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As funções do crédito e o problema da moradia

3 O SENADOR ENTRE A “DOUTRINA” E A AÇÃO POLÍTICA

3.3 TRABALHISMO E INFLAÇÃO: A CRÍTICA DA PRODUÇÃO CAPITALISTA

3.3.5 As funções do crédito e o problema da moradia

Ao tratar novamente do tema da inflação, Alberto Pasqualini afirmaria que esta se configurava enquanto uma espécie de “tributação econômica sobre os salários” incidindo enquanto uma forma de “ônus que a nação tem de suportar”, sobretudo em relação aos “pobres” e às “classes trabalhadoras”:

O SR. ALBERTO PASQUALINI – (Lê o seguinte discurso) – Sr. Presidente, meus nobres colegas: Em considerações que tive a oportunidade de fazer

192 Id. 193 Id.

desta tribuna o ano passado, aludi à necessidade que tem o país de criar um mecanismo permanente de financiamento, quer para inversões condicionantes a cargo do Poder Público, quer para inversões condicionadas e essenciais a cargo da iniciativa privada, quer para financiamentos de natureza social e assistencial. Observei então que, de um modo geral, só há duas maneiras de financiar o desenvolvimento econômico do país: ou com os excedentes dos que possuem, dos que auferem lucros e rendimentos, ou à custa dos salários das classes proletárias. Torno agora a repetir que de um modo geral, temos seguido este último caminho. São os pobres, são as classes trabalhadoras que arcam afinal, com os maiores ônus que a nação tem de suportar, determinados pelas necessidades do seu desenvolvimento e por outros encargos muitas vezes improdutivos. As três formas, pelas quais se transfere o sacrifício para as classes proletárias, são, em primeiro lugar, os baixos salários em benefício dos lucros; em segundo lugar, os impostos indiretos; em terceiro lugar, a inflação que é uma tributação econômica sobre os salários. Define-se o Brasil como uma economia em fase de expansão. O tema social que todo govêrno se deve propor, tema obrigatório para um governo trabalhista, é que esse desenvolvimento não se opere à custa de maiores privações e sacrifícios das classes proletárias194.

Para o então Senador eleito pelo PTB não deveria haver uma separação entre os objetivos econômicos e os objetivos sociais na “organização do crédito” que deveria ter uma “função social” que seria justamente “impedir que a riqueza se concentre nas mãos de poucos”:

Não podemos abstrair os objetivos econômicos da organização do crédito os seus objetivos sociais. A função econômica do crédito é antecipar os meios monetários de trabalhar e produzir, de criar bens e serviços, de explorar as fontes de riqueza; sua função social é impedir que a riqueza se concentre nas mãos de poucos, é combater a ditadura do dinheiro, é proporcionar às classes trabalhadoras a aquisição dos meios de trabalho e de satisfazer suas necessidades fundamentais. É necessário que todos os que podem cedam um mínimo para que o país cresça e não se agrave sempre mais a situação dos que vivem na dificuldade. Se há um crédito organizado para a economia do lucro, deve haver também um crédito instituído para a economia da necessidade195.

Um dos temas mais fortemente tratados por Alberto Pasqualini nas suas falas no Senado Federal esteve alicerçado às questões atinentes ao acesso à moradia. Salientaria, novamente, que o “problema da moradia não existe para as classes abastadas” mas sim se configuraria enquanto um “problema típico das classes proletárias”. Assim, para o então Senador, “uma sociedade bem organizada deve criar todas as condições e proporcionar os meios para que esse direito possa ser concretizado”:

Um dos critérios fundamentais do homem é o direito de estar, isto é, o direito de ocupar certa porção do espaço físico, como condição da própria existência

194 Id. 195 Id.

material. Esse direito, nas suas conseqüências, nos seus corolários lógico- sociais deve traduzir-se no mundo moderno, pelo direito de cada um a ter sua moradia para nela abrigar a família e constituir o seu lar. Não seria suficiente, porém, o reconhecimento teórico e jurídico deste direito desde que a questão não pode, em nossos dias, ser colocada apenas em termos de possibilidade, mas deve ser posta em termos de efetividade. Eis por que uma sociedade bem organizada deve criar todas as condições e proporcionar os meios para que esse direito possa ser concretizado. O problema da moradia não existe para as classes abastadas, que podem desfrutar do confôrto dos palacetes e dos apartamentos de luxo. É um problema típico das classes proletárias, dos que vivem de salários ou vencimentos médios e inferiores. Para estes últimos, as dificuldades se tornam, dia a dia, mais angustiantes196.

