Até o ano de 1988, os praças eram recrutados através de alistamento e serviam pelo período de três anos. Permaneciam aqueles que queriam, e, por indicação do comandante, iam sendo promovidos. Alguns conseguiam chegar ao topo da carreira. Também era comum a inserção na Força Pública de oficiais que tinham completado seu tempo de serviço no Exército.
Desde 1934, a Constituição Federal brasileira já estabelecia a acessibilidade aos cargos públicos pela via do concurso, visando privilegiar a capacidade individual em detrimento da
21 De acordo com Poncioni (2005), dois modelos se entrelaçam, formando o modelo policial profissional
resultante das reformas da polícia que ocorreram no final do século XIX e durante a primeira metade do século - XX: o burocrático-militar e o de aplicação da lei.
hereditariedade ou outro atributo pessoal. No entanto, essa medida não foi suficiente para assegurar isonomia entre os participantes dos concursos, já que a possibilidade de verificação de títulos – apenas – deixava brechas para a manipulação dos resultados. De acordo com Sousa (2011, p. 28),
a verificação de títulos, embora capaz de avaliar a experiência e os estudos desenvolvidos pelo candidato acerca da matéria, constitui uma modalidade indireta de avaliação de conhecimentos. Não bastasse, eleger critérios objetivos para julgamento de títulos é tarefa assaz complexa, podendo fazer com que o concurso descambe para a subjetividade.
Até então, o concurso público não gozava de caráter geral, já que só poderia ser realizado se regulamentado por lei e para os cargos organizados em carreira, o que restringia sua aplicação.
Com exceção da Carta de 1967, – que tornou obrigatória a realização de provas, ou provas e títulos, além de exigir a realização de concurso para todos os cargos, exceto os comissionados – as Constituições que se seguiram à de 1834 não trouxeram mudanças substanciais no que tange à realização de concursos para a ocupação de cargos públicos. Entretanto, muitos atribuem a este Texto Legal o mérito por dar início à moralização do sistema de recrutamento da força de trabalho estatal (SOUSA, 2011).
A década de 1980 foi marcada por reivindicações sociais ligados à luta por direitos e pela reestruturação democrática do país. Foi nesse contexto que a Carta Magna de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, foi promulgada, trazendo avanços significativos no que se refere à igualdade de direitos. Nela, o concurso público se consolidou com regulações mais específicas, na medida em que estabeleceu um conjunto de parâmetros para o acesso aos cargos públicos.
Não obstante, muitos concursos foram marcados por fraudes. Os editais, quando existiam, nem sempre eram homologados por órgãos responsáveis para fiscalizar e acompanhar todo o processo, ou não eram publicados em diário oficial, o que facilitava a alteração de critérios para favorecer alguns candidatos. Não foram poucos os escândalos por alterações de resultados ou mudança de critérios para facilitar os apadrinhamentos. A Polícia Militar não ficou alheia a esse processo. Os primeiros concursos para ingresso na PMSE foram realizados pela própria Corporação, o que dava margem a comentários sobre a idoneidade e parcialidade do processo seletivo. Nada ficou provado, mas, muito se ouve falar pelos corredores, de vazamento de gabaritos e de alterações nos critérios de avaliação para favorecer alguns candidatos, comumente apontados como “peixes”.
Quando os concursos públicos passaram a ser realizados por empresas contratadas é que as desconfianças sobre a legitimidade do processo de seleção foram desaparecendo. Em 1994, o concurso para o CFO passou a ser realizado pela Universidade Federal de Sergipe, nos mesmos moldes do vestibular. Assim, as condições passaram a ser as mesmas do vestibular, só que o candidato escolheria o CFO como opção de curso. Até hoje é assim.
Esse sistema representou um divisor de águas. A busca pela estabilidade dos empregos públicos fez disparar a procura e com ela, a concorrência. Com o passar dos anos, o nível de escolaridade exigido foi sendo elevado. O estabelecimento do concurso público acabou por selecionar, cada vez mais, os candidatos mais preparados intelectualmente. Assim, o perfil dos indivíduos que ingressam na Corporação se alterou significativamente nos últimos anos.
A tradição familiar de seguir a carreira militar tem sido cada vez mais abandonada. A influência da família sobre a escolha da carreira tem sido menos decisiva do que outros fatores, como a busca por um emprego estável. Com acesso a uma educação de melhor qualidade, o ingresso da classe média no oficialato da polícia militar foi se intensificando, substituindo boa parte da classe popular que ingressava antes do estabelecimento do concurso público, quando poucas pessoas tinham interesse em ser policial (ALBUQUERQUE; MACHADO, 2003; FERNANDES, 1979). Os homens ainda são maioria. Nos últimos anos, a PMSE tem estabelecido o percentual máximo de vinte por cento de mulheres para ingresso nos quadros de oficiais e de praças. As questões de gênero serão tratadas mais profundamente no quarto capítulo.
Essas alterações provocaram impactos na formação policial, tanto de oficiais como de praças. A melhoria da qualidade da formação passou a ser mais exigida e fiscalizada. Muitos centros de formação policiais militares deram início ao processo de credenciamento juntos aos órgãos educacionais e o consequente reconhecimento de seus cursos como técnico ou tecnólogo (no caso da formação de praças), e de nível superior ou pós-graduação (no caso dos cursos para oficiais).
As reformas implementadas no CFO, ao longo do tempo, o ingresso pela via do concurso público, o reconhecimento de curso de nível superior pelo MEC, e as consequências advindas de todo esse processo, conduziram o CFO a um formato diferente, mais próximo da atividade policial, sem, no entanto, perder o tradicional caráter militarista, conforme veremos a seguir.
3.3 O CURRÍCULO DOS CURSOS DE FORMAÇÃO DE OFICIAIS: UMA