CAPÍTULO 1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1.4. AS FORMAS DE EXERCÍCIO DO PODER
A importância da hierarquia urbana é realçada nas escolhas de localização territorial das actividades económicas (Bennet e Graham, 1998). De facto, os processos de globalização têm levado as empresas a concentrarem-se nos maiores centros urbanos de cada região, o que realça a importância das economias externas – medidas como economias de urba- nização e de localização – na determinação da respectiva localização (Hodgkinson et al., 2001, Coughin e Segev, 2000; Feser e Bergman, 2000; Maurer e Walz, 2000; Westhead e Wright, 1999). A própria organização das áreas metropolitanas corresponde a um modelo urbano hierárquico (Bennet e Graham, 1998; Fingleton, 2000; Henneberry, 1999; Jones, 1995; Plummer e Tailor, 2001a, 2001b; Sunley, 1999). As redes de informação, bem como as teorias e práticas de localização das empresas com actividades inovadoras, desempe- nham um papel importante na sua própria capacidade de inovação e no seu sucesso, o que é reforçado pelas estratégias recentes de desenvolvimento regional baseado em redes (Roper, 2001): as áreas urbanas mais ricas em recursos são as mais propícias à inovação de produtos e serviços, enquanto que as áreas rurais são mais susceptíveis de nelas se processarem as adaptações aos processos de mudança.
As escolhas de localização das empresas dependem, por sua vez, de uma multiplici- dade de factores, tais como:
− A produtividade espacial, que depende do modo como a densidade de capital (relação capital/solo) e de trabalho (relação trabalho/solo) se distribuem no espaço (Fogarty e Garofalo, 1988; Thrall, 1991).
− As variações na procura decorrentes de condições de incerteza dos preços dos “inputs” e de incerteza tecnológica (Tan e Hsu, 2001; Tellier e Pinsonnault, 1998). − A influência exercida pelo volume de negócios, a acessibilidade e os comporta-
mentos de localização das outras empresas, de acordo com as respectivas áreas de actividade (Hall, 2000).
− A especialização, a liderança tecnológica, os recursos humanos, e a integração local das empresas (Plummer e Taylor, 2001b).
− O acesso à informação, ao apoio institucional, e a negócios inter-regionais (Plummer e Taylor, 2001b).
− O progresso técnico, associado ao crescimento endógeno (Fingleton, 2001). − As restrições regulamentares referentes à envolvente na formação do capital das
empresas (Garofalo e Malhotra, 1995).
− A diversificação dos investimentos internacionais (Adair et al., 1997).
− As ligações entre os rendimentos produtivos e/ou imobiliários, o Produto Interno Bruto, e as características do emprego (Adair et al., 1997).
As consequências territoriais das políticas que têm correntemente vindo a ser adop- tadas nas áreas urbanas e metropolitanas revelam, frequentemente, algumas fraque- zas, que são evidentes nas tendências de localização de empresas cada vez mais descentralizadas e especializadas – frequentemente dificilmente compatíveis com as restrições administrativas e os seus correspondentes atributos de planeamento e gestão –, e na proliferação de associações representativas da sociedade civil com características competitivas e diferentes incompatibilidades. Frequentemente assiste- se à inexistência de um plano estratégico geral, coerente e integrador de todos os diferentes interesses envolvidos.
Por essa razão é tão importante reflectir sobre as formas de exercício do poder e de participação pública na gestão e orientação dos processos urbanos, como meio de assegurar que as tendências de globalização não se vão sobrepôr irremediavelmente às realidades e necessidades locais.
diversificação e individualização crescente, o que é exemplarmente realçado por Oliveira (2001):
“Há muitos aspectos das sociedades do nosso tempo que tendem para a uniformi- zação. [...]. A verdade, porém, é que no interior de cada sociedade há muito mais diversidade do que já houve. O direito à diferença conquistou foros de cidade. Os diferentes grupos que compõem uma sociedade adquiriram voz, independentemente do seu poder económico, da sua etnia, da sua religião, das suas opções políticas... Assistimos a uma diferenciação, especialização e individualização crescentes. Esta diversidade acaba por se transformar em maior complexidade. Convém não esquecer que a diversidade respeita não somente aos elementos do sistema, como também aos tipos de inter-relacionamento entre eles. O efeito conjunto de maior complexi- dade, dinâmica e diversidade tem repercussões óbvias sobre a governabilidade dos sistemas e, naturalmente, a sua governância.”
