Janeiro, esses líderes não eram nascidos na cidade, “vindos do interior de Minas Gerais (como Tarzã, do Botafogo), de São Paulo (como Paulista, do Fluminense) ou do Nordeste (como Jaime de Carvalho, do Flamengo), oriundos em sua maioria das classes populares”, diferentemente dos líderes paulistas. Estes são, majoritariamente, quadros provenientes dos clubes e, portanto, das elites paulistanas da época (HOLLANDA, 2016, p. 373).

Essas torcidas não se apresentavam como grandes grupos, quando comparado às torcidas atuais. De acordo com Teixeira e Hollanda (2016), naquele período, esses grupos tinham entre cinquenta e duzentos membros, predominantemente formados por jovens e adultos

do sexo masculino, que se reuniam em dias de jogos para incentivar suas respectivas agremiações clubísticas sob a batuta de um líder. Além disso, havia um bom relacionamento entre torcidas, clubes e dirigentes. Ambos atuavam sempre de forma consonante em virtude da imagem positiva e reguladora passada pelos líderes dessas torcidas, além da presença de alguns membros ligados institucionalmente ao futebol, promovendo um ambiente de forte veiculação e dependência dessas organizações de torcedores, inexistindo qualquer tipo de manifestação contrária, especialmente, aos clubes (TOLEDO, 1996; CAVALCANTE; SOUZA; CAPRARO, 2013).

Preponderava nesse período o apoio irrestrito, independente do momento atravessado pelo clube do coração, caracterizando-se pelo ethos mais festivo nas arquibancadas (TOLEDO, 1996; TEIXEIRA; HOLLANDA, 2016). Diante da boa relação com clubes e dirigentes, essas torcidas não apresentavam maiores relações com a violência no futebol. Se havia brigas nos estádios, cumpre dizer que os casos de violência entre 1940 e 1960 costumavam ser atribuídos a torcedores anônimos, sem vinculação com as festivas torcidas organizadas (TEIXEIRA; HOLLANDA, 2016, p. 10).

Some-se a esse prognóstico o fato de não haver também manifestações incisivamente contrárias aos clubes, sobre qualquer ponto de vista, fosse este positivo ou negativo. Além do mais, não existiam atividades extra-partidas, como ocorre com as atuais torcidas organizadas. Dito de outro modo, a relação que se estabelecia era única e exclusiva durante o período dos jogos, sem organização de festas ou eventos paralelos, como acontece atualmente (CAVALCANTE; SOUZA; CAPRARO, 2013, p. 42).

No entanto, paulatinamente entre as décadas de 1960 e 1970, essa forma coletivizada de torcer passaria por importantes transformações. Se em São Paulo temos a criação das primeiras Torcidas Organizadas da cidade, no Rio de Janeiro, essa nova manifestação torcedora seria classificada como Torcida Jovem (TJ). Esses grupos de torcedores galgariam notoriedade no cenário futebolístico em comparação aos antigos agrupamentos existentes nessas cidades. Essas novas torcidas se apresentavam como as primeiras organizações burocratizadas de torcedores, além de se colocarem como forças independentes dos clubes (TORO, 2004; TEIXEIRA; HOLLANDA, 2016).

A formação dessas novas torcidas revelaria o surgimento de um modelo de organização mais sistematizado, não visualizado nas primeiras organizações de torcedores. Essas modificações extinguiram o torcedor-símbolo chamado de chefe, surgindo um

organograma mais complexo, cuja peça principal era denominada de presidente (HANSEN, 2007, p. 2). Especialmente a partir da década de 1980, esses novos agrupamentos apresentariam uma configuração burocrática ainda mais complexa, fundamentada em estatutos, quadro associativo, sede para ponto de encontro, comercialização de produtos envolvendo a marca da torcida e reuniões de interação social a fim de ensaiarem cânticos, gritos de guerra, coreografias e demais performances (TOLEDO, 1996; PIMENTA, 1997; SANTOS, 2013).

Além dessa burocratização das torcidas, Toro (2004), ressalta ainda que essas mudanças perpassam, sobretudo, pela postura incorporada pelos membros desses novos agrupamentos, destacando a formação da primeira torcida organizada da capital paulista. O surgimento da Torcida Organizada Gaviões da Fiel, do Corinthians, em 1969, atestava esse caráter crítico internalizado por esses grupos de torcedores. Cansados de sofrerem derrotas esportivas, torcedores do clube do Corinthians reúnem-se e começam a configurar uma voz exigindo triunfos e denunciando os maus manejos da diretoria do clube (TORO, 2004, p. 22). Sob esse aspecto, Toledo (2010), destaca que as torcidas organizadas paulistas surgem com notória inspiração popular – em comparação às torcidas uniformizadas que eram mais comprometidas com os interesses dos dirigentes esportivos –, e em parte autônomas em relação aos clubes, muitas vezes em confronto explícito com os dirigentes.

No Rio de Janeiro, Teixeira (1998), destaca a fundação das torcidas jovens do Flamengo, em 1967, e a do Botafogo, em 1969. Em 1970, é criada a Força Jovem do Vasco da Gama e a Young Flu, do Fluminense. Assim como em São Paulo, entre os membros desses novos agrupamentos criados na capital carioca, é visualizado um desejo de mudança de postura frente às suas agremiações. A criação dessas torcidas coincide com os primeiros anos de instauração da ditadura militar, marcado pela efervescência de protestos, sobretudo, pelos jovens daquele período. De acordo com Hollanda (2008), o apoio incondicional deixa de ser o único fim, sendo inserido por essas torcidas a contestação, o protesto e a pressão como outras possibilidades de manifestações desses grupos que, paulatinamente, apresentavam um perfil juvenil majoritário em suas fileiras.

Se as Charangas e as Torcidas Organizadas se restringiam ao princípio de “apoio incondicional” ao time, suas dissidências, as Torcidas Jovens, criticavam os dirigentes, questionavam o desempenho das equipes e punham em xeque a atuação do antigo chefe de torcida do mesmo time. Com isto, invertiam a concepção inicial de torcida organizada até então, vaiando, fazendo passeatas e protestos (HOLLANDA, 2016, p. 383).

O surgimento desses novos agrupamentos de torcedores em São Paulo e no Rio de Janeiro incentivaria nas décadas seguintes a formação de outras torcidas. Em função dessa nova configuração torcedora, Toro (2004), destaca que “os anos 70 e 80 experimentaram a aparição de outras numerosas TO, não só no contexto paulista e carioca, como também em variadas regiões do país, sobretudo no Rio Grande do Sul, na Bahia e em Minas Gerais (TORO, 2004, p. 22).”. Sendo assim, destacando para além das torcidas já mencionadas, ainda na década de 1960, a criação das Torcidas Jovens do Santos e da Ponte Preta. Na década de 1970, surgem a Leões da Fabulosa, da Portuguesa de Desportos, a Torcida Tricolor Independente, do São Paulo, a Raça Rubra Negra do Flamengo e a Máfia Azul, do Cruzeiro. Na década de 1980, temos a fundação da Mancha Verde, do Palmeiras, a Dragões da Real, do São Paulo e a Galoucura, do Atlético Mineiro.

O aparecimento dessas novas formas coletivizadas de torcer ganharia ainda mais protagonismo na seara esportiva em razão da relação dessas torcidas organizadas – assim como ocorria com os primeiros agrupamentos de torcedores cariocas e paulistas –, com o embelezamento do espetáculo futebolístico, sobretudo, através dos cânticos de apoio ao seu clube, bandeiras, camisas e outros materiais produzidos para os dias de jogos. Tal cenário se intensifica a partir da década de 1990, notadamente marcado pelo crescimento dessas organizações de torcedores, mas também pela sua vinculação a ocorrência de atos de violência no futebol brasileiro.

Somando-se ao contexto apresentado, na transição entre as décadas de 1980 e 1990, verificamos também o crescimento das redes de relacionamento inter-torcidas. Essas redes, comumente conhecidas como alianças, é parte do processo de afirmação dessas torcidas organizadas, funcionando como ponto de apoio nessas idas e vindas desses grupos de torcedores em dias de jogos pelo Brasil. No capitulo a seguir, discutiremos sobre essa rede de torcidas, especialmente, a partir da união entre a Galoucura, Mancha Alviverde e Força Jovem.