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As funções defensoriais típicas e o conceito restrito de necessitado

2.3 BREVE HISTÓRICO DA DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL

2.3.3 Funções típicas e atípicas da Defensoria Pública

2.3.3.1 As funções defensoriais típicas e o conceito restrito de necessitado

A Defensoria Pública nasceu como instituição, inicialmente voltada à viabilizar a tutela de direitos tutelados por aqueles carentes de recursos materiais. A Constituição Federal de 1988 foi além se comparadas as suas antecessoras, vez que estas chegaram a prever a assistência jurídica integram, sem, contudo, designar órgão público específico para tanto. Com efeito, além de prever a assistência jurídica gratuita integral àqueles tidos como necessitado17, incumbiu o Órgão Defensorial de prestá-la, nos moldes previstos no art. 134, caput18.

Cândido Rangel Dinamarco caracteriza o final da década de 80, em que houve a promulgação da Constituição Federal, como momento inaugural dos institutos tradicionais de processo civil no Brasil. Nessa conjuntura, o foco, segundo o autor, resida na busca incessante

17 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros

e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: LXXIV - o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.

18 Art. 134. A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-

pela eficiência do processo civil, sob o aspecto prepoderantemente formal. Dito de outra forma, preconiza-se meios de tutela céleres e que potencializassem o ingresso do indivíduo no Judiciário (DINAMARCO, 2009, p. 33).

Em ótica similar, Luiz Guilherme Marinoni assevera que, conquanto o paradigma social tenha sido amplamente adotado pelo texto constitucional originário, mormente no que toca ao elenco amplo de direitos sociais, em relação ao processo civil o paradigma liberal se refletia na leitura dos institutos. Nesse primeiro estágio, o acesso à justiça era sinônimo de disponibilização de instrumentos eficazes de acesso ao Judiciário, principalmente aqueles capazes de facilitar o ajuizamento de ações individuais por partes de pessoas economicamente impossibilitadas de arcar com os cursos inerentes ao processo (2012, p. 45).

O Órgão Defensorial, por meio do modelo salaried staff eleito pelo texto constitucional, representou, na referida situação, órgão voltado a equilibrar a balança do acesso á justiça. Assim, a partir de uma interpretação filológica do art. 5º, inciso LXXIV, a conclusão à época era a de que a Defensoria Pública somente deveria prestar assistência jurídica gratuita integral em favor daqueles que se demonstrassem necessidade de natureza material, ou seja, econômica. Essa constitui, até hoje, sua principal linha de atuação, vez que os obstáculos econômicos ao acesso à justiça têm se tornado cada vez mais substanciais.

Acrescente-se, ainda, que o legislador constituinte, ao utilizar a terminologia assistência jurídica, no lugar de assistência judiciária, evitou restringir as funções defensoriais à seara judicial, a possibilitar orientações jurídicas que não necessariamente se vincule à judicialização de demandas. Exemplo disso são casos em que indivíduos de baixa renda que desejam celebrar contrato de financiamento com instituições financeiras. Nesses casos, muitos deles acabam por se dirigir à instituição com a finalidade de obter esclarecimentos a respeito da espécie contratual, mormente no que diz respeito à responsabilidade civil.

De outro lado, a ótica restrita em relação à conceituação de necessitado preexistia ao texto constitucional originário. A Lei nº 1.060/50 - a Lei de Assistência Judiciária - definia, em seu art. 2º, parágrafo único19, necessitado como aquele incapaz financeiramente de

suportar os ônus do processo, inclusive os honorários advocatícios. Ressalte-se que, embora

19 Art. 2º Gozarão dos benefícios desta Lei os nacionais ou estrangeiros residentes no país, que

necessitarem recorrer à Justiça penal, civil, militar ou do trabalho. Parágrafo único. Considera-se necessitado, para os fins legais, todo aquêle cuja situação econômica não lhe permita pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo do sustento próprio ou da família

tenha revogado grande parte da Lei de Assistência Judiciária, o Código de Processo Civil manteve a concepção de necessitado, em seu art. 98, caput,20 em sentido similar.

Hodiernamente, as Defensorias Públicas, estaduais e federal, têm fixado critérios para a aferição do estado de necessidade econômica dos pretensos assistidos. Por regra, segundo noticia Tiago Fensteseifer, estabelece-se o referencial de três salários mínimos como limite de renda indicativa da situação de carência material. Todavia, nada impede que se analisa outros fatores, a exemplo da existência de dívidas relativas a financiamento de bem de família ou pensão alimentícia. Em contextos como esses, podem ser considerados como economicamente necessitados mesmo aqueles que superem a precitada faixa de renda.

Na prática, as funções defensoriais típicas se manifestam tanto na seara cível quanto na criminal. Na área cível, é possível a representação processual para o ajuizamento de ações individuais cujos autores sejam economicamente necessitados, a exemplo de ações de alimentos ou indenizatória em face do Estado. Destaque-se que ações obrigacionais relativas à concessão de medicamentos pelo Estado têm sido cada vez mais comuns, tanto no âmbito individual quanto no coletivo.

Outrossim, no contexto das persecuções criminais, há a possibilidade de a Defensoria Pública exercer funções típicas e atípicas, sendo estas explicadas adiante. No que toca às funções típicas, constantemente investigado, indiciado ou réu se dirigem à instituição para que possam ser representados por Defensor Público, seja na fase inquisitorial como, também, na processual, a se considerar sua debilidade econômica.

Com efeito, verifica-se que a parte preponderante da atuação defensorial concerne à assistência jurídica atinente a demandas individuais de pessoas economicamente carentes. Entretanto, o transcurso do tempo e as consequentes alterações estruturais na sociedade geraram a necessidade de se questionar a extensão do conceito de necessitado.

2.3.3.2 As funções defensoriais atípicas e o conceito amplo de necessitado. A mutação

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