A governância consiste na forma de organização das actividades de governo dos agentes políticos, administrativos e sociais (Oliveira, 2001), e a governabilidade na capacidade de geração de estratégias capazes de aproveitar as oportunidades e dar resposta aos problemas concretos (Kooiman, 1993).
Tem-se assistido à sucessiva passagem de estruturas de governação muito hierarqui- zadas para formas de exercício da autoridade e desempenho de funções colectivas baseadas em redes variadas e multifacetadas de organizações representativas da sociedade civil. São redes de trabalho muitas vezes informais, através das quais estes diferentes grupos interagem entre si e com a administração pública com vista à gestão colaborativa das diferentes facetas de interesses colectivos (Healey, 1997). Estas redes de interacção são frequentemente designadas na literatura por capital social, dotação institucional ou capital institucional. O conceito de capital social que tem vindo a ser sucessivamente incorporado na teoria e na prática do desenvolvimen- to comunitário é o conceito de Putman (1993a, 1993b, 1995, 1996, 1998, 2000), em que o termo se combina com noções referentes à sociedade civil, e se assume como sendo o principal motor do crescimento económico e da governação demo-
crática (DeFilippis, 2001). Para Bourdieu (1985), o capital social, ao ser constituído por redes de relações sociais, não se isola da noção geral de capital, que comporta, simultaneamente, relações económicas e de poder, e que constitui uma verdade nos domínios de interacção social normalmente não entendidos especificamente em termos económicos (DeFilippis, 2001). O capital social é, pois, um conjunto de enti- dades com duas características comuns: todas elas assentam em algum aspecto das estruturas sociais, por um lado, e facilitam determinadas acções dos agentes dentro das estruturas, por outro (Coleman, 1988). Tal como outras formas de capital, o capital social é produtivo, e torna possível o atingimento de determinados objectivos, o que seria impossível na sua ausência.
Os processos de internacionalização e de globalização reforçam a componente social da governância e da governabilidade (Oliveira, 2001), bem como, consequentemente, as preocupações pelos aspectos de pendor eminentemente social. Quanto maior fôr o número de instituições em que assenta o poder de uma sociedade em todos os domínios, acrescidas serão as suas possibilidades de governação e de desenvolvimento económico com vista à sua integração sustentada numa “sociedade global”.
Embora a globalização e a internacionalização gerem uma plataforma comum de raciocí- nio (uma base de referência e uma “linguagem” comum), o papel a desempenhar pelos agentes de decisão política e económica é cada vez mais importante, no sentido de identificar e dar resposta adequada às necessidades específicas associadas às pessoas e aos locais.
O planeamento municipal deve augurar-se como garante dos princípios fundamentais do Direito, designadamente o princípio da justiça (que pode, por sua vez, decompôr- se nos princípios da igualdade e da equidade (Amaral, 1993; Correia, 1993). Há que apostar na criação de condições que potenciem um papel mais actuante, efectivo e eficaz da Administração Pública no planeamento, uso e transformação do território, garantindo maior justiça, assegurando uma mais forte sustentabilidade regional e urbana, e garantindo melhores condições de vida.
Numa economia de mercado, as decisões de planeamento exercem um impacto crescente na definição, orientação e controle da evolução da envolvente construída, e das condições de vida quotidiana, do trabalho, educação e divertimento que nela se desenrolam (Adams, 1994). Para gerir a complexidade económica e social crescente é fundamental a adopção de estratégias concretas de promoção do desenvolvimento local de forma sustentada e em direcção ao desenvolvimento global, e de promoção da melhoria da qualidade de vida da população, incentivando a sua participação na definição e implementação de políticas.