Não obstante, o Senador salientaria que o problema da inflação incidiria na desvalorização dos salários e no aumento de valor da propriedade imobiliária. Para Alberto Pasqualini, os mais prejudicados pelos altos índices do processo inflacionário seriam, definitivamente, os trabalhadores assalariados:

Quando, em conseqüência da desvalorização da moeda decresce o valor real ou poder aquisitivo dos salários o trabalhador se vêm na contingência de reduzir as demais despesas, inclusive de moradia, forçado que é a aplicar maior porcentagem dos seus ganhos em alimentação. Por outro lado a propriedade imobiliária – valoriza-se aparentemente, por efeito da depreciação monetária e, realmente, em face da maior procura dos que pretendem aplicar nela, o dinheiro, para fugir dos efeitos da inflação. A desvalorização dos salários e a valorização da propriedade e, portanto, a elevação dos aluguéis, obriga o trabalhador, sobretudo nos grandes centros urbanos, a deslocar-se para as zonas periféricas ou para as áreas cujo valor esteja na paridade de sua capacidade de pagar despesas de moradia. Quando essa capacidade tende para zero, é a população pobre forçada a procurar abrigo em lugares praticamente abandonados e cuja ocupação pouco ou nada lhe custe197.

Quando a propriedade imobiliária valorizava-se, justamente em função do ritmo inflacionário, a tendência era a de que houvesse a “elevação dos aluguéis”, fator que obrigaria os trabalhadores, “sobretudo nos grandes centros urbanos, a deslocar-se para zonas periférias ou para as áreas cujo valor estejas na paridade de sua capacidade de pagar despesas com moradia”. Em condições extremas, salientaria, ainda, que a “população pobre” se via “forçada a procurar abrigo em lugares praticamente abandonados” cuja ocupação “pouco ou nada lhe custe”. Entretanto, o Senador afirmaria que, embora esse mesmo movimento de preços pudesse ser considerado enquanto “natural” poderia adquirir um “ritmo anormal e acelerado” em “período inflacionários”:

Esse movimento poderia, dentro de certos limites, considerar-se um fato natural. Ocorre, porém, que pode ele adquirir um ritmo anormal e acelerado

196 Diário do Congresso Nacional. República dos Estados Unidos do Brasil. 22 de agosto de 1952. 197 Id.

nos períodos inflacionários, pois, então, a pressão centrífuga estará na razão direta da valorização da propriedade e da desvalorização dos salários198.

A sequência da sua fala foi interrompida por alguns apartes do Senador Kerginaldo Cavalcanti que mostrou-se bastante favorável como representante da Comissão de Trabalho e Previdência Social no Senado Federal. Para Alberto Pasqualini, tudo “que o trabalhador puder reduzir em despesas de moradia poderá empregar no atendimento de outras necessidades e na aquisisção de maior quantidade de utilidades”. Nota-se, neste específico aspecto, semelhança com a ideia de “teor de civilização”, cuja medição, segundo o próprio Senador, estaria atrelada ao “teor das necessidades”. Assim, reforçar o poder aquisitivo dos trabalhadores assalariados significaria uma “redistribuição adequada de uma parte dos excedentes dos grupos privilegiados” constituindo-se enquanto uma espécie de “imperativo social” e, também, enquanto uma “medida de sábia política econômica”:

O Sr. Kerginaldo Cavalcanti – V. Exa. terá o meu apoio integral na Comissão de Trabalho e Previdência Social. O ponto de vista que defende e merece toda a minha simpatia, e acredito ser o único que atende realmente às necessidades do operariado brasileiro.

O SR. ALBERTO PASQUALINI – Muito obrigado a V. Exa. Tudo que o trabalhador puder reduzir em despesas de moradia poderá empregar no atendimento de outras necessidades e na aquisição de maior quantidade de utilidades. Libertar por esse modo uma parte dos salários será uma forma de aumentá-los e de distribuir por muito maior número uma capacidade aquisitiva adicional; será uma forma de aumentar as possibilidades do consumo interno e de que depende fundamentalmente nosso desenvolvimento agrícola e industrial. Não devemos esquecer que a grande massa da população consome o que produzimos internamente, ao passo que são as camadas de maior potencial econômico que consomem os produtos de importação. Reforçar o poder aquisitivo da massa, com a redistribuição adequada de uma parte dos excedentes dos grupos privilegiados, constituiu, pois, não apenas um imperativo social, mas também medida de sábia política econômica199.

Alberto Pasqualini não deixaria, ainda, de fazer alusão direta às questões da “especulação” como responsável pela “alta contínua dos preços”. Colocou em relação os “açougueiros”, “vendeiros” e “feirantes” ou o “comércio varejista” com os “verdadeiros tubarões” que seriam considerados enquanto sendo aqueles que apenas “manobram invisivelmente os cordéis da política econômica, financeira e monetária do país” cujo único objetivo seria o do “dinheiro”:

Ao falar em especulação não me refiro aos açougueiros, ao vendeiros e os feirantes: não devemos pensar no comércio varejista, que por estar em contato direto com o público é freqüentemente o bode expiatório. É ele tão

198 Id. 199 Id.

responsável pela alta contínua dos preços como os cristãos pelo incêndio de Roma. Os verdadeiros “tubarões” se encontram nas águas profundas, onde manobram invisivelmente os cordéis da política econômica, financeira e monetária do país. Lá não há partidos que os separem porque possuem, na realidade, um único que é o do dinheiro200.

O Senador trabalhista procurava associar o “ganho especulativo” como “improdutivo”, pois este não aumentaria a “substância econômica” e em “nada” acrescentaria “em riqueza”: um “processo canceroso do organismo econômico e que acabará por corroer-lhe e liquidar-lhe a estrutura”:

O Sr. Kerginaldo Cavalcanti – Aliás, não com o brilhantismo de V. Exa. tive ocasião de frisar este ponto perante o Senado.

O SR. ALBERTO PASQUALINI – Parece que estamos sendo avassalados por uma onda de insânia e não compreendemos que todo ganho especulativo ou improdutivo não aumenta a substância econômica, nada acrescenta em riqueza e é apenas uma forma de tirar de muitos para o enriquecimento, sem causa, de poucos. É uma espécie de processo canceroso do organismo econômico e que acabará por corroer-lhe e liquidar-lhe a estrutura201.

Na sequência, igualmente, não deixaria de operacionalizar na sua fala os “constrastes entre os grupos sociais” que se tornariam mais evidentes a partir dos efeitos “do sistema econômico e seus mecanismos”. Proclamaria ainda que, embora existissem partidos políticos diversos, todos deveriam possuir “a mesma concepção dos problemas fundamentais e de sua solução, que esposam os mesmos ideais de liberdade e de justiça social”:

Os contrastes entre os grupos sociais se extremam cada vez mais por efeito do sistema econômico e dos seus mecanismos. Há um processo de crescente exacerbamento entre a “tese” e a “antítese”, podendo ser a “síntese” uma eclosão violenta. Para que isso não ocorra cumpriria que todos aqueles que pertencem embora formalmente a partidos diversos, mas que possuem a mesma concepção dos problemas fundamentais e de sua solução, que esposam os mesmos ideais de liberdade e de justiça social, se dispusessem a coordenar e unir os seus esforços para uma ação política comum: ação política de sentido elevado, sem objetivos individualistas, mesquinhos e diversionistas, inspirada unicamente no propósito de dotar a coletividade nacional dos novos instrumentos de que necessite para o seu progresso, a sua tranqüilidade e seu bem estar: de uma ação política que tenha como suporte moral a firme disposição de extirpar da vida nacional tôdas as formas de exploração, de negocismo e de corrupção e de organizá- la em bases de maior decência e austeridade202.

O conteúdo final de sua exposição parecia concentrar intensificadamente aspectos significativos de seu discurso político: primeiro, da relação com a justiça

200 Id. 201 Id. 202 Id.

social; segundo, da crítica aos “objetivos individualistas” – tanto dos capitalistas que somente estariam interessados no lucro “individualizado” e, por conseguinte, “improdutivo” quanto pelas lideranças partidárias cujas preocupações estariam somente concentradas na manutenção de sua influência. Ambos qualificados de “mesquinhos”. A proposta seria, finalmente, a de “extirpar da vida nacional tôdas as formas de exploração, de negocismo e de corrupção e de organizá-la em bases de maior decência e austeridade”. Em todos os aspectos levantados, a intervenção do Estado seria uma das bandeiras defendidas pelo Senador Alberto Pasqualini que se mostraria com maior evidência no que diz respeito à defesa do monopólio estatal do petróleo e o caso da Petrobrás.

3.4 A DEFESA DO MONOPÓLIO ESTATAL DO PETRÓLEO E O CASO